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Adriano Oliveira: divulgação científica acessível através da arte
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Adriano Oliveira: divulgação científica acessível através da arte

Coordenador do Laboratório de Visualizações Interativas e Simulações (Labvis), Adriano Oliveira conta como equipe criou segunda obra imersiva para o MIS Ceará sobre arqueologia e paleontologia
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Professor Adriano Oliveira está à frente Ypykuéra: Povos Originários e Megafauna (Foto: Nayana Melo/Especial para O Povo)
Foto: Nayana Melo/Especial para O Povo Professor Adriano Oliveira está à frente Ypykuéra: Povos Originários e Megafauna

Aliando divulgação científica, arte e tecnologias visuais, o professor Adriano Oliveira apresenta sua segunda obra imersiva no Museu de Imagem e Som do Ceará (MIS). Depois do sucesso da exposição Fósseis do Cariri, é a vez do público conhecer Ypykuéra: Povos Originários e Megafauna.

A obra apresenta ao público o período, há milhares de anos, em que os primeiros povos que ocuparam as Américas coexistiram com mamíferos enormes que faziam parte da extinta megafauna, como tigres-dentes-de-sabre, preguiças gigantes e gliptodontes.

Adriano, como coordenador do Laboratório de Visualizações Interativas e Simulações (Labvis) da Universidade Federal do Ceará (UFC), está à frente do grupo que transforma pesquisas científicas em obras que estimulam os sentidos dos visitantes do museu.

Para ele, despertar o interesse do público na arqueologia e na paleontologia é um dos objetivos da parceria com o MIS.

O POVO - Como surgiu a ideia de criar Ypykuéra? E qual o impacto desse tipo de obra no MIS Ceará, um estado que tem um histórico muito rico de paleontologia?

Adriano Oliveira - A gente fez no ano passado uma exposição sobre fósseis do Cariri. Fez muito sucesso e contribuiu para consolidar no MIS uma vertente de exposições de cunho educativo e de divulgação científica. O MIS tem vários tipos de exposição e eles estavam interessados em desenvolver algumas coisas nesse sentido. Surgiu o Fósseis do Cariri, foi super bem aceito, continua em exposição no MIS. E a gente ficou, diante do sucesso, com a ideia de fazer mais alguma coisa nessa linha. Existia uma possibilidade da gente fazer um Fósseis 2, baseado em Itapipoca, aqui perto de Fortaleza, que tem muito fóssil de megafauna, que são esses mamíferos que foram extintos há muito pouco tempo, em termos geológicos, há 12 mil anos. Os dinossauros foram extintos há 60 milhões de anos, então a diferença é brutal. Só que a gente não tinha exatamente uma boa pegada do que fazer. Aí eu comecei a pesquisar e identifiquei muitos artigos que falavam da coexistência desses animais extintos com os primeiros habitantes das Américas, os povos originários. Não os povos originários atuais, mas os povos originários de fato, que foram os primeiros a entrar no continente. Comecei a descobrir que essa é uma datação inclusive que não está consolidada. Existem muitas hipóteses. Até o final do século passado, na década de 1990, não se admitia na América do Sul entradas humanas com mais de oito mil anos e hoje existem hipóteses que vão muito além, 30 mil anos, 50 mil anos. A gente achou que isso seria um bom argumento para uma nova obra. Não apenas fósseis, mas a interação de animais extintos com seres humanos. O MIS comprou a ideia e estamos com a obra em cartaz.

OP - Já com esse sucesso do Fósseis do Cariri, qual foi o retorno que você teve sobre alinhar essa tecnologia de visualização imersiva e esses conceitos complexos da arqueologia e paleontologia? Como isso é traduzido para o público?

Adriano Oliveira - O MIS sempre colocou pra gente esse limite: são obras de 15 minutos. Até porque as pessoas assistem eventualmente em pé, não dá para ser muito mais tempo do que isso. Em 15 minutos, obviamente a gente não consegue fazer uma apresentação sistemática de um determinado assunto. A proposta sempre foi despertar o interesse de um modo acessível, partindo muito mais da exposição a estímulos visuais, auditivos, do que a explicações técnico-científicas. O que a gente espera é que a partir disso o público desperte o interesse e procure mais informação. Esse é o objetivo. E eu acho que isso tem acontecido. As pessoas são confrontadas com algumas ideias ali e vão atrás.

OP - A obra presta homenagem à arqueóloga Niède Guidon. Qual a importância do legado dela para o projeto e para o debate sobre o povoamento das Américas?

