Aos 38 anos, Antônio Fabiano Bezerra já faz parte da história do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC/UFC) — é a milésima pessoa a receber um transplante de medula óssea na unidade hospitalar, em Fortaleza. O procedimento está marcada para esta sexta-feira, 16.
Parte do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Ceará (CH-UFC), o HUWC possui 18 anos de atuação no Serviço de Transplante de Medula Óssea (TMO). Em 2025, registrou o maior número anual desde a sua criação, com 103 intervenções realizadas.
“Atendemos pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) e hoje de quase todo o Brasil, principalmente Norte e Nordeste, que se deslocam para nosso serviço”, explica o professor da UFC e presidente da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular (SBTMO), Fernando Barroso Duarte.
O médico, considerado o fundador do serviço no hospital universitário, aponta que todas as modalidades de transplantes de medula são realizadas, incluindo casos de leucemia, mielodisplasias, mieloma e linfomas. O espaço também é uma referência de transplantes em pacientes idosos.
“O TMO é uma parceria do HUWC/UFC com o Hemoce (Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará). Isso fez essas duas instituições crescerem juntas”, completa Duarte. O Hemoce que atua na coleta das células sanguíneas, da medula óssea e das transfusões.
Anteriormente, em 2023, o TMO alcançou 90 transplantes. O número chegou a 100 em 2024, último recorde antes do valor atual.
Ceará é o estado do Nordeste com maior número de doadores de medula óssea | LEIA MAIS
Para Carol da Costa, 36, esposa de Antônio Fabiano, o milésimo transplante tem um significado especial: oferece um recomeço à família. “Agradecemos primeiramente a Deus pela oportunidade de vida. Depois só temos que agradecer toda a equipe, o doutor Fernando e todo mundo que está aqui nos ajudando”, diz.
O diagnóstico de leucemia, identificado em janeiro de 2021, é revisitado por Carol como a memória de uma “batalha”, vivida pelo marido e todos os familiares. O processo iniciou com a quimioterapia.
“Ele ficou internado a primeira vez mais de um mês. Infelizmente, nesse período foi bem na pandemia e eu não pude ficar com ele aqui (no hospital universitário), pois ele estava com a imunidade baixa”, relembra.
Após um longo processo, a doença estava “controlada”, diz Carol, mas um exame de rotina, em maio de 2025, indicou um retorno — “Mais uma vez, foi um baque grande para ele, passar tudo de novo”.
A notícia do transplante foi recebida com alívio. O procedimento (denominado transplante autólogo ou autogênico) consiste na coleta das próprias células-tronco do paciente, que serão reinjetadas seguindo a administração da quimioterapia.
A mensagem, enquanto aguarda o transplante do marido, é de esperança: “Algumas vezes passou pela cabeça dele desistir de tudo, mas a gente, a família dele, sempre damos apoio para seguir, nunca desistimos. Com fé em Deus, tudo está indo bem, e ele vai se curar”.
Unidade móvel do Hemoce estará em shopping no bairro Presidente Kennedy | SAIBA MAIS
Com 2.097 transplantes em 2025, CE supera registro do ano anterior
A Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) registrou 2.097 transplantes de órgãos e tecidos na rede estadual durante o ano de 2025. O número representa um aumento aproximado de 1,8% em comparação aos 2.060 procedimentos realizados em 2024.
A maioria dos procedimentos, somando 1.371, são referentes aos transplantes de córnea. No mesmo período, com 264 registros (244 com doador falecido e 20 com doador vivo), o segundo tipo mais realizado foi o transplante renal.
O crescimento é atribuído pela Sesa como parte da Política Estadual de Doação e Transplante do Ceará. A resolução, aprovada em 2022, tem o objetivo de ampliar o acesso e o fortalecimento do Sistema Estadual de Transplante.
As intervenções ainda somam 242 transplantes de fígado, 23 de coração, três de pulmão, 113 transplantes de medula óssea autólogo, 50 de medula óssea alogênico, 25 de esclera e cinco de válvula cardíaca.
“Os dados mostram o compromisso dos profissionais envolvidos em todo o processo e, principalmente, a generosidade das famílias doadoras, que tornam possível oferecer tratamento e qualidade de vida”, afirma a orientadora da Célula do Sistema Estadual de Transplantes (Cetra) da Sesa, Eliana Barbosa.
No Brasil, o Ministério da Saúde informa que a doação de órgãos e tecidos é realizada apenas com a autorização familiar. Nesse caso, o potencial doador deve comunicar aos familiares sobre a intenção previamente.
Confirmada a morte encefálica, com as devidas informações à família e aos profissionais responsáveis, o caso é notificado à Central de Transplantes. Esta deve iniciar o processo da doação por meio da entrevista familiar, solicitando o consentimento.
A alocação dos órgãos e tecidos acontece com o uso do Sistema Informatizado de Gerenciamento (SIG), que providencia o transporte ao hospital e acompanha o resultado dos transplantes.
Da lenda à ciência, como descobrimos que transplantar órgãos é possível | LEIA MAIS