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"O cinema muda a forma de pensar o Brasil", diz Cacá Diegues. Cineasta completa 80 anos hoje
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"O cinema muda a forma de pensar o Brasil", diz Cacá Diegues. Cineasta completa 80 anos hoje

A partir de enlaces entre filmes de sua autoria e temas como Governo Federal, Cinema Novo e cultura brasileira, Cacá Diegues destrincha vida e obra em entrevista ao O POVO
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Cacá Diegues completa 80 anos e revisita trajetória no cinema em entrevista ao Vida&Arte (Foto: Arte de Carlus Campos sobre foto de Fernando Frazão, da Agência Brasil)
Foto: Arte de Carlus Campos sobre foto de Fernando Frazão, da Agência Brasil Cacá Diegues completa 80 anos e revisita trajetória no cinema em entrevista ao Vida&Arte

São 17 longas de ficção, curtas, filmes coletivos, incursões documentais e créditos como produtor. Uma figura que deu os primeiros passos no começo dos anos 1960 e que chega a 2020 atenta, consciente e esperançosa. Nascido Carlos José Fontes Diegues, em Maceió (AL), atende por Cacá Diegues e, neste 19 de maio, completa 80 anos de vida - dos quais mais de 60 transcorreram juntos do cinema enquanto atividade profissional. Cacá é um dos membros do movimento do Cinema Novo e autor de algumas das obras mais populares da filmografia nacional. A entrevista que se segue, concedida por telefone no sábado, 16, é guiada a partir de temáticas que despontam de alguns dos longas dirigidos por ele. Ao Vida&Arte, Cacá revê vida e obra, costurando memórias e questões contemporâneas.

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A Grande Cidade (1966)

O POVO - Sobre o filme, o senhor disse que ele não era autobiográfico, mas o definiu como "um tributo à minha própria formação de alagoano vivendo no Rio de Janeiro". Que memórias de Maceió vê como relevantes para sua formação e o quão importante foi ter crescido no Rio de Janeiro?

Cacá Diegues - Alagoas para mim é uma presença constante. Vim pro Rio com seis anos de idade porque meu pai, um antropólogo, foi nomeado para um cargo no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Minha mãe odiava o Rio de Janeiro, então em todas as férias maiores, de verão, a gente voltava para Maceió. Ia antes do Natal e voltava depois do Carnaval, isso até os 15, 16 anos. Até minha adolescência, foi tudo Maceió, praticamente, porque no Rio eu era muito preso - minha mãe não gostava que saísse muito. Maceió era uma presença muito marcada. Mesmo aqui no Rio, a casa do meu pai era uma espécie de "embaixada alagoana", todos os alagoanos apareciam e eu conhecia as histórias. Na verdade, só me "libertei" de Alagoas no fim da adolescência, quando comecei a ter uma vida mais pessoal, a frequentar o Arpoador, o que foi muito importante.

Ganga Zumba (1963)

OP- Com pouco mais de 20 anos, o senhor fez seu longa de estreia e, sobre ele, afirmou que foi o único realizador do Cinema Novo "a estrear com um filme histórico". O quanto, na sua avaliação, o cinema, a arte e até a sociedade brasileira deveriam se voltar mais para analisar e conhecer esse período histórico do País?

Cacá - O "Ganga Zumba" é um filme muito, digamos assim, ideológico. Muito construído a partir de uma coisa ideológica que tinha na minha cabeça. Uma das mais importantes era a defesa da cultura negra. Sempre fui rodeado por ela, meu pai era antropólogo, trabalhava muito com ela, e ao mesmo tempo - essa história é muito curiosa -, quando era pequeno tive uma babá, Bazinha, que me botava pra dormir contando histórias do Zumbi dos Palmares. Ela me dizia que Zumbi ainda existia, estava vivo, porque ele sabia voar e ninguém conseguia pegá-lo. Imagina isso na cabeça de uma criança. Formou um super-herói, Marvel, né? De alguma maneira, quis homenagear isso. Uma coisa que tenho muito orgulho é que, quando fiz o filme, Zumbi era pouco conhecido e, de certo modo, o trabalho ajudou a recuperar a imagem dele.