Adriano Oliveira - Quando a gente começou a pesquisar, a professora Niède Guidon estava viva ainda. Já bastante idosa, se eu não me engano, na faixa dos 90 anos. A gente viajou ao Piauí, à Serra da Capivara para fazer imagens e entrevistas, e tinha a ideia de entrevistá-la. Durante o curso do projeto ela veio a falecer. Já estava muito clara a importância dela, então a entrevista virou a ideia de fazer uma homenagem, de dedicar o espetáculo a ela. A figura Niède Guidon é extremamente importante na arqueologia, mas não apenas no sentido da pesquisa. Ela é responsável pela própria criação do Parque Nacional da Serra da Capivara e pela preservação daquele acervo monumental que hoje é um dos lugares mais ricos do mundo em pinturas rupestres. Ela foi responsável por abraçar aquele espaço, criar um centro de pesquisa e um espaço de visitação que cresce a cada ano. A gente já queria entrevistá-la, quando ela veio a falecer a gente resolveu fazer essa homenagem a ela. É uma figura central na arqueologia brasileira.

OP - A convivência entre povos originários e a megafauna extinta é uma coisa que não discutimos muito. Por que esse período ainda é pouco conhecido?

Adriano Oliveira - Tem dois eixos pra gente discutir isso. O primeiro eixo é que o Brasil ainda é muito carente em investimento em pesquisa. Falta pesquisa financiada para que a gente de fato mapeie essa história. Você precisa ter muito investimento em arqueologia. É caro, precisa de equipes em campo cavando durante vários anos. Uma das coisas que a Niède conseguiu é ter pesquisa no mesmo lugar durante quase 50 anos. Isso produz resultados. Outra questão é como começou a história do povoamento. Há 20 mil anos, a gente estava no ápice da era do gelo. Sempre se teve a hipótese de que os humanos entraram nas Américas pela Ásia, passando pelo estreito de Bering, que é a ponte que ligava a Ásia ao Alasca. Só que no ápice da era do gelo estava tudo coberto de cordilheiras de gelo, não havia aparentemente como as pessoas terem passado. Então o que se supunha? Só depois que houve o degelo, ou seja, a partir de 11 mil anos atrás, é que você teve condições das pessoas andarem e descerem. E se há 11 mil anos elas entraram na América do Norte, talvez só há seis mil anos elas tivessem passeado pela América do Sul. Houve até a década de 1990 o que se chama de primazia do povo Clovis. Clovis é o nome da cidade dos Estados Unidos onde foram encontradas algumas ferramentas datadas de 10 mil anos atrás e que os americanos começaram a dizer: "São os primeiros americanos e antes disso não veio mais ninguém". Aos poucos isso foi sendo questionado e hoje se sabe que possivelmente os primeiros habitantes não vieram por terra, e sim navegando a costa a partir da Ásia, ali nessa essa região do estreito de Bering, e entraram pela costa durante a era do gelo. Então existe uma motivação científica para que até muito pouco tempo não fosse admitido entradas muito antigas, mas hoje você encontra sítios arqueológicos de 30 mil anos no Chile. Hoje se descobre muito a importância de civilizações que existiram na Amazônia, que é uma das grandes fronteiras arqueológicas de descoberta de habitações e povoamentos muito importantes 10 mil anos atrás.

OP - Qual você acha que é o papel da universidade pública nessa divulgação científica em locais como o MIS, que abrange uma diversidade enorme de público?

Adriano Olivieira - Primeiro, é extremamente importante que o MIS, que é um espaço público, apoie o desenvolvimento de conteúdos na Universidade Federal, que também é um espaço público. É uma ligação muito rica. Da nossa parte, a gente tem transformado o desenvolvimento dessas obras em espaços de formação. A gente envolve alunos, professores e o próprio desenvolvimento dessas obras vira um espaço educacional para a universidade. Eu sou professor do curso de Sistemas e Mídias Digitais. Há uma demanda de profissionais capazes de produzir obras imersivas para espaços de exibição para grande público, como o MIS, como a Estação das Artes, e outros museus do Estado. A gente tem visto isso como algo estratégico que o Estado, através do MIS, dê apoio para que a gente desenvolva, porque no final das contas não são apenas obras que a gente está entregando para a divulgação científica, que é papel da universidade, mas também está formando mão de obra. Os nossos alunos vão ser os próximos a trabalhar no desenvolvimento dessas obras para esses espaços.

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