Circular pelo calçadão da avenida Beira Mar, em Fortaleza, tem se tornado uma missão cada vez mais complexa. Entre ciclistas, corredores, skatistas e usuários de patinete, o uso do espaço ficou cada vez mais disputado, favorecendo a ocorrência de acidentes.
No domingo passado, 25, uma turista de 74 anos, natural de Salvador, Bahia, precisou ser hospitalizada após ser atropelada por um ciclista que circulava em alta velocidade pela calçada. Ela recebeu alta nessa terça-feira, 27.
A Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) informou, em nota, as regras de circulação para os frequentadores do espaço. Conforme o órgão, os ciclistas devem trafegar preferencialmente em ciclovias e ciclofaixas. Na ausência dessas infraestruturas cicloviárias, a circulação deve ocorrer pelos bordos da pista de rolamento.
Em trechos específicos da avenida, o passeio é compartilhado entre pedestres, corredores e ciclistas. "Nessas áreas, as placas devem ser devidamente respeitadas, exigindo maior atenção no compartilhamento do espaço", alertou a nota.
A AMC ressalta ainda que não há proibição para a utilização do calçadão por usuários de patins e skates, mas destaca que os patinetes elétricos só podem transitar na infraestrutura cicloviária ou na própria pista.
O POVO perguntou ao órgão sobre o número de acidentes e conflitos envolvendo ciclistas e pedestres no local, mas não obteve retorno quanto às estatísticas.
A Autarquia informou ainda que desenvolve, de forma contínua, ações educativas voltadas à orientação sobre a circulação no passeio da avenida, "com ênfase no respeito à prioridade do pedestre, além de incentivar a condução segura de bicicletas".
O órgão destaca que a sinalização ao longo de toda a avenida é clara, adequada e foi recentemente revitalizada, cabendo aos usuários do espaço o cumprimento das normas de circulação.
Em visita ao local do acidente na manhã desta segunda-feira, 26, O POVO flagrou a intensa dinâmica entre corredores e ciclistas que utilizam o espaço. Há 20 anos atuando como comerciante na região, Gonçalo Soares foi uma das pessoas que presenciou o acidente que vitimou a turista no último domingo, 25.
O quiosque em que ele trabalha fica localizado em frente ao cruzamento entre a ciclofaixa e a calçada. Ali, ele conta que a frequência de acidentes costuma ser alta.
“Eu cheguei assim que aconteceu [o acidente] e antes mesmo, no dia anterior, já tinha acontecido um acidente com um rapaz. Mas aí já é comum. Eu trabalho aqui e eu já vejo alguns acidentes aqui, mínimos, assim que sejam pouco graves, e até mesmo os que já aconteceram de quebrar alguma coisa”, relata.
Sobre a sinalização, o comerciante avalia que apesar de existir, a orientação deixa um pouco a desejar, especialmente no trecho do cruzamento.
“Ocorre pelo fato desse cruzamento, nesse trecho, está atravessando uma parte onde passa os pedestres, e ficou bem estranho, porque o pessoal não para. A sinalização é um pouco longe, dá para perceber, mas o pessoal não respeita. E esse trecho onde ocorreu esses acidentes é um pedaço que tá bem crítico”, detalha.
A falta de respeito pela sinalização também é apontada pela professora Deiva Vinícius, 60. Natural do Rio de Janeiro, a docente mora em Fortaleza há mais de 10 anos e frequentemente utiliza o calçadão para realizar atividades físicas, entre elas a corrida. Apesar disso, ela confessa que frequentar o calçadão na capital cearense tem seus desafios.
“Eu acho que às vezes o ciclista ele, eu vou usar a palavra abusado, porque realmente é isso, ele não respeita muito a pessoa que está correndo. Eu acho que tinha que ter mais essa fiscalização, porque a gente tem espaço aqui para todo mundo. Então, é só todo mundo respeitar o seu espaço direitinho para não acontecer o que aconteceu”, opina.
Para a empresária e corredora Talita Bezerra, 46, o aumento do número de frequentadores do calçadão para a realização de atividades físicas é um ótimo, “apesar de eu achar que deveria ter uma pista para a bicicleta e uma pista para a corrida e outra para caminhada”, pondera.
Mesmo encarando a pista em um dia chuvoso na Capital, ela conta ter medo de utilizar o espaço em horários costumeiramente mais lotados, especialmente depois que amigos seus sofreram acidentes no local. “Foi uma bicicleta com outra e acabou caindo. Teve fratura de fêmur e tudo”, explica.
Em suas experiências como frequentadora do calçadão, a empresária conseguiu perceber que “há uma concentração muito grande de atletas correndo em determinado momento, então tem uma lotação, porque, na verdade, são só 3 quilômetros à Beira-Mar, pegando ali da Praia de Iracema. Então há uma sobrecarga e um certo perigo”.
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A tensão é constante até para quem utiliza bicicletas, como no caso de Camila Soares, e de seu companheiro, Denis Alves. Para a microempreendedora, a sinalização no local é satisfatória, mas é preciso que os usuários a respeitem.
Entre as medidas adotadas por ela para evitar acidentes está a de pedalar fora do horário de pico. “Eu gosto muito de pedalar nesse horário, justamente porque nesse horário, a partir de 9, 10 horas, já não tem mais senhor. Os senhores vêm mais no finalzinho da tarde ou de manhãzinha muito cedo. De manhãzinha cedo aqui é lotado. Eu acho até fofinho e tudo mais, mas a gente tem que ter consciência e respeitar o espaço da pessoa”, defende.