Xica da Silva (1976)

OP - "Xica da Silva" também trazia o contexto da escravidão e foi um marco de repercussão tanto junto ao público, pela aceitação, quanto à crítica, por ter provocado discussões e questionamentos à abordagem. Foi na década de 1970, inclusive, que o senhor cunhou a expressão "patrulha ideológica" ao falar de críticos da obra. Como avalia, olhando de hoje, esses dois lados de repercussão?

Cacá - O filme, para mim, foi uma surpresa grande em todos os sentidos. Fiz mais ou menos com a mesma ideia do "Ganga Zumba" - ou seja, valorizar a cultura negra, pegar um herói negro e transformá-lo em herói nacional, no caso a Xica da Silva. Foi uma surpresa porque, de repente, ele foi atacado de tudo que é lado, pela direita e pela esquerda. Era considerado... sei lá! A esquerda achava que o filme era engraçado demais, sei lá. Na verdade, essa era uma intenção. Fiz "Xica da Silva" poucos anos depois que voltei do exílio (Cacá deixou o Brasil com a então esposa Nara Leão em 1969, vivendo na Itália e na França e retornando em 1972) e tinha na minha cabeça: "Por quê o revolucionário, o que está na oposição, precisa ser triste, melancólico?". O riso tem uma capacidade revolucionária muito grande e eu queria botar alegria na revolução. Isso "Xica da Silva" me ajudou muito a fazer. Graças a Deus tive a meu lado grandes artistas e pessoas da época - Chico Buarque, Caetano Veloso, Nelson Pereira dos Santos, Roberto DaMatta.

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OP - O filme se destaca também como marco de uma virada na sua obra, que passa a ser mais acessível e popular, como em "Bye Bye Brasil" (1980), "Tieta do Agreste" (1996), "Deus é Brasileiro" (2003). Qual foi o contexto desse movimento de acessar outras possibilidades de linguagem depois do Cinema Novo?

Cacá - Deixa primeiro falar sobre o Cinema Novo. Ele foi oito ou nove cineastas que fizeram seus primeiros filmes nos anos 1960 e queriam algo muito simples: mudar a história do cinema, mudar a história do Brasil e mudar a história do mundo (risos). A gente acreditava piamente nisso, achava que isso ia acontecer. A gente supervalorizou a força do cinema. Hoje sei que o cinema não muda nada. Ele muda a forma de pensamento. O cinema não muda o Brasil, mas muda a forma de pensar o Brasil. Acho que o Cinema Novo, inclusive, foi muito importante e oportuno em mudar a forma de pensar o Brasil, o mundo, na política. Nós tínhamos absoluta certeza que nossos filmes estavam criando um mundo novo, que era brasileiro, que existia e queríamos registrar uma imagem que não havia sido registrada antes: a imagem do Brasil como ele era. O cinema brasileiro estava condenado, na época, aos estúdios do Rio de Janeiro, onde se faziam as chanchadas, e aos estúdios de São Paulo, onde se fazia o cinema da Vera Cruz. Então o Cinema Novo era um fator de rompimento com isso. Esse é o único ponto que juntava todos os cineastas. A partir daí, cada um ia no seu caminho. Não tem nada parecido entre um filme do Glauber (Rocha, diretor de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e "Terra em Transe") e um filme do Nelson Pereira (dos Santos, diretor de "Vidas Secas" e "Como Era Gostoso o Meu Francês"), entre um filme do Leon (Hirszman, diretor de "A Falecida" e "São Bernardo") e um filme do Joaquim Pedro (Andrade, diretor de "O Padre e a Moça" e "Macunaíma"). Nada era parecido porque cada um tinha seu rumo, decisão e escolha autoral. "Xica da Silva" é um filho do Cinema Novo, é um aprofundamento de tema e de história brasileiras. Acho, inclusive, meu filme mais político. Há uma concepção política muito clara, mas fez sucesso porque escolhi um tema popular. Uma das maiores emoções que tive na vida foi a estreia dele no Cine Madureira, no Rio. As pessoas dançavam na sala quando tocava a música do Jorge Ben. "Xica da Silva" até hoje é meu maior sucesso popular - uns chegaram perto, mas nenhum passou. Não havia rompimento com o Cinema Novo, havia continuidade.

