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Mayra contradiz Pazuello e nega invasão de aplicativo
Reportagem

Mayra contradiz Pazuello e nega invasão de aplicativo

| Senado | À CPI, Mayra Pinheiro, secretária do Ministério da Saúde, negou que o aplicativo TrateCov tenha sido hackeado. Também contradisse Pazuello em relação à data na qual o ex-ministro alega ter sido notificado da falta de oxigênio em Manaus
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MÉDICA cearense seguiu a linha de blindagem a Bolsonaro (Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado)
Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado MÉDICA cearense seguiu a linha de blindagem a Bolsonaro

Secretária da Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro admitiu em depoimento à CPI da Covid ontem que o Governo Federal orientou médicos a prescreverem cloroquina como parte de um tratamento precoce contra o coronavírus.

"O Ministério da Saúde não recomendou, mas orientou o uso de tratamento precoce para médicos de todo o país, não só de Manaus", respondeu Mayra ao relator da comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL).

Documento lido pelo emedebista e atribuído ao Ministério da Saúde, contudo, dizia textualmente que era "inadmissível, diante da gravidade da situação de saúde em Manaus, a não adoção da referida orientação".

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A médica cearense tentou preservar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Questionada se o chefe do Executivo a havia pressionado a sugerir o uso da medicação comprovadamente ineficaz contra Covid, Mayra disse que não. "Nunca recebi ordens", retrucou.

"A gente teve um grande prejuízo à humanidade de pessoas que poderiam não ter sido hospitalizadas e não terem ido a óbito", continuou, "se a gente não tivesse criminalizado duas medicações antigas, seguras e baratas, que poderiam ter sido disponibilizadas e prescritas pelo médico".

Também médico, o senador Otto Alencar (PSD-BA) rebateu as afirmações. "Hidroxicloroquina não é antiviral em estudo sério nenhum no mundo", criticou. "Essa insistência de permanecer no erro não é virtude, doutora, é defeito de personalidade. Não é da senhora, não, eu estou me referindo até ao presidente da República."

Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia (CPIPANDEMIA) realiza depoimento da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde. .Na foto, senador Otto Alencar (PSD-BA) e senador Eduardo Girão (Podemos-CE). ..Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia (CPIPANDEMIA) realiza depoimento da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde. .Na foto, senador Otto Alencar (PSD-BA) e senador Eduardo Girão (Podemos-CE). ..Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Sabatinada por mais de seis horas pelos senadores, a secretária contradisse em vários momentos o seu ex-chefe, Eduardo Pazuello (Saúde), cujo depoimento foi tomado na semana passada pelos parlamentares.

Segundo Mayra, o general foi advertido da falta de oxigênio hospitalar em Manaus no dia 8 de janeiro deste ano, e não no dia 10, como o ex-ministro tinha assegurado ao colegiado durante a sua fala.

"O ministro teve conhecimento do desabastecimento de oxigênio em Manaus no dia 8, e ele me perguntou: 'Mayra, por que você não relatou nenhum problema de escassez de oxigênio?'. Porque não me foi informado", narrou a médica.

Ainda de acordo com ela, "não houve uma percepção de que faltaria" oxigênio na cidade àquela altura, mesmo com as advertências tanto da empresa fornecedora quanto do governo local.

"De provas, nós tivemos uma comunicação por parte da Secretaria estadual (do Amazonas) que transferiu para o ministro um email da White Martins dando conta que haveria um problema de abastecimento", contou.

Além de comprometer a versão do episódio apresentada por Pazuello, Mayra também negou que o aplicativo TrateCov, criado para subsidiar médicos no tratamento da Covid e que receitava cloroquina mesmo para bebês, não foi hackeado, como havia informado o ex-ministro à CPI.

"Ele (suposto invasor) não conseguiu hackear. Hackear é quando você usa a senha de alguém. Foi uma extração indevida de dados", declarou Mayra aos senadores. Para a secretária, "o termo usado (por Pazuello) foi um termo de leigos".

"O que ele fez foram simulações indevidas, fora de contexto epidemiológico", acrescentou, referindo-se ao uso não autorizado do aplicativo. As informações extraídas da plataforma, no entanto, já eram públicas, e o hacker não era hacker, mas um jornalista em exercício da profissão.

Vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) abordou Mayra sobre possível manifestação de Bolsonaro em favor de medidas sanitárias. "A senhora se recorda de alguma fala do presidente da República defendendo o isolamento social?", perguntou. "Não me recordo", respondeu a cearense.

Professor e cientista político da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Emanuel Freitas avalia que, no seu depoimento, "Mayra se legitimou como uma soldada de proa do governo Bolsonaro".

"Ela não deixou de recomendar a cloroquina e não se indispôs com o presidente. Mayra se finca como autêntica aliada que parece conferir uma vista técnica às empreitadas do bolsonairsmo no Ministério da Saúde", considera.

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Cientista política e docente da Uece, Monalisa Torres reflete que, embora a secretária tenha mantido "a linha dos antecessores dela na CPI, ela mentiu descaradamente".

"Ela continuou na estratégia de blindagem do presidente. Evitava qualquer tipo de afirmação que pudesse ligar as ações da pasta que gerenciava com o governo Bolsonaro. Ela se contradisse em muitos momentos. A linha da relatoria pode ter se fortalecido com o depoimento da Mayra", projeta. 

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