O ano novo não trouxe novidades aos cearenses quando o assunto é o preço dos combustíveis. De janeiro de 2025 para janeiro de 2026, a escalada dos valores cobrados por gasolina, etanol e gás liquefeito de petróleo (GLP, o gás de cozinha) continuou e os motivos continuam os mesmos: baixa competitividade, oferta aquém da demanda e uma infraestrutura logística deficiente.
Apenas o diesel sinalizou uma retração no período, o que não indica que esteja fora da influência destes fatores ou de outros. Já no início do ano, o peso dos impostos se fez presente neste cenário, quando o Imposto Sobre Circulação de Bens e Serviços (ICMS) foi reajustado e implicou em R$ 0,10 a mais no preço do litro da gasolina; R$ 0,05 no litro de diesel e mais R$ 1,47 por quilo do GLP.
Na prática, o diagnóstico que especialistas e agentes do mercado expuseram ao O POVO indica, para o Ceará, uma grande distância dos principais polos produtores, que torna o Estado fim de linha. Soma-se a isso uma infraestrutura de distribuição e armazenamento inferior à necessidade atual e a qual resulta em uma oferta abaixo do esperado.
"Precisamos de melhores condições porque, hoje, nós estamos estrangulados e não há mais espaço para crescimento", arremata Bruno Iughetti, consultor do setor de Petróleo e Gás.
Esta junção de fatores é a explicação, segundo ele, para que o Ceará sempre figure entre os estados de combustíveis mais caros do Brasil nos levantamentos semanais da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Antonio José Costa, assessor econômico do Sindicato Varejista de Derivados de Petróleo do Estado do Ceará (Sindipostos-CE) afirma que a variação dos preços tem origem na competitividade entre os varejistas e aponta a falta de concorrência na distribuição como motivo da carestia.
"O Ceará, basicamente, tem a Raízen, que representa a Shell; a Vibra, da marca BR; e a Ipiranga. Essas três distribuidoras dominam praticamente 90% do mercado. Os outros 10% são da SP, FAN e outras menores que atuam no Interior", expõe.
Sobre a manutenção de preços quando há mudanças pela Petrobras, ele conta que 60% dos combustíveis comprados pelos postos cearenses não são vendidos pela Companhia e não sofrem influência dessas medidas.
Hoje, em busca de preços melhores, segundo ele, o varejo do setor adquire gasolina, diesel e etanol de refinarias independentes - como as da Bahia, Rio Grande do Norte e Amazonas - além de produtores localizados fora do Brasil - notadamente Oriente Médio, Estados Unidos e Caribe.
Ricardo Pinheiro, engenheiro e consultor de Petróleo e Energia, destaca o cálculo exposto pela Petrobras como um modo a ser observado ao ver os reajustes feitos pela companhia - especialmente quando se alega baixa no preço dos combustíveis.
"A parcela Petrobras é bem menor do que as outras que compõem o preço do combustível. As demais podem ser afetadas justamente por impostos federais, imposto estadual, custo do etanol, distribuição e logicamente em tudo isso aí o preço da mão de obra", diz.
Outra prática da companhia mascara o efeito sobre o valor final cobrado ao consumidor, de acordo com o especialista. Pinheiro menciona que o represamento das variações do mercado internacional, seja para baixo seja para cima, miram a capitalização da empresa.
"Assim, a Petrobras consegue mais caixa, está sempre mais atrativa para o mercado de ações, para os investidores, que querem a distribuição de dividendos", atesta.
O economista Ricardo Coimbra já aponta que a variação dos combustíveis gera efeito em cadeia sobre outras atividades, pressionando ainda mais a inflação local e, consequentemente, o orçamento da população.
Afinal, gasolina, etanol e/ou diesel mais caros faz com que o transporte por aplicativo fique mais caro e dificulte o trânsito do consumidor. O gás de cozinha mais caro afeta tanto a alimentação fora de casa quanto a feita para consumo na residência.
Mas a expectativa de mudanças é observada com descrença pelo consultor Ricardo Pinheiro, que diz não acreditar numa alteração desta ordem em um ano de eleições presidenciais. Ele considera improvável uma queda significativa nos preços em um ano eleitoral, a não ser próximo às eleições e para gerar uma percepção positiva" ao eleitorado.
Jean Paul Prates, presidente do conselho do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne) e ex-presidente da Petrobras, avalia que os custos a mais contabilizados na conta dos combustíveis no Ceará podem ser atenuados a partir de uma série de medidas combinadas.
Ele aponta a necessidade de uma "fiscalização eficaz dos postos por parte dos Procon's e agências reguladoras locais", além de uma "revisão de revenda e práticas abusivas", no âmbito regulatório.
Além disso, defende "transparência da composição de preços" e uma "política tributária mais harmônica entre União e estados", na perspectiva federativa. Mas Prates despeja atenção também aos cuidados estruturais, ao observar a precisão de um "estímulo à infraestrutura de refino e distribuição regional,como é o caso do Ceará".
