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Cineteatro São Luiz: a permanência pelo uso

Mesmo com o prédio tombado, Cine São Luiz enfrentou dificuldades de permanência. Políticas públicas e pleno uso na função cultural firmaram o equipamento no Estado
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Compreendendo as contradições de um equipamento hoje histórico e preservado ter sido construído somente com a demolição de outro ainda mais antigo, o professor Sebastião Ponte, do curso de História da Universidade Federal do Ceará, ressalta a importância do São Luiz a longo prazo.

"Em que pese o Polytheama ter sido demolido, este o foi para dar lugar a um outro cine de maior expressão arquitetônica e artística e que, com o tempo, também se tornou um dos maiores bens culturais e históricos de Fortaleza", avalia o professor. "Hoje ele é um dos poucos equipamentos históricos da Cidade que estão a salvo do ultrajante descaso para com a memória histórica da Cidade", segue.

A trajetória do equipamento, porém, foi atravessada por períodos que ameaçaram a sua principal função, a cultural. "Ele foi inaugurado em 1958 e, em 1960, chega em Fortaleza a televisão. Era muito mais cômodo assistir em casa a TV do que ter de se vestir para sair à noite para ir ao cinema", exemplifica Nirez.

Sebastião, por sua vez, lembra dos rumores de que a venda do imóvel para uma igreja evangélica estaria sendo cogitada. Boatos do tipo ocorreram tanto na década de 1990 quanto nos anos 2010. Um movimento relevante de salvaguarda foi dado em 1991, quando o prédio do São Luiz foi tombado como patrimônio histórico e cultural pelo governo do estado do Ceará na gestão Tasso Jereissati. Na mesma década em que ele foi oficialmente preservado, cinemas contemporâneos a ele, como o Cine Diogo e o Cine Jangada, foram fechados, o que ocorreu entre 1996 e 1997.

"No período de 1990, houve na cidade de Fortaleza, acompanhando um movimento político e cultural brasileiro, a reforma dos centros urbanos. Podemos acompanhar ao longo dessa história, um processo que se chamou de 'requalificação de espaços públicos'. O São Luiz de certa forma foi beneficiado por essa conjuntura, sobretudo pelo potencial cultural e turístico, desenvolvido pelas apropriações realizadas pelas pessoas", contextualiza o pesquisador Adson Pinheiro.

O tombamento foi fruto de uma articulação entre profissionais do cinema, cinéfilos e interessados na arte e atores públicos. Apesar da movimentação em prol do São Luiz, ele sofreu com a queda de público, fruto do esvaziamento do Centro da Cidade ao longo dos anos 2000 apesar da "requalificação".

Em 2003, houve possibilidade de compra do imóvel pelo Centro Cultural Banco do Nordeste, mas isso não se cumpriu. Em 2005, o São Luiz chegou a anunciar fechamento por inviabilidade comercial, mas no mesmo ano o equipamento foi arrendado pela Fecomércio e pelo Sesc.

A previsão era um contrato de 10 anos, mas ele acabou na metade. Nos cinco anos de gestão Fecomércio/Sesc, o São Luiz teve processo de desapropriação por interesse público autorizado pelo então governador Lúcio Alcântara (em 2005) e teve os andares de 5 a 13 do prédio anexo ao cinema comprados para instalação da Secult no local (2008).

Os gestos de interesse público pelo equipamento culminaram na compra oficial dele pelo Governo, em abril de 2011. "Foi um alívio quando realmente se efetivou a compra e a promessa de que o mesmo continuaria como um cineteatro após ampla reforma e restauração", afirma Sebastião. A reinauguração do cinema foi em 22 de dezembro de 2014, um ano após o início do restauro, e o filme escolhido para a sessão especial foi "Anastácia, A Princesa Esquecida", o mesmo da abertura ao público geral em 1958.

"A família garantiu a venda ao Estado pois havia o desejo de que o funcionamento do prédio fosse destinado para fins culturais. O tombamento foi responsável pela sua permanência física, mas sua vitalidade só foi e é garantida pelo seu uso. Só os usos garantem a sobrevivência e os sentidos de qualquer patrimônio cultural", aponta Adson.

"Não podemos deixar de destacar que, para a permanência do Cine São Luiz, foi determinante o desenvolvimento de políticas culturais voltadas ao uso do espaço pela população. Ao contrário do que acontece em alguns casos, o espaço não foi somente restaurado, foi pensado como um lugar relevante dentro da programação cultural da cidade, diurnas e noturnas, no Centro da cidade, isso reforça o papel do poder público na preservação desses bens", segue o especialista.

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Uma questão para o pesquisador

O POVO - Que desafios você observa que atravessam o São Luiz no atual contexto?

Adson Pinheiro - A necessidade de investimentos mais efetivos na preservação do patrimônio é indiscutível, e o Cineteatro mostra como essas aplicações ao patrimônio são importantes. Um dos desafios é a manutenção dos recursos humanos e financeiros na mudança de gestão e de governos, sobretudo possuir um orçamento próprio e continuar o diálogo com os mais variados fóruns da cultura, principalmente com o audiovisual e o teatro cearense, devido a atual natureza do equipamento. Ademais, é essencial um maior diálogo com o entorno formado por comércios e outros equipamentos culturais, e uma maior compreensão do prédio enquanto patrimônio da cidade, sendo necessário também chegar aos lugares mais periféricos, como a realização de projetos de educação patrimonial do cine teatro até os bairros. Ainda, para quem visita o edifício, sente falta de informações da história do lugar construída ao longo do tempo. Por fim, deixar mais claro e definir o papel social do Cine Teatro São Luiz com as populações em situação de rua, como pode, por exemplo, desenvolver um programa que abrace esse grupo social. Como integrar também suas memórias junto ao equipamento e como pensar uma programação que os integre à política cultural de direito à memória, à cultura e à cidade. Como o equipamento poderia se integrar a uma política pública que pense esta população de uma forma inclusiva, e não com uma perspectiva eugenista ou atenda uma construção de uma ideia de "revitalização" que apaga memórias e identidades? Qual o papel do São Luiz neste cenário? Qual o papel do patrimônio neste contexto?

Adson Pinheiro é pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro do Grupo de Estudo e Pesquisa em Patrimônio e Memória (GEPPM) da Universidade Federal do Ceará.

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