Veja Esta Canção (1993)

OP - "Ninguém filmava no país, por causa do Collor, aí a gente inventou, com a ajuda da TV Cultura e do Banco Nacional, esse jeito de não ficar louco" é uma frase sua sobre o filme. Tendo o senhor vivido e produzido desde os anos 1960, na ditadura, passando por Collor, pela retomada e chegando até hoje, como avalia a atuação, ou falta de, do atual governo federal?

Cacá - O pior momento da história do cinema brasileiro em matéria de economia e Estado é o que estamos vivendo hoje. Veja bem, na ditadura o governo não era contra o cinema brasileiro. Ele não protegia, não dava condições, mas não era contra. Hoje é contra, o presidente praticamente diz "tem que acabar o cinema brasileiro". É uma coisa que é muito mais radical. Esse governo é o pior que podia ter para o cinema. Desgosto do governo em tudo, mas vamos falar do cinema. Ele acabou, a Ancine tá parada. Não se trata de um governo que não gosta do cinema, como o do Collor. Esse governo é contra, é outra coisa, não quer que exista. O Collor não perdia tempo, esse é contra o cinema. 

OP - E como encara as mudanças da linguagem e do consumo cinematográficos?

Cacá - Cinema é uma coisa que muda muito. Nesse momento, ele já está virando outra coisa, outra forma de se expressar. Não são mais as grandes salas. Você tem o streaming, uma multidão de gente vê seu filme. É uma maneira diferente. Essas modificações são tecnológicas, modos de fazer e mostrar o cinema, e a gente tem que entender e resolver dentro deles o que quer fazer. Ser contra os streamings é uma bobagem. O quê as pessoas estão vendo agora, em casa, na pandemia? Streaming. "Veja Esta Canção" fiz nesse espírito. Ele e "Dias Melhores Virão" (1989) passaram primeiro na TV, depois no cinema. Quem escolhe as formas e plataformas é o público. É ele que escolhe o filme que vai ver e como vai ver.

 

 

OP - A partir justamente de 2010, começa a aparecer muito na sua carreira o crédito como "produtor associado", tanto de comédias populares, quanto de obras mais "autorais". O que levou a esse movimento?

Cacá - Essa participação era através da Globo Filmes. O Edson Pimentel foi para a diretoria (onde permaneceu de 2013 a 2020) e me convidou para ser um dos conselheiros artísticos. Na minha concepção, o cinema tinha que ser tudo. Não precisa ser só uma coisa, pode ser várias, como aliás está acontecendo no Brasil e é muito bom. Você tem desde "De Pernas Pro Ar" e "Minha Mãe É Uma Peça" a "Bacurau" e "A Vida Invisível". Eu queria isso. Em alguns filmes acertei, em outros não. O quê que eu posso fazer? (risos). Acertei no sentido de que eram filmes que mereciam ser ajudados, ou por sua capacidade de chamar público ou pela de ser autoral, artístico. Participei de produção associada desde filmes do Júlio Bressane (diretor de filmes como "Matou a Família e Foi ao Cinema", de 1969, e, mais recentemente, de "Educação Sentimental" e "Beduíno") - que ninguém via, mas que eu adoro, participava de todos e meu último filme na Globo Filmes foi dele, "Capitu" - aos cineastas mais comerciais como Júlia Rezende (diretora de "Meu Passado Me Condena" e "De Pernas pro Ar 3"). O cinema tem que ser tudo isso ao mesmo tempo.

Os Herdeiros (1969)

OP - "Essa é a minha descoberta da política como tragédia", o senhor afirmou sobre o filme, que traz o contexto histórico de processos autoritários do Brasil do século XX. A política como tragédia está no DNA do Brasil?

