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BBB 26: a dor do abuso sexual que os números não mostram
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Sou jornalista de formação. Tenho o privilégio de ter uma vida marcada pela leitura e pela escrita. Foi a única coisa que eu fiz na vida até o momento. Claro, além de criar meus três filhos. Trabalhei como repórter, editora de algumas áreas do O POVO, editei livros de literatura, fiz um mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará (UFC). Sigo aprendendo sempre. É o que importa pra mim

BBB 26: a dor do abuso sexual que os números não mostram

Ficamos experts em contar estupros e abuso sexual contra meninas e mulheres, mas o quanto ainda estamos distantes de perceber a kripta humana que se forma em torno de uma mulher abusada. Uma ampla literatura tem revelado, nos últimos anos, o impacto psíquico que a violência sexual causa desde a infância e na mulher adulta
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Pedro acionou o botão de desistência e deixou o programa antes da formação do primeiro paredão da edição (Foto: Reprodução gshow/Globo)
Foto: Reprodução gshow/Globo Pedro acionou o botão de desistência e deixou o programa antes da formação do primeiro paredão da edição

Nunca na vida assisti a um Big Brother Brasil (BBB) de caso pensado ou por ter qualquer interesse no andamento daquela casa de fazer doidos. Mas, acompanho algumas notícias, que brotam em todos os lugares.

A semana abriu com o episódio do ex-participante Pedro Henrique Espíndola, que emparedou a colega de casa na despensa, Jordana Morais, e tentou beijá-la sem consentimento. Ele “achou” que a moça “queria” a importunação e disse que há dias estava “cobiçando as meninas”, principalmente Jordana.

Nos últimos meses, tenho compreendido melhor que a violência sexual é muito, muito mais dolorosa do que conseguimos imaginar. O impacto do abuso sexual na vida de uma mulher é inominável. Se acontece na infância é uma tragédia.

Falar sobre isso é ainda mais cruel, porque a vida sexual das mulheres, na cabeça de muitos homens, e de muitas mulheres também, infelizmente, parece estar confinada ao verbo “dar”. Dar no sentido de oferecer, de querer conceder algo, ou mesmo no sentido de “deu à força bruta”, mas deu, então consentiu. Praticamente todos os homens acusados de violência sexual afirmam que foi uma relação consentida.

Um dos textos mais importantes que li no ano passado sobre abuso sexual contra meninas, “Em carne viva”, da psicanalista argentina Suzana Toporosi, relata a dor encapsulada em que é jogado esse ser humano e como essa dor secreta, mas intacta, é uma sombra na vida de mulheres adultas.

Na Argentina, muitas crianças e adolescentes se recusavam a contar o que aconteceu, o que era entendido pela Justiça como uma negativa do abuso.

No Brasil, muitas mulheres ainda evitam buscar a Justiça, por temerem um ritual que não as protege e não entende quão terrível é rememorar tamanha dor. Muita coisa vem mudando, mas sensibilidade não acompanha, na mesma velocidade, tais mudanças.

A violência sexual contra as mulheres no Brasil é quase uma epidemia. Vivemos sob o efeito anestesiador de números alarmantes, mas parece que ainda estamos muito longe de perceber o quão feridas se tornam essas meninas e mulheres.

Chimamanda Ngozi Adichie, em seu novo livro “A Contagem dos Sonhos”, conta no posfácio, que decidiu homenagear a camareira Nafissatou Diallo, que acusou Dominique Strauss-Kahn, diretor do FMI, de estupro, em 2011.

Ele foi preso, solto e conseguiu convencer a justiça americana que eles tiveram uma relação “consensual”, embora “apressada”, que deixou a moça devastada e humilhada nos Estados e no seu país de origem, Guiné. Chimamanda deu vida à camareira Kadiatu para dar dignidade, ainda que na ficção, à Nafissatou.

Ficamos experts em contar estupros e abuso sexual contra meninas e mulheres, mas o quanto ainda estamos distantes de perceber a kripta humana que se forma em torno de uma mulher abusada. E quão complexo é ressignificar tal dor e seguir a vida.

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