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Roblox: o dia em que meu filho foi excluído do grupo de amigos por não jogar
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Jornalista, Professora, Empreendedora social, Mestre em Educação (UFC). Nesta coluna Cidade Educadora, escreve sobre os potenciais educativos das cidades, dentro e fora das escolas

Roblox: o dia em que meu filho foi excluído do grupo de amigos por não jogar

Ele chorou, me falou que eu era a pior mãe do mundo e eu escolhi continuar sendo
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Jogo Roblox (Foto: Google Play/Roblox Corporation/Reprodução)
Foto: Google Play/Roblox Corporation/Reprodução Jogo Roblox

Quando meus filhos nasceram, era eu quem os colocava no colo e os segurava forte para receberem as primeiras vacinas. O pai ficava penalizado, não aguentava ver o choro, o sofrimento dos bebês tão pequenininhos. Eu me lembro de, logo depois da injetada, eu sempre os abraçar forte e dizer no ouvido deles, naquele tom de voz de mãe: “Está tudo bem. É uma picadinha de saúde, de amor. Já já passa”.

Assim também, sou eu quem os ajuda a arrancar os dentes de leite, a realizar os exames de sangue e a fazer os curativos nos machucados depois de “fazerem arte”. Nunca me sensibilizou em demasia o choro e o sofrimento deles quando para o bem deles próprios.

Há alguns meses, vivemos uma questão que me sensibilizou até mais do que as injeções. Meu filho mais novo andava triste e emburrado. Durante uma conversa que tivemos, ele me falou que o grupo de amigos, que ele adorava e com quem mais tinha afinidade, o estava excluindo de tudo: das conversas e dos encontros, dentro e fora da escola.

Ao tentar entender o porquê, ele me respondeu com raiva, chorando, indignado: ”porque eu não jogo o mesmo jogo que eles. Eles não me convidam mais para nada, porque eles jogam roblox e eu não. Você é muito exagerada, mãe! Você sempre acha que tudo é ruim. Eu odeio você! Você é a pior mãe do mundo!”.

Eu me lembro de cada palavra que eu ouvi dele, olhando nos olhos dele. Depois de alguns longos segundos em silêncio, mesmo aos solavancos de ele me empurrando para longe dele, enfurecido, eu o abracei de maneira enviesada e falei: “sou a pior mãe do mundo nessa situação, meu filho. E vou continuar sendo para o seu bem”. Sim, eu falei o famigerado "é para o seu bem", que a gente só entende quando fica adulto.

Óbvio que aquele acontecimento me consumiu por dentro. Depois dali, deixei que ele, sozinho, vivesse aquele sofrimento por um tempo, chorando alto, inconformado no quarto, ensopando o travesseiro. No outro cômodo, eu também me ressentia. A palavra "exagerada" me consumia em alguma medida.

No fundo, eu sabia que, por enquanto, era a melhor decisão. E... poxa! Que difícil é ser firme e inegociável com o mundo, diante do que você sabe ser a melhor decisão na educação de um filho!

Após aquele dia, tivemos outras conversas a respeito, com ele mais calmo e disposto a me ouvir. Eu elaborei quase que um planejamento de fases, de passo a passo de conversas, na verdade. Por ele ter apenas 10 anos, eu me preocupo com a maturidade de compreensão dele sobre o assunto.

Quero que ele alcance o entendimento dos riscos, mas do jeito dele de entender, sem o precipitar a assimilações da realidades que não necessariamente ele precisa captar, agora, tudo de uma vez só, aos 10 anos.

E eu até estudei para dar conta desse protocolo: li um bocado; ouvi podcasts, entrevistas; conversei com colegas pesquisadores e mães amigas. E preciso adicionar um detalhe a esse processo: eu mesma sou pesquisadora do tema, há, pelo menos, 17 anos, quando defendi meu TCC em Jornalismo que trata sobre Mídias e Infâncias.

De tudo que eu vivi com o meu filho mais novo, nesse episódio, passando pelo acolhimento da dor dele de ser excluído pelos amigos, algo que eu nunca neguei a ele foi admitir minha vulnerabilidade também sobre o assunto.

Confessei para ele, e também para o irmão adolescente - que nunca fez tanta questão de jogar roblox - o fato de eu ainda não entender todas as complexidades sobre o jogo e, por isso, ter medo. Eu não sabia de tudo e podia estar completamente enganada, mas eu contava com indícios muito fortes de que o mais seguro, no momento, era não jogar.

Reforcei que o jogo tinha muitas incertezas sobre segurança e que, no tempo certo, ele teria oportunidades para jogar. Reafirmei também que as amizades fortes e verdadeiras resistem também a esses “exageros” de mãe, o que, para minha felicidade de mãe, se confirmou com o passar dos dias.

Eu poderia escrever todos os riscos que o Roblox representa a crianças e a adolescentes, mas não vou. Nos últimos anos, os alertas vêm se multiplicando, cada vez mais, em todas as redes, vindos de professores, psicólogos, pesquisadores das mídias e da internet e de profissionais da segurança pública.

É de fácil acesso as milhares de postagens que reforçam os males e o quanto é importante que as crianças e os adolescentes sejam informados, limitados, monitorados, acompanhados. Diante de todo o cenário preocupante, trilhas para lidar com a outra face do problema precisam ser fortemente abertas e percorridas: famílias e educadores ainda não sabem direito o que fazer e necessitam urgentemente ser orientados!

Precisamos de mudanças nos currículos de Pedagogia e das licenciaturas! Precisamos que a formação de todos os professores passem também pelos temas das mídias, da internet e das redes sociais, de maneira transversal, a fim de revolucionarmos a forma como abordamos o assunto nas escolas, para além da proibição do celular nas instituições de ensino.

Precisamos de políticas públicas que cheguem às periferias, às famílias chefiadas por mães solo, principalmente! Precisamos que a regulamentação das plataformas seja menos flexível e mais incisiva!

É uma ilusão achar que as notícias que tratam dos riscos da interação de crianças e adolescentes com a internet, com as redes sociais e com as plataformas de jogos, que se multiplicam nas nossas bolhas de influências, chegam com a mesma frequência, profundidade e compreensão às famílias mais vulneráveis.

Não chegam. Os aliciadores das plataformas se valem desse fosso social de desigualdade e de injustiça para prejudicar a vida das famílias, e lucram trilhões com isso.

Foto do Sara Rebeca Aguiar

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