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Reportagem

Empreendedorismo na periferia: O potencial de consumo que não pode ficar na margem da economia

Dificuldade de acesso a crédito e falta de formação em gestão são desafios, mas existem perspectivas positivas e histórias de empreendedores que conseguiram impactar positivamente a comunidade e ter sucesso
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Comércio local do bairro conjunto Palmeiras foi fortalecido nos últimos anos com base no trabalho do Banco Palmas, que criou uma moeda comunitária e desenvolve programa de microcrédito. (Foto: FABIO LIMA)
Foto: FABIO LIMA Comércio local do bairro conjunto Palmeiras foi fortalecido nos últimos anos com base no trabalho do Banco Palmas, que criou uma moeda comunitária e desenvolve programa de microcrédito.

A crise econômica projetada pela pandemia desde 2020 impactou de forma tremenda grandes, médios e, sobretudo, os pequenos negócios. Para quantificar as perdas mencionadas, vale destacar os dados da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor - GEM 2020, realizada internacionalmente e que no Brasil contou com o apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBPQ), que revela que o número de empreendedores no Brasil caiu de 53,4 milhões, em 2019, para 43,9 milhões ao fim do ano passado.

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A análise que se tem dos dados é que, além da alta proporção de saída de empreendedoras do mercado, houve um impulso importante de entrada também. Só que de pessoas menos preparadas, com menor escolaridade e baixa experiência em negócios.

Apesar da grande determinação e empenho, boa parte desses empreendedores, muitos da periferia, iniciam seus empreendimentos com grandes desafios, como falta de conhecimentos de gestão e administração e de ferramentas de marketing para impulsionar seus negócios.

Na análise do professor dos MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em Marketing e Empreendedorismo Roberto Kanter existem duas análises sobre o empreendedorismo periférico: solução para uma absoluta falta de perspectiva - de certa forma até desorganizada e desesperada; e uma possibilidade de gerar uma economia colaborativa.

"O grande ponto do empreendedorismo periférico do dia a dia das comunidades está ligado à vocação, de que tipo de artesanato, produto ou serviço faz mais sentido. E aí, sim, através de economia colaborativa, associativismo, criar um modelo empreendedor", afirma Kanter.

O professor da FGV entende que as demandas do empreendedorismo nascido na periferia são diferentes e precisam de atenção. "Cabe uma política de fomento, sim. Mas ela deveria ser segmentada por grupos de pessoas por vocação, entender que a realidade do microempreendedor da comunidade é diferente do empreendedor da classe média-alta."

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Crédito

Mas a principal dificuldade é mesmo o acesso a financiamento para capital de giro para iniciar seus projetos. Silvana Parente, diretora da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece) e atual coordenadora do Ceará Credi, destaca que montar um negócio da periferia sendo da periferia é um grande desafio. Muitos contam com empréstimos familiares, pois é difícil o acesso ao crédito. O perfil base dessas pessoas é de baixa escolaridade, negros e muitas mulheres chefes de família.

Silvana defende que a lógica dos programas de formação em empreendedorismo devem ser alterados, pois estão muito baseados na demanda do homem branco que monta negócio na Aldeota. "(Os empreendedores da periferia) não conseguem sempre separar o dinheiro do negócio do dinheiro da família, enfrentam muitos preconceitos de que o que vem da periferia é ruim."

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Grandes potencialidades

Na contramão desses desafios está o enorme potencial de mercado da própria periferia. Estimativas da Central Única das Favelas (CUFA) apontam que as comunidades periféricas formam um público consumidor de mais de R$ 50 bilhões. Se as favelas brasileiras se unissem e formassem um estado da federação, seriam o 5º maior estado do País.

Entre entraves e oportunidades, algumas iniciativas estão conseguindo se desenvolver nas periferias. Emanuelly Oliveira viu potenciais no cenário e fundou a Social Brasilis, com o conceito de empreendedorismo social que permitisse planos de negócios que sejam positivos para o entorno desde a concepção do produto, demanda por matéria prima e contratação de mão de obra a partir de abordagem inovadora.

A ideia começou no Pirambu, em 2015, trabalhando o potencial dos entes da base da pirâmide a partir da inclusão digital empreendedora. "Vimos que havia mais exclusão por conta da pandemia e utilizamos programas educacionais que desenvolvam habilidades e que preparem essas pessoas para o mercado de trabalho", ressalta. Hoje, a organização está presente em todo o Brasil, trabalhando com as faixas C, D e E, já pensando em parcerias no Exterior.

