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Viagem de Bolsonaro à Rússia, em meio à tensão, preocupa especialistas

Com risco de invasão russa à Ucrânia a qualquer momento, presidente brasileiro desembarca amanhã em Moscou sob grande expectativa e apreensão
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 Registro de encontro entre Bolsonaro e Putin, cerca de dois anos atrás, durante cúpula no Japão (Foto: Alan Santos / Presidência da República)
Foto: Alan Santos / Presidência da República  Registro de encontro entre Bolsonaro e Putin, cerca de dois anos atrás, durante cúpula no Japão

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (PL), vai à Rússia nesta semana para um encontro com o líder russo, Vladimir Putin. O encontro entre os mandatários ocorre em um contexto de tensão entre a Rússia e potências ocidentais como Estados Unidos e países da União Europeia (UE) a respeito de questões envolvendo a Ucrânia. As divergências ameaçam descambar para um conflito armado segundo serviços da inteligência americana.

No fim de semana, Bolsonaro confirmou que viajará mesmo com a escalada da tensão na região. "Fui convidado pelo presidente Putin. O Brasil depende de fertilizantes da Rússia e da Bielorrússia. Levaremos um grupo de ministros também para tratarmos de outros assuntos que interessam ao País: energia, defesa e agricultura", afirmou. Ele desembarca em Moscou amanhã e se reúne com Putin no dia seguinte.

Especialistas ouvidos pelo O POVO avaliaram que Bolsonaro manteve a agenda, mesmo com membros do governo recomendando o adiamento, como forma de reforçar a imagem internacional que foi arranhada nos últimos anos. Apesar disso, Cleyton Monte, pesquisador vinculado ao Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem-UFC), diz não ver benefícios para o Brasil na manutenção da agenda do líder brasileiro em solo russo.

"A Rússia não é nosso principal parceiro comercial e o que será debatido é adiável. Nós estamos, de certa forma, entrando no olho do furacão de um conflito que não nos interessa. A visita é muito mais útil a Putin do que ao Brasil porque está sendo utilizada pelo Kremlin para mandar a mensagem de que Moscou não está isolada", avalia o pesquisador.

De acordo com Monte, a viagem visa atender a interesses de setores brasileiros, como o agronegócio, e poderia ser realizada por uma comitiva de ministros. No entanto, Bolsonaro estaria querendo passar a mesma mensagem que Putin. "Ele quer vender a ideia de que não está isolado e de que tem uma agenda internacional, com um programa e acordos. Sendo que a gente sabe que poucos líderes aceitam se encontrar com Bolsonaro", diz.

Para Iago Caubi, pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Geopolítica e Integração Mundial (GIS-UFRJ), a viagem é "parte de uma estratégia de reposicionamento para mostrar que Bolsonaro não está tão isolado internacionalmente após a saída de Trump nos EUA". Caubi aponta que seria possível recusar, mas que além de ir contra a estratégia, a proximidade da data torna, diplomaticamente, negativo adiar a visita". O convite ao governo brasileiro foi feito pelos russos no final de 2021, com as tensões já em andamento.

Politicamente, os especialistas apontam que Bolsonaro tentaria ainda sinalizar ao eleitorado que não se curva aos interesses de potências mundiais, já que o governo americano teria mobilizado esforços para evitar a visita. "Para o País, tanto do ponto de vista econômico quanto político, não traz benefícios. E ainda criamos o risco de uma zona de mal contato e tensão com parceiros comerciais de longa data como EUA e UE", avalia Monte.

Para evitar eventuais represálias por parte desses parceiros, Caubi aponta um caminho para a diplomacia brasileira. "Poderíamos promover uma visita à Ucrânia. Com uma visita dupla demonstraríamos neutralidade e que a viagem foi algo programado, mas até agora não há indicativo disso". Após encontro com Putin, Bolsonaro deve ir para a Hungria onde encontrará o líder de extrema direita Viktor Orban.

Outra avaliação possível é de que a manutenção dos encontros entre Putin e líderes como Bolsonaro, Macron (França) e Scholz (Alemanha), sinalizaria para um maior prazo para as diplomacias mundiais solucionarem a crise russo-ucraniana, já que, em teoria, é improvável que os russos iniciem uma invasão enquanto recebem outros chefes de estado. (Colaborou Filipe Pereira)

 

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