Cacá - Acho que não, acho que está no DNA de todos os países do mundo (risos). É sempre uma tragédia, em poucos países você não encontra um processo político que não teve um momento trágico. Quantos assassinatos de presidentes aconteceram na democracia americana liberal dos EUA? Pelo menos três e algumas tentativas. A política é misteriosa, porque é o resultado dos desejos das pessoas que estão, naquele momento, controlando alguma coisa no País. A luta pelo poder é sempre uma tragédia, porque querer mandar nos outros é a pior coisa que existe no mundo. A política se torna trágica por causa disso. Alguns países conseguem passar mais ao largo, outros países não.

OP - Abrindo um parêntese, lembro da entrevista recente da secretária da Cultura Regina Duarte à CNN, que negava as mortes e torturas da ditadura militar. Como o senhor observa esse comportamento?

Cacá - Nunca trabalhei com e nunca fui amigo da Regina Duarte. Mal troquei duas palavras com ela na minha vida. Não que não gostasse dela, mas não tive oportunidade. Para mim, ela foi uma surpresa muito grande, como para qualquer pessoa com quem ela não teve contato. Vi naquela entrevista da CNN uma pessoa muito fraca, frágil, confusa, complicada, cheia de problemas, muito autoritária, também. Agora, não sou capaz de julgar a Regina Duarte por um programa de televisão. Ela podia estar passando mal, podia ter comido alguma coisa. Como nunca conversei com ela e não a vi em outra circunstância, estou julgando pelo programa. Pode ser que ela não seja aquilo.

OP- O senhor têm esperança de outro cenário para o País?

Cacá - Ah, tenho muita esperança. Em primeiro lugar, esperança é o motor da vida. Se você não tem esperança, é melhor não viver. É fundamental. Tenho esperanças concretas no Brasil. Acho, inclusive, que passando essa coisa da pandemia, vai levar a gente num caminho melhor enquanto civilização. No fundo, é a natureza implicando com a gente por bons motivos. "Para de achar que vocês são os donos do mundo e que só vocês podem saber do que ele precisa, reconheça que estamos aqui também". Vamos redescobrindo a solidão, a solidariedade, o interesse pelo outro e pela vida, formas de viver, se divertir, enfim. Acho que o mundo vai mudar muito, não sei para onde vai, e nós temos que ficar atentos para que mude numa direção que a gente acha que vale a pena.

Halder e Cacá Diegues em um dos encontros que apadrinhado e Mestre tiveram para trocas artísticas
Halder e Cacá Diegues em um dos encontros que apadrinhado e Mestre tiveram para trocas artísticas

Halder Gomes: Relato de um sortudo apadrinhado por Cacá Diegues

Era o auge do VHS nas locadoras em Fortaleza na década de 1980. Eu acabara de chegar de um intercâmbio no EUA e estava numa "fase Chuck Norris"/filmes "teens" de John Hughes. Mas, um dia, bateu o desejo de ver um filme com cara de Brasil; e, sem trocadilhos, o escolhido foi Bye Bye Brasil. Foi uma alegria! Ali, me deparei pela primeira vez com um Brasil bem diferente do delicioso universo lúdico dos Trapalhões, assim como do mundo urbano dos filmes da Boca do Lixo - meu repertório nacional até então. Era um Brasil que parecia muito com o país que eu conhecia bem, no interior do Ceará, na década de 1970, onde vivi minha infância. No filme de Cacá, descobri o Brasil - e seu cinema.

Num grande salto no tempo, o ano é 2009, véspera de filmar Cine Holliúdy. Assisti e revi vários filmes brasileiros para reviver a época que a história iria se passar - anos 1970 - e um deles foi Bye Bye Brasil. Agora, claro, já sabia muito bem quem era Cacá Diegues, assim como havia curtido demais seu filme mais recente, Deus é brasileiro. Foi um belo reencontro com o filme que havia me marcado muito tempo atrás e com o sentimento da atemporalidade do cinema bem feito. Se na época era a TV que ameaça a Caravana Rolidei de Lorde Cigano (Zé Wilker), não era diferente para o Cine Holliúdy de Francisgleydisson (Edmilson Filho). As memórias de Cacá e as minhas, expressas em filmes, dialogavam.

