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Regina Ribeiro é jornalista e leitora voraz de notícias e de livros. Já foi editora de Economia e de Cultura do O POVO. Atualmente é editora da Edições Demócrito Rocha

Eleitores bolsonaristas arrependidos são cúmplices dos erros deste governo

Arrepender-se de ter votado em Jair Bolsonaro em 2018 não exclui seus eleitores da parcela de responsabilidade sobre o atual estado da democracia brasileira e os rumos do País
Tipo Opinião
O presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), acredita em fraude nas eleições de 2018 (Foto: Foco do Brasil/Reprodução)
Foto: Foco do Brasil/Reprodução O presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), acredita em fraude nas eleições de 2018

 

As últimas pesquisas que sondam a aceitação dos rumos do atual governo dão sinais de que o Jair Bolsonaro explodiu uma boa parte do capital político que tinha até o início da pandemia. Associe-se a esse dado o fato de os arrependidos do voto em Bolsonaro estarem saindo das gavetas já com placas nas mãos, com desejo de ir às ruas, querendo o impeachment, com paciência curta etc tal. A pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira revela que 51% dos entrevistados consideram o governo ruim ou péssimo. 

O arrependimento é pilar no Ocidente se levarmos em conta a influência que o pensamento judaico-cristão tem nossa na formação como povo. A exaltação ao arrependimento não só é fundante do ponto de vista religioso. Ele é componente da nossa psique e está presente na forma como lidamos com as nossas próprias ações, além das relações sociais. Arrepender-se é sofrer, de alguma forma.

No entanto, para mim, o fato de muita gente ter se arrependido de votar em Bolsonaro não tira delas a responsabilidade pelo que elegeram. Afinal, o eleito parece ter materializado o retrato de Dorian Gray e a cada dia a imagem fica um pouco mais horrenda.

Então, não adianta o ex-governador Ciro Gomes enfrentar bolsonaristas nos restaurantes, porque ele poderia ter lutado para não eleger Bolsonaro. Ao invés disso, emudeceu, enfiou a viola debaixo do braço e voou para Paris. É tarde para Fernando Henrique Cardoso dizer que se arrependeu de não ter apoiado o candidato A ou B no segundo turno, porque a sua postura de isentão está cobrando um alto preço e não pode ser substituída por artigos dramáticos nem salamaleques sociológicos.

Tucano Eduardo Leite apoiou Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018(Foto: Felipe Dalla Valle / Governo RS)
Foto: Felipe Dalla Valle / Governo RS Tucano Eduardo Leite apoiou Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, de forma digna, assumiu publicamente a sexualidade, mas se esqueceu de pedir desculpas ao Brasil por pegar carona na ascensão bolsonariana no sul do País, durante o segundo turno das eleições de 2018. A lista é imensa: João Dória, Joyce Hasselmann, MBL, artistas, empresários, cidadãos comuns agora se arrependem publicamente por terem votado em Bolsonaro, como se eles já não tivessem, na época das eleições, motivos suficientes para duvidar da capacidade intelectual, emocional e política do atual governante do Brasil.

Portanto, são todos cúmplices das mortes pela Covid-19, todos cúmplices da gestão demente na Educação, na Cultura e Meio Ambiente, todos cúmplices da corrupção que ronda o ministério da Saúde. Desculpem, vocês são cúmplices.

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