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Os donos de Fortaleza que cultivam microespaços
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Foto de Regina Ribeiro
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Sou jornalista de formação. Tenho o privilégio de ter uma vida marcada pela leitura e pela escrita. Foi a única coisa que eu fiz na vida até o momento. Claro, além de criar meus três filhos. Trabalhei como repórter, editora de algumas áreas do O POVO, editei livros de literatura, fiz um mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará (UFC). Sigo aprendendo sempre. É o que importa pra mim

Os donos de Fortaleza que cultivam microespaços

Cuidar de um trecho da rua, pôr comida para gatos, preservar microespaços em Fortaleza. Essas práticas sinalizam afetos que muitos moradores têm pela cidade nos lembrando que enquanto Fortaleza se expande para os lados e para o alto, algumas pequenas áreas nos trazem à mente personagens os mais diversos que contam a histórida da cidade
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 Na foto, a estátua "Iracema Guardiã", do artista Zenon da Cunha Mendes Barreto, de 1995, na Praia de Iracema (Foto: FERNANDA BARROS)
Foto: FERNANDA BARROS Na foto, a estátua "Iracema Guardiã", do artista Zenon da Cunha Mendes Barreto, de 1995, na Praia de Iracema

Eu gosto de pensar nos pedaços de Fortaleza que têm donos, como a mulher da Rua dos Campeões, a quem chamarei de Dona Flora. A ruazinha é um estreito entre o Dionísio Torres e o São João do Tauape. Nunca vi seu rosto, embora nos últimos anos a encontre com frequência de manhãzinha, enquanto sigo para a academia.

Emborcada sobre si mesma, com um pano grande ornando a cabeça e o corpo franzino sacudido pelo vento das primeiras horas da manhã, Dona Flora cuida de um bom trecho da via. Limpa o excesso de folhas das árvores, varre, cultiva as plantas.

Já me peguei aflita quando não a vejo por dias a fio, imaginando que ela caiu doente. Quando penso que não, ela reaparece e a rua fica outra. Tenho percebido que Dona Flora está mais frágil a cada dia, mas isso não a impede de cuidar daquele pedaço de rua como se fosse parte da sua própria existência.

A história de Fortaleza pode muito bem ser contada por esses personagens que cuidam de ruas, de rios, da memória, dos pássaros, dos gatos, dos cães sem dono, dos saguis – e suas mudanças entre árvores por um fio –, e dos (poucos) parques.

E de gente que narra histórias desses espaços, fotografa, grava, borda e pinta detalhes muito pessoais da metrópole que se expande até o limite do estranhamento para os lados e para o alto. Esses microespaços parecem cumprir a missão de nos unir e nos lembrar dos afetos que ainda guardamos por esta cidade.

Conversando com minha amiga, a jornalista Carmina Dias, que ama o Parque Rio Branco, lembramos que a historiadora Simone de Sousa caminhava por ali diariamente.

Sem muito jeito com os santos e o além, deixou dito que seu velório seria restrito e não queria missa de 7º dia. Dias após sua partida, os amigos - ou "companheiros" como ela chamava os mais próximos - foram ao parque lhe render homenagens. Foi um encontro inesquecível de tão bonito.

Por outro lado, Fortaleza pode ser vista a partir de outros ângulos. O professor e pesquisador Gilmar de Carvalho vivia às turras com a cidade. Dizia que Fortaleza era o diabo de faladeira, invejosa até o talo, daquele tipo que considera o sucesso alheio uma tragédia pessoal e coletiva. Ele tinha até uma teoria com matiz psicanalítico para explicar o comportamento do fortalezense: a rejeição dos “pais” simbólicos que a ignoraram solenemente quando Portugal disponibilizou suas terras para ocupação.

Pelo sim, pelo não, nem precisa ser gente para conquistar fama. Araripe Júnior transformou o Cajueiro do Fagundes num dos casos mais jocosos da literatura cearense. Debaixo do famoso cajueiro, resolvia-se todo tipo de infortúnio e até criavam-se alguns, principalmente políticos. E o que dizer do bode Ioiô perambulando entre o Centro e a praia desafiando a velha lógica humana!

Foto do Regina Ribeiro

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