Novas infraestruturas podem atenuar pressão sobre os preços
Diante do cenário de elevação observado no ano passado, os especialistas ouvidos pelo O POVO apontam as novas infraestruturas de tancagem de combustíveis líquidos e GLP em desenvolvimento no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp) como cruciais para atenuar a pressão sobre os preços ao consumidor.
"Há de se ter uma precificação mais correta, mais realista no comércio de combustíveis do nosso Estado com essas estruturas", acredita Bruno Iughetti.
A primeira delas, a cargo do grupo pernambucano Dislub Equador, tem previsão de R$ 430 milhões de investimento na primeira fase de construção para dotar o Cipp de uma capacidade de operação de 220 mil metros cúbicos (m³) de combustíveis - dos quais 130 mil m³ na primeira fase.
Com a pedra fundamental lançada em fevereiro do ano passado, a expectativa é de reduzir a dependência do modal rodoviário no segmento de combustíveis líquidos e pode reunir até 20 distribuidoras no mesmo espaço.
Isso porque o modelo adotado pela Dislub é de uma grande infraestrutura para armazenagem compartilhada entre as empresas distribuidoras, como Vibra, SP e Ipiranga. "Essa infraestrutura deve ampliar a concorrência entre distribuidoras, reduzir custos logísticos e aumentar a segurança do suprimento, o que tende a repercutir positivamente nos preços para o consumidor final a médio prazo", diz Jean Paul Prates.
Iughetti ainda cita a Refinaria de Petróleo do Pecém, da Noxis Energy, como outro equipamento essencial para fazer com que os combustíveis cheguem a preços menores aos consumidores no Ceará.
De R$ 5 bilhões em investimentos, a usina deve processar até 100 mil barris de combustível por dia, dos quais 80% serão destinados para transporte marítimo e 20% para transporte veicular e gás de cozinha (GLP). Quanto a esse último produto, a estimativa dos investidores é suprir até 50% da demanda do Estado.
Já a tancagem de GLP é um projeto tocado em parceria pela Supergasbras e Ultragaz, que vão aplicar R$ 1,2 bilhão no Cipp. Anunciado em agosto do ano passado, quando o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a operação.
Ao O POVO, a administradora do Cipp afirmou que o contrato com as empresas entra em vigor na segunda metade do ano, quando devem começar as obras. A previsão de operação é 2028 e capacidade de operação é de 123,8 mil metros cúbicos de GLP.
Presidente da Petrobras fala em "queda brutal" de preços
Responsável pela maior oferta de combustíveis do País e com forte pressão sobre o comportamento da concorrência, a Petrobras mudou a forma como lidava com os reajustes dos combustíveis e a presidente da Companhia, Magda Chambriard, falou em "queda brutal" de preços nas refinarias.
"A quem interessar possa… Os preços dos combustíveis nas refinarias, a partir de 01/01/2023, tiveram uma queda brutal ante os praticados até 31/12/2022", escreveu na rede social LinkedIn.
No comparativo que Magda fez, o diesel aponta uma redução de 36,3% no valor operado pela empresa no período, enquanto a gasolina tem recuo de 26,9%; o GLP, 28%; e o querosene de aviação, 43,6%.
Os percentuais tiveram os índices de inflação descontados no cálculo, de acordo com ela. A estratégia comercial, continua ela, consiste em reduzir preço, número de reajustes para ganhar participação de mercado e melhorar o resultado financeiro dos ativos de refino.
"São reduções bem significativas que, apesar de nem sempre serem repassadas ao consumidor final pelo aumento das margens de outros agentes da cadeia, têm contribuído para a redução da inflação", destacou.
Alta dos combustíveis gera efeito em cadeia na economia
O economista Ricardo Coimbra aponta que a variação dos combustíveis gera efeito em cadeia sobre outras atividades, pressionando ainda mais a inflação local e, consequentemente, o orçamento da população cearense.
Afinal, gasolina, etanol e/ou diesel em alta fazem com que o transporte por aplicativo fique mais caro e dificulte o trânsito do consumidor. O gás de cozinha mais caro afeta tanto a alimentação fora de casa quanto a feita para consumo na residência.
A expectativa de mudanças, porém, é observada com descrença pelo consultor Ricardo Pinheiro, que diz não acreditar numa alteração desta ordem em um ano de eleições presidenciais.
Ele considera improvável uma queda significativa nos preços em um ano eleitoral, a não ser próximo às eleições e para gerar uma "percepção positiva" ao eleitorado.
Jean Paul Prates, presidente do conselho do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne) e ex-presidente da Petrobras, avalia, no entanto, que os custos a mais contabilizados na conta dos combustíveis no Ceará podem ser atenuados a partir de uma série de medidas combinadas.
Ele aponta a necessidade de uma "fiscalização eficaz dos postos por parte dos Procon's e agências reguladoras locais". Além disso, uma "revisão de revenda e práticas abusivas", no âmbito regulatório, também pode favorecer o cenário.
Defende ainda mais transparência na composição de preços e uma "política tributária mais harmônica entre União e estados", na perspectiva federativa.
Prates despeja atenção também aos cuidados estruturais, ao observar a precisão de um "estímulo à infraestrutura de refino e distribuição regional, como no caso do Ceará".