FORTALEZA,CE, BRASIL, 24.06.2021: Joaquim Melo, fundador do Banco Palmas. Empreendedorismo na periferia, Banco Palmas. Conjunto Palmeiras.  (Fotos: Fabio Lima/O POVO)
FORTALEZA,CE, BRASIL, 24.06.2021: Joaquim Melo, fundador do Banco Palmas. Empreendedorismo na periferia, Banco Palmas. Conjunto Palmeiras. (Fotos: Fabio Lima/O POVO)

Poder do cooperativismo na periferia muda realidade de empreendedores e comunidades

Quem pensa que a periferia é só pobreza, muito se engana. O empreendedorismo com base no desenvolvimento da comunidade é o foco do Banco Palmas, projeto desenvolvido desde 1998 no Conjunto Palmeiras. A ideia de desenvolver uma iniciativa relacionada com socioeconomia solidária com funding inicial de R$ 2 mil foi de Joaquim Melo.

Quem imagina que uma iniciativa como essa teria tudo para falhar, se engana (mais uma vez?!). A taxa de inadimplência do Banco Palmas até 2014 era de 3%. Com a crise a partir de 2015, a taxa chegou aos 5%.

Joaquim destaca a extraordinária capacidade produtiva na própria periferia e os negócios. Com ideais ligados ao cooperativismo se sustentam e crescem junto com a comunidade, a partir da priorização de fornecedores locais, o que gera uma rede positiva, que também pensa na empregabilidade dos jovens da comunidade.

Notabilizado pela criação da moeda própria que funciona em toda região do Palmeiras, as Palmas, desde 2014 o banco inovou, digitalizando a moeda, criando o E-Dinheiro. A próxima inovação será o lançamento de um marketplace do bairro, com entrega própria. "Para sairmos dessa crise, precisamos pensar fora da caixa", destaca Joaquim.

Não muito longe dali, no Planalto Ayrton Senna, a Cufa desenvolve a Liga de Empreendedores Comunitários (LEC), que tem ao todo cinco sedes no Ceará. A ideia é fortalecer e qualificar empreendedores nas comunidades.

Davi Favela, grafiteiro e membro da Cufa-CE, destaca que a Liga do Planalto acolhe empreendedores desde o início do projeto. A criação de um grupo de WhatsApp é a base. Lá, 40 microempreendedores compartilham suas novidades, promoções e o restante replica as informações em suas redes sociais. Existe ainda um perfil oficial (@Ligaplanalto no Instagram).

A rede tem contribuição simbólica de R$ 10 mensais por parte de todos os membros. O recurso é destinado a um empreendedor por mês ("não é sorteio", enfatiza Davi). E o dinheiro, pelo menos R$ 400, é um recurso extra para o empreendedor tocar o negócio.

Davi faz as contas e destaca que o leque de clientes desses 40 membros gira em torno de 5 mil pessoas. "Eu, por exemplo, trabalho na área de pintura e graffiti, tenho um leque de 300 clientes e admiradores do meu trabalho que segue minhas redes sociais. Com o trabalho da Liga, meu alcance aumenta para mais de 4 mil pessoas."

Esse trabalho, além de incluir o rapaz que vende churrasquinho, a moça manicure, os rapazes do lava-jato e o senhor que vende frango assado, também abrange outros negócios, pequenas empresas, que possuem um alcance maior nas redes sociais e indicam os serviços dos autônomos.

 

FORTALEZA, CE, BRASIL, 23.06.2021: DOM Economia - Empreendedorismo na Periferia - Personagem Eduardo Cartaxo da Energy Black T-shirts - Mora no bairro Pan Americano  (Thais Mesquita/OPOVO)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 23.06.2021: DOM Economia - Empreendedorismo na Periferia - Personagem Eduardo Cartaxo da Energy Black T-shirts - Mora no bairro Pan Americano (Thais Mesquita/OPOVO)

T-shirts com mensagens da periferia

Eduardo Cartaxo, 36, é fundador (e, segundo ele, o faz-tudo) da Energy Black T-Shirts. Ele relata que o negócio é a realização do sonho da adolescência, que, ao longo da vida adulta vinha sendo adiado pelos seus medos e inseguranças.