E acrescenta: “Cada um tem o seu espaço. E aqui o calçadão é gigante, tem a parte do ciclista, tem a parte do pedestre, tem a parte de quem está correndo do corredor. Então assim, cada um respeitando seu espaço, está tudo certo”.
Nas redes sociais, o vereador e secretário da Regional 2, Márcio Martins, posicionou-se contra o uso de determinados equipamentos e veículos em cima do calçadão da avenida Beira-Mar.
“Ali não é lugar para esse tipo de equipamento. O calçadão da Beira-Mar não tem condições de dividir o espaço entre pedestres e qualquer outro tipo de equipamento. Eu não tô me dirigindo a equipamento A, B, ou C. Não, não tem condições, nós não temos estrutura para nenhum. No calçadão, tem que ser feito, de fato, o espaço para o pedestre”.
Conforme o vereador, desde que assumiu a secretaria, em agosto do ano passado, “foram apreendidos, desses equipamentos ilegais, piratas, literalmente, depois que a gente assumiu, já chegou a quase 100 equipamentos desses. E a gente vai continuar, para que situações como essa não voltem a se repetir”.
Para o arquiteto e urbanista e ativista da Organização da Sociedade Civil (OSC) CicloUrb, Mateus Tavares, o calçadão da Beira-Mar é um exemplo de “sucesso urbano” por ser capaz de integrar “pedestres, ciclistas, corredores, turistas, todos usando um espaço público”, o que ele classifica como um resultado desejável para toda a cidade.
Apesar disso, Tavares avalia que o projeto original da ciclovia compartilhada não previu o volume atual de pessoas que utilizam o espaço. De acordo com ele, na época em que foi projetada, não havia tantos corredores utilizando a ciclovia como se tem hoje.
“E os corredores eles acabam utilizando legitimamente a ciclovia. Só que o número de corredores hoje é muito maior do que quando a ciclovia foi projetada para ser compartilhada. Isso acaba fazendo com que os ciclistas optem por transitar na via ou transitar na calçada, tendo em vista que há um conflito evidente ali entre ciclistas e corredores”, explica.
Tavares lamenta ainda que, na prática, a lógica de que o “maior protege o menor” não funcione tanto na região. “As faixas que tem ali de travessia não são muitas vezes respeitadas. Aquele ponto específico onde teve o acidente é um ponto de conflito bem intenso, tendo em vista que tem um da ciclovia em relação à calçada. Então tem que ter uma sinalização ali voltada para o ciclista, no sentido de que aquele espaço não é só dele”, ressalta.
O arquiteto alerta ainda para a falta de uma infraestrutura que estimule a redução da velocidade dos ciclistas.
“Talvez sinalizar um espaço ali exclusivo para os corredores dentro da ciclovia. No projeto da ciclovia em si, apesar das placas de sinalização da ciclovia falarem que o máximo é 10 km/h por ciclista, o projeto não incentiva essa baixa velocidade. Ali a ciclovia é uma linha reta, com asfalto muito bom, então o ciclista acaba desenvolvendo uma velocidade maior do que 10 km/h. Então, talvez seja também necessário construir alguns elementos que reforcem essa velocidade mais baixa que os ciclistas devem efetuar ao se deslocarem ali na beira”, defende.
Para, a solução seria investir em sinalização e na adequação na infraestrutura. “Há a necessidade ali do poder público intervir, planejar e orientar as pessoas para que aquele espaço seja de fato seguro, organizado e podendo atrair todo mundo. Não, ao contrário, expulsar”, destaca.
Transeuntes cobram mais respeito às regras de utilização
Em visita ao local do acidente, O POVO flagrou a intensa dinâmica entre corredores e ciclistas que utilizam o espaço. Há 20 anos atuando como comerciante na região, Gonçalo Soares foi uma das pessoas que presenciou o acidente que vitimou a turista no domingo, 25.
O quiosque em que ele trabalha fica em frente ao cruzamento entre a ciclofaixa e a calçada. "Eu cheguei assim que teve o acidente e no dia anterior tinha acontecido um acidente com um rapaz. Já é comum", relata.
Sobre a sinalização, o comerciante avalia que apesar de existir, a orientação deixa um pouco a desejar, especialmente no trecho do cruzamento.
A falta de respeito pela sinalização também é apontada pela professora Deiva Vinícius, 60. Natural do Rio de Janeiro, a docente mora em Fortaleza há mais de 10 anos e utiliza o calçadão para realizar atividades físicas. Apesar disso, ela conta que frequentar o calçadão tem seus desafios: "Às vezes, o ciclista é abusado, não respeita quem está correndo. Tinha que ter mais fiscalização".
Para a empresária e corredora Talita Bezerra, 46, o aumento do número de frequentadores do calçadão para a realização de atividades físicas é ótimo, "apesar de eu achar que deveria ter uma pista para a bicicleta e uma pista para a corrida e outra para caminhada", pondera.
Nas redes sociais, o vereador e secretário da Regional 2, Márcio Martins, posicionou-se contra o uso de determinados equipamentos e veículos no local: "No calçadão, tem que ser feito, de fato, o espaço para o pedestre".
Restrições
A AMC informa que não há proibição para a utilização do calçadão por usuários de patins e skates, mas patinetes elétricos só podem transitar na infraestrutura cicloviária ou na própria pista