Após ter a produção petrolífera quase paralisada entre 2020 e 2022, o Ceará voltou a apresentar crescimento expressivo em março deste ano e acima da média nacional.
Conforme dados divulgados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Estado produziu, em média, 692 barris de petróleo por dia, volume 16,3% maior que o registrado em março do ano passado. Para efeitos de comparação, a produção nacional avançou 4,5% no mesmo período analisado.
Contudo, a produção cearense ainda está longe de ser representativa e corresponde a pouco mais de 0,02% do que o País extrai. Em março último, o Brasil produziu em média 3,1 milhões de barris por dia. Entre os 11 estados produtores de petróleo, o Ceará ocupa a antepenúltima posição, à frente apenas do Maranhão e do Paraná.
O Rio de Janeiro continua sendo de longe o líder, com 2,6 milhões de barris extraídos por dia no período, ou cerca de 84,87% do total. São Paulo aparece na sequência, com 254,3 mil barris extraídos por dia, notadamente na bacia de Santos. Na região Nordeste, o destaque é o Rio Grande do Norte, que extraiu em média 31,6 mil barris por dia em março deste ano, ocupando a quarta posição nacional.
Contudo, tanto a produção potiguar quanto a cearense podem dar um salto, caso se confirmem as projeções de existência de grandes campos petróleo na região conhecida como Margem Equatorial, que se estende da Guiana ao Brasil (incluindo também os litorais do Amapá, Pará, Maranhão e Piauí). A Guiana, a propósito, já está colhendo os frutos da extração do produto em águas profundas e registrou um crescimento de 62,3% em seu Produto Interno Bruto (PIB) no ano de 2022, ante 2,9% de crescimento do PIB brasileiro.
Nesse sentido, o consultor em engenharia de petróleo, Ricardo Pinheiro, ressalta que “a Margem Equatorial tem apresentado excelentes resultados na Guiana. Se você considerar que a parte brasileira dela compõe uma sequência de formações geológicas favoráveis à produção de petróleo, há uma probabilidade grande de ter petróleo comercialmente viável em frente ao litoral do Ceará. Agora, para que essa confirmação ocorra, é preciso que a Petrobras ou outras empresas venham justamente a investir em pesquisa”.
Ele relembra que, com esse objetivo, a estatal já anunciou em plano estratégico para o período 2023-2027, investimento de US$ 3 bilhões (ou cerca de R$ 14,8 bilhões) em exploração na Margem Equatorial. “Isso representa o mesmo valor de investimento do que vai ser feito no Pré-Sal (região de exploração petrolífera em águas profundas na região Sudeste). Ou seja, a Petrobras está com uma grande expectativa de sucesso porque, senão, ela não colocaria tanto dinheiro lá”, avalia o consultor em engenharia de petróleo.
Sobre o crescimento recente da produção petrolífera no Ceará, Pinheiro cita como principal razão o retorno dos investimentos privados em extração terrestre, mais precisamente em dois campos na Fazenda Belém, situada entre os municípios de Aracati e Icapuí. “Isso aconteceu porque o novo operador começou a colocar poços que estavam parados para produzir novamente. Então, é esse impacto que nós tivemos agora, mas ele sozinho nunca vai ser muito grande”, explica.
Apesar disso, mesmo que não seja descoberto petróleo na área da Margem Equatorial que atravessa o litoral cearense, Ricardo Pinheiro lembra que a produção poderia ser maior, caso a exploração dos campos marítimos de águas rasas em Paracuru seja retomada, cujo processo de venda chegou a ser iniciado pela Petrobras, em plano de desinvestimento traçado no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
“Essa produção marítima depende de política interna da Petrobras para retorná-la, mas hoje ainda não está definido se vai rodar ou não a região”, conclui.