Regina Ribeiro
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Regina Ribeiro é jornalista e leitora voraz de notícias e de livros. Já foi editora de Economia e de Cultura do O POVO. Atualmente é editora da Edições Demócrito Rocha

Opinião

"Tudo de bom vai acontecer", como diria a nigeriana Sefi Atta

Uma ligeira alta do PIB animou o governo, como se tudo estivesse bem. Não está. Infelizmente o consumo das famílias continua estagnado.

O presidente Jair Bolsonaro ficou tão empolgado com o resultado do crescimento do PIB, de 1,2% no último trimestre em relação ao anterior que, ao se encontrar com seus fervorosos seguidores na entrada do Alvorada, afirmou que “lamentava as mortes”, mas que apesar de tudo, “o Brasil vai bem”. Na quarta-feira, em pronunciamento nacional, o presidente voltou a atacar as políticas de isolamento social para conter os descalabros no setor da saúde.

Infelizmente, a fala do presidente é mais ou menos igual ao do menino travesso – e mentiroso – da fábula de Esopo, “O lobo e o filho do pastor”. É difícil acreditar nelas. A começar pelo lamento ao quase meio milhão de mortes no Brasil. Deveria ser um choque, mas, para ele, o que importa é a economia.

Quanto à economia, ao contrário do que diz o presidente, o Brasil não vai bem. Basta olhar o que pesou de forma efetiva no crescimento do Produto Interno Bruto. O setor agropecuário cresceu 5,7% no período e puxou o resultado, principalmente devido à produção recorde de soja e a venda recorde do produto para China, com o dólar nas alturas. Tudo bem para este setor.

Quando se olha para o consumo das famílias, a participação no cálculo do PIB foi de 0,1%. Ou seja, o consumo que realmente valida a expansão da economia está parado. A indústria cresceu um pouco devido à construção civil (2,1%), mas a indústria de transformação que, mais uma vez, empurra para cima o consumo das famílias, teve retração de 0,5%. Ou seja, o Brasil não vai tão bem assim.

Na segunda-feira, Bolsonaro aconselhou as pessoas que estão "achando pouco o auxílio emergencial", que não chega a R$ 400, a irem ao banco tomar dinheiro emprestado. Porém, elevou o próprio salário e o dos ministros em até 69% por meio de uma mudança na regra que autoriza o aumento de salários de parte dos servidores. Deve ser porque eles não têm tempo para contrair empréstimos bancários.

No livro "Tudo de bom vai acontecer", da nigeriana Sefi Atta, a frase que dá título à obra é dita como ameaça a outra pessoa, quando se quer desejar mal a alguém. Após ler Sefi Atta, imaginei que é isso que Bolsonaro repete aos brasileiros: “Tudo de bom vai acontecer”. Então, ele berra e xinga as pessoas, confronta as leis de proteção contra a Covid-19, ameaça jornalistas, ataca a democracia e finge que lamenta os mortos da pandemia.

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