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Agosto de pessoas presentes nas ausências
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Tânia Alves é formada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Começou no O PCeará e Política. Foi ombudsman do ornal por três mandatos (2015, 2016 e 2017). Atualmente, é coordenadora de Jornalismo..

Agosto de pessoas presentes nas ausências

As lembranças boas vêm daquilo que nos deixou feliz por um momento. Como participar da Festa da Padroeira como faziam nossos avós, pais, mães e tias. Muitos não estão mais por aqui, mas eles se fazem presentes na energia transmitida por eles
Festa da Padroeira Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Reriutaba (Foto: Tânia Alves)
Foto: Tânia Alves Festa da Padroeira Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Reriutaba

Gosto do vento forte que chega por aqui nos agostos. É um tempo ainda de resquícios da pós-estação. Não é ainda de quentura, porém é possível caminhar ao ar livre mesmo quando o sol está mais quente.

Agosto me faz pensar nas marcas que as pessoas deixam na gente. Um gesto, uma dança, uma música, um ensinamento. Tudo que aprendemos a gostar por meio do outro. Para mim, agosto traz memórias de alegrias. Lá em casa, era o mês que mamãe mais gostava. Era ela quem fazia aquele período especial. O gostar de agosto vem do movimento que nascia na cidade naquele mês por causa da Festa da padroeira, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Em julho, a casa já se agitava com os preparativos dos festejos: levar a récua de filhos na loja para escolher o tecido e mandar costurar a roupa para o ultimo dia de novena e até mesmo colocar a galinha no chiqueiro para a engorda do almoço no dia 15 de agosto. Quando o mês entrava, ela fazia questão de, a pedido do padre, dar o de comer para um dos músicos da banda que vinha do município vizinho para tocar os alvoradas.

Por aqueles dias, ela sempre comparecia à igreja para o ofício ao meio-dia; após a novena, arranjava um jeito de comprar pirulito para os filhos. Era o doce mais gostoso que alguém podia comer, pois lembrava afeto. Se desdobrava para doar uma boa prenda para o leilão da festa e, acima de tudo, participava de todas as novenas durante o período.

Naqueles tempos, era ela e outras tantas mães da Cidade que animavam os festejos. Estavam sempre presentes numa energia comum emanada pela fé. A história que a gente vivia lá em casa, se repetida, com suas diferenças, por muitos lares.

 

Neste agosto de volta às festas com aglomeração, após o fim de mais um ciclo pandêmico da Covid-19, foi bom encontrar os abraços dos amigos na Festa da Padroeira. Embora a primeira vez sem ela por lá tenha doído.

Sentir a energia da praça cheia de gente, do parque de diversão vivo pelos gritos das crianças, da fala do padre, que muitas vezes nem sente para quem se dirige na hora do sermão, mas que fortalece alguns. Muitos de nossos pais, mães e tias não estão mais lá. Mas eles estão presentes nas ausências.

Se fazem presentes pela lembrança ensinada só pelos gestos. Eles estavam lá em cada momento da Festa da Padroeira deste ano. Permaneciam na energia fincada naqueles velhos bancos da paróquia. Dos nossos antepassados herdamos o prazer de participar daquele momento. Hoje, nós fazemos a festa acontecer. Agora, do nosso jeito. Amanhã, quem sabe, serão os nossos filhos.

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