E Cine Holliúdy foi lançado e aconteceu aquele sucesso todo. Tanta coisa, tão rápido; um furacão! Um belo dia me deparo com um artigo de Cacá na sua coluna dominical de O Globo. Um trecho do texto dizia: “a surpreendente comédia antropológica de Halder Gomes”. Me emocionei, pois Cacá sabia da minha existência. Bruno Wainer (Downtown Filmes), distribuidor do filme, disse de forma enigmática: "é uma preparação de terreno". Fosse só até aí, já teria valido tudo a pena. Mas o destino estava mesmo curioso pra selar esse encontro e ver no que daria. Quando o projeto O Shaolin do Sertão bateu na mesa de Edson Pimentel - presidente da Globo Filmes na época -, Cacá, um dos consultores artísticos da empresa, se encantou com o roteiro e o escolheu para ser meu supervisor artístico.

Como num passe de mágica e materialização de um sonho, eu iria dali em diante trocar ideias criativas com Mestre Cacá - forma que resolvi chamá-lo. E que maestria! Foram vários encontros, Cacá era sempre preciso e cirúrgico nas suas observações, tudo encaixava quando eu voltava ao roteiro. Me impressionava o quanto ele sabia de tudo na história e nos personagens, mesmo lidando com tantos projetos ao mesmo tempo. Sua generosidade, carinho, atenção e conhecimento, cada vez mais enriquecia o significado da palavra Mestre. Um dia veio a aura maior de sua grandeza e humildade. O Shaolin do Sertão estava próximo de começar, era o último tratamento do roteiro e queria muito encontrar Cacá pessoalmente e ouvir suas últimas palavras antes de entrar no set. Voei para o Rio e nos encontramos no café da Livraria Travessa, em Ipanema. Apesar de já me sentir como um sortudo apadrinhado, estava ansioso.

Ele contou que havia lido a nova versão do roteiro e que poderia falar por horas. Porém, ele disse: "esse filme está pronto em sua alma e no seu coração. Siga-os, chegue no set e faça o que sua cabeça disser; é um filme que só você pode fazer". Conversamos um tempo sobre outros assuntos, fui para o aeroporto e peguei o voo de volta pra Fortaleza. Fiquei matutando aquilo por um tempo, toda aquela distância percorrida para ouvir poucas palavras. E aquela foi uma grande lição de cinema: o respeito pela autoralidade para sua personificação na tela em forma de originalidade. Cacá já sabia que sua contribuição naquele momento já havia sido dada, o que eu precisaria era confiança para fazer algo que estivesse à altura da expectativa que o público de Cine Holliúdy esperava. Suas breves palavras foram meu guia. Toda essa trajetória também se repetiu com Cine Holliúdy 2 - A Chibata Sideral, no qual também tive a honra da sua supervisão artística.

Ano passado, encontrei Cacá na festa do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, quando na ocasião o apresentei à Samantha Müller, protagonista do filme Vermelho Monet, que iríamos fazer nas semanas seguintes em Lisboa; ele estava no evento com seu filme O Grande Circo Místico, que também havia sido rodado em Lisboa. Ele me deu um abraço de pai, “abençoou” minha atriz e disse o quanto sabia que esse filme falava de uma grande paixão minha; a pintura. Sabia que essa paixão iria imprimir na tela. No set em Lisboa eram muitas as pessoas da equipe que haviam trabalhado no filme de Cacá. Com muito orgulho, eu contava essa trajetória que vos reporto. Eles ficavam muito felizes por esse encontro que não poderia ser de outra forma, senão pelo cinema. Eles amaram trabalhar com Cacá; eu também. Por isso, nessa data tão especial, meus parabéns ao Mestre, com todo carinho, gratidão e admiração. Cacá é brasileiro; graças a Deus!

