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George Floyd, os efeitos políticos do assassinato que parou os Estados Unidos

Governo Trump age para evitar que protestos pela morte de um negro vítima de violência policial influenciem voto do eleitor em novembro
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Times Square em 1º de junho de 2020, Os manifestantes deitaram-se no chão com as mãos atrás das costas em um pedido de justiça a George Floyd, durante um protesto do "Black Lives Matter". (Foto: TIMOTHY A. CLARY / AF)
Foto: TIMOTHY A. CLARY / AF Times Square em 1º de junho de 2020, Os manifestantes deitaram-se no chão com as mãos atrás das costas em um pedido de justiça a George Floyd, durante um protesto do "Black Lives Matter".

A repercussão do caso George Floyd, com atos antirracistas registrados em todos os 50 estados dos Estados Unidos, ganha contexto político importante com o passar dos dias. Com eleições marcadas para novembro, ações durante a crise social reverberam na percepção do eleitorado de seus candidatos. Manifestantes demonstram-se alinhados não apenas na luta por justiça, mas por uma mudança social efetiva no funcionamento do país.

O presidente Donald Trump dobrou a aposta no fator antagonismo. Ele agora volta a vender a imagem das eleições passadas, de candidato da "lei e da ordem", desta vez numa espécie de tentativa de reeditar o que fez o ex-presidente Nixon nos anos 60. Entretanto, em contexto político e socioeconômico distinto.

Trump tem usado as redes sociais para criticar manifestações, exaltando prisões e ameaçando passar por cima da autoridade de prefeitos e governados ao sugerir o envio do Exército aos locais com atos violentos. O presidente chegou a classificar os protestos como "atos de terrorismo doméstico" e criticou governadores e prefeitos, dentre eles o governador democrata de Nova York, Andrew Cuomo, que recusou ajuda federal.

Cleyton Monte, professor do Laboratório de estudos sobre Eleições, Política e Mídia (Lepem-UFC), avalia que os atos enfraquecem Trump a partir do momento em que transcendem o movimento negro. "Os protestos tornaram-se uma grande corrente de opinião. Negros, brancos, latinos e outras etnias uniram-se em torno de uma pauta. Quando isso ocorre, politicamente existem dois caminhos, ou você modera e concilia ou se coloca como opositor. Está claro que Trump optou pela segunda opção", afirma.

A escolha de Trump não é à toa. Ao adotar tal estratégia, ele sinaliza para o seu eleitorado, composto majoritariamente por brancos, conservadores, fundamentalistas e do interior americano, que defende os mesmos valores pregados por estes grupos.

Entretanto, o presidente tem demonstrado pouca habilidade para cumprir o papel de conciliador que espera=se dele durante a crise; muito porque Trump praticamente não precisou lidar com elas. Apesar de vivenciar anos com bons indicadores econômicos, sua gestão agora enfrenta adversidades em frentes distintas, o que põe em xeque a atuação de Trump perante eleitores mais moderados de estados que alternam votos a cada eleição.

Uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada na última terça-feira apontou que 64% da população adulta simpatiza com os protestos, enquanto 27% disseram que não e 9% não souberam responder. Além disso, mostrou que mais de 55% da população reprova a forma como Trump lida com as manifestações enquanto apenas um terço aprova.

Outro fator a ser considerado no atual contexto é o desemprego. Mais de 40 milhões de pessoas solicitaram o seguro-desemprego no país desde março e grande parte daqueles que estão sem ocupação faz parte da comunidade negra, amplamente mais afetada, se comparada aos brancos, tanto economicamente quanto em questões de acesso a saúde durante a pandemia. A desigualdade estrutural faz dos atos a oportunidade de ter voz. Os protestos antirracismo podem ser o estopim de outras demandas populares.

O maior trunfo de Trump até aqui, parece ser a incapacidade que democratas têm tido de capitalizar os protestos a seu favor. Monte destaca que "historicamente os negros tiveram apoio dos democratas no país, mas eles não conseguem transformar essa corrente de opinião em algo que possa ser levado até a eleição e que se torne uma bandeira contra o presidente e sua forma de agir. Democratas não encontraram o tom", finaliza.

 

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