Ele conta que depois de uma crise de ansiedade, teve um start. Entendeu que estava se dedicando a projetos errados até 2020. "Por ser negro, tinha medo de começar o projeto, de ter a minha cara na frente do projeto. Resolvi enfrentar minha insegurança. Primeiro passo foi sair do planejamento para a ação."

Passou a investir nas redes sociais e e-commerce. Deixou a personalidade entrar forte no projeto. As camisas que vende são mensagens potentes e relacionadas ao cotidiano da favela. Seu objetivo agora é consolidar a marca e compartilhar o conhecimento que vem ganhando com os estudos e mudar a realidade do bairro Panamericano.

 

Informações para ajudar nos negócios

No Radar Sebrae, o empreendedor encontra informações estratégicas de como montar um negócio, inclusive com dados sobre oportunidades em cada bairro segundo o ramo de atuação.

As informações são baseadas em quatro indicadores básicos. A proporção de empresas daquele segmento fechadas, hábitos de consumo, tendências de negócios e concorrentes na região.

Veja abaixo alguns exemplos de informações sobre ramos de negócios:

HORTIFRUTIGRANJEIROS

São 1.118 empresas concorrentes no município. A atividade Hortifrutigranjeiros, apresentou uma taxa de mortalidade de 19%, tendo fechado 215 empresas entre 2015 e 2019. Registramos a abertura de 661 empresas concorrentes no município para o mesmo período.

DICAS ESPECIAIS PARA VOCÊ

Para quem pensa em montar um sacolão

  • Verificar os preços praticados pelos concorrentes;
  • Dar atenção aos funcionários para garantir um excelente atendimento;
  • Estabelecer uma excelente relação com fornecedores;
  • Ser bastante exigente com a qualidade dos produtos, verificar cuidadosamente as entregas;
  • Estar presente diariamente no sacolão;
  • Para o empreendedor que está começando uma dica para diminuir os custos é investir em equipamentos usados.

LANCHONETES

São 6.412 empresas concorrentes no município. A atividade Lanchonete apresentou uma taxa de mortalidade de 41%, tendo fechado 2.603 empresas entre 2015 e 2019. Registramos a abertura de 3.013 empresas concorrentes no município para o mesmo período.

DICAS ESPECIAIS PARA VOCÊ

  • Primar pela qualidade e procedência dos fornecedores, em especial dos produtos a serem utilizados como matéria-prima, verificando constantemente a pontualidade e buscando referências dos fornecedores;

  • Promover o bem estar e conforto dos clientes efetivos e potenciais, não esquecendo que o retorno destes ao estabelecimento ocorre pela qualidade dos produtos e de grande importância, o primor do atendimento;

  • Ouvir os clientes através de pesquisa e adequar serviços e produtos às expectativas;

  • Gerenciar de forma rígida o sistema de controle de estoques, impedindo que faltem, sobre ou vençam produtos.

SALÕES DE BELEZA

São 15.610 empresas concorrentes no município. A atividade Salões de beleza apresentou uma taxa de mortalidade de 30%, tendo fechado 4.626 empresas entre 2015 e 2019. Registramos a abertura de 9.196 empresas concorrentes no município para o mesmo período.

DICAS ESPECIAIS PARA VOCÊ

  • Investir na qualidade global de atendimento ao cliente, ou seja: qualidade do serviço, ambiente agradável, profissionais atenciosos, respeitosos e interessados pelo cliente, além de comodidades adicionais com respeito a estacionamento, facilidade de agendamento de horário, cumprimento de horário, etc.
  • Procurar fidelizar a clientela com ações de pós-venda, como: remessa de cartões de aniversário, comunicação de novos serviços e novos produtos ofertados, contato telefônico lembrando de prazos para continuidade de tratamentos, etc.

  • A presença do proprietário em tempo integral é fundamental para o sucesso do empreendimento.

  • Procure formular promoções durante a semana, com o intuito de atender mais vezes os clientes; Facilite os horários, não fechando no horário do almoço e estendendo o atendimento depois do expediente.

Fonte: Sebrae

EMPREENDEDORES POR NECESSIDADE

De acordo com o Sebrae, a quantidade de empreendedores novos (com até 3,5 anos de atuação) no mercado brasileiro é a maior da história, os dados históricos do GEM já mostram isso, com aumento do empreendedorismo inicial em períodos de recessão, como entre 2008 e 2009 e 2014 e 2016.

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