Halder Gomes é diretor e roteirista cearense, responsável, entre outros, pelos filmes "Cine Holliúdy", sua continuação, "O Shaolin do Sertão" e "Os Parças"

FORTALEZA, CE, BRASIL, 24-06-2015: Rosemberg Cariri (e), cineasta e poeta entrega prêmio para Cacá Diegues, cineasta. Encerramento do 25º Cine Ceará, festival de cinema de Fortaleza, realizado no Cine-Teatro São Luiz, no Centro. (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 24-06-2015: Rosemberg Cariri (e), cineasta e poeta entrega prêmio para Cacá Diegues, cineasta. Encerramento do 25º Cine Ceará, festival de cinema de Fortaleza, realizado no Cine-Teatro São Luiz, no Centro. (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

Rosemberg Cariry: Cacá, vamos nessa

Cacá Diegues é de uma geração de bravos que, em meio a todas as contradições do seu tempo, tem sonhado com um Brasil no feitio de uma nação mais justa. Ao lado de Nelson Pereira, Luiz Carlos Barreto, Zelito Viana, Walter Lima Jr., Glauber Rocha, Leon Hirszman, Joaquim Pedro (e tantos outros), participou de um dos movimentos mais intensos e brilhantes da cultura brasileira: o Cinema Novo, que compôs a imagem do Brasil como uma emergência no mundo. Cineasta de intercâmbio e projeção internacional, ajudou a alargar as fronteiras do nosso cinema e, de modo apaixonado, colocou-se sempre em defesa desse cinema, nos momentos mais difíceis da nossa história. Uma posição que nunca largou, até os dias de hoje, quando denuncia os desmandos do atual desgoverno.

Cacá estreou com um curta-metragem em 1959. Era um tempo em que o Brasil acreditava no Brasil, Brasília era inaugurada, a Bossa Nova surgia como uma novidade no mundo, o Cinema Novo se preparava para conquistar o seu espaço nacional e internacional. O teatro, a dança, a literatura, as artes plásticas, as ciências e as universidades, tudo desabrochava em imensa criatividade e otimismo. O Brasil acreditava ter um grande destino, por conter uma ebulição fabulosa de culturas e povos. Era como se o mundo aqui tivesse marcado encontro para formar a “geleia geral” transbarroca e transmoderna, que geraria uma civilização nova e universal. Foi um momento bonito e inspirado. O golpe de 1964 veio para acabar com tais sonhos e mostrar que o Brasil não podia deixar de ser o que sempre fora: uma colônia (de Portugal, da Inglaterra, dos EUA).

Pessoalmente, eu tenho por Cacá Diegues um carinho todo especial, pelos filmes que nos deu, por sua generosidade como homem e artista que sabe valorizar o fazer de outros e por tudo o que ele representa para a minha geração. Cacá nos mostrou um Brasil profundo, múltiplo, contraditório, em constante movimento e tensão, com herança de crueldades refletida na sua realidade social assombrosa. O seu cinema é, por isso mesmo, cheio de dobras e significados sobre o nosso processo de busca identitária, em face da nossa amargura em não ser. “Nós, brasileiros, nesse quadro, somos um povo em ser, impedido de sêlo”, escreveu Darcy Ribeiro, outro grande nome que partilhou do Brasil da geração de Cacá.

Viver 80 anos e ter mais de 50 anos de carreira como cineasta, no Brasil, é feito para heróis. Parabéns, Cacá. Mas a missão não termina aqui, em verdade, recomeça. É nesse tempo de terra arrasada e de escuridão, que o arado de luz do cinema tem que rasgar os carrascais da alma e semear as sementes de uma esperança nova. Cacá, contamos com você e Renata, sempre. Vamos nessa!

Rosemberg Cariry é diretor, roteirista, poeta, escritor e pesquisador. Dirigiu filmes como "Corisco & Dadá", "Os Pobres Diabos" e "Escravos de Jó"

Confira onde encontrar filmes de Cacá Diegues para assistir nos streamings

Deus é Brasileiro
Disponível no Prime Video

O Grande Circo Místico
Disponível no TelecinePlay, Google Play, iTunes e Looke

Bye Bye Brasil
Disponível no Looke

Xica da Silva
Disponível no iTunes

Chuvas de Verão
Disponível no iTunes

Joanna Francesa
Disponível no iTunes

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