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Completando 64 anos, Cineteatro São Luiz tem sua história contada em livro

Inaugurado em 1958 como símbolo da "modernidade" e do "progresso", Cineteatro São Luiz guarda na história contradições próprias da vivência urbana
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O mais recente edital Cinema e Vídeo foi cancelado junto de outras duas chamadas da Secult no início de julho. Na foto, o Cineteatro São Luiz (Foto: AURÉLIO ALVES)
Foto: AURÉLIO ALVES O mais recente edital Cinema e Vídeo foi cancelado junto de outras duas chamadas da Secult no início de julho. Na foto, o Cineteatro São Luiz

O que define a importância de um patrimônio histórico e cultural? As respostas são múltiplas e passam pelo tempo em que ele segue de pé, resistindo às intempéries da vida urbana, pelos usos que ele adquiriu, pelos papéis que cumpre na dinâmica de uma cidade. O ano de 2022 marca os 64 anos do Cine São Luiz e, no próximo dia 25, serão comemorados os sete anos da reabertura do equipamento como ele existe atualmente, enquanto Cineteatro. Na data, o espaço receberá o lançamento do livro "Cineteatro São Luiz", produção da Terra da Luz Editorial com apoio institucional do equipamento, acompanhada de performance cênico-musical da atriz Christiane de Lavor e do pianista Rafael Maia. Com uma trajetória de altos e baixos e desequilíbrios entre progresso e preservação, o São Luiz, hoje, assume o papel de ser um espaço crucial para a cultura cearense.

A história da construção do prédio guarda em si a parte contraditória do importante equipamento. Apesar de ter sido um imóvel, ele mesmo, ameaçado por esvaziamentos de função e descontinuidades ao longo das décadas, o cinema nasceu com a intenção de ser um marco da "modernidade" e do "progresso" alencarinos na primeira metade do século XX.

Para tanto, o Grupo Severiano Ribeiro, responsável pela construção do equipamento, decidiu por demolir o imóvel que anteriormente ocupava o terreno: o Cineteatro Polytheama, um cinema dos anos 1910 que era de propriedade da empresa. Aberto em 1916, o local funcionou até 1938.

"O Polytheama, na verdade, não nasceu no grupo Severiano Ribeiro, este adquiriu o cine depois e o manteve porque existiam pessoas (passadistas) que gostavam da arte da mímica e o Polytheama só passava filmes mudos", contextualiza o jornalista e memorialista Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez. "Quando ficou resolvido que iria ser construído o São Luiz, o melhor local seria aquele no qual estava instalado, além de outros equipamentos, o Polytheama", segue.

Apesar da gênese do projeto do Cine São Luiz ser datada de 1938, a inauguração do equipamento só ocorreu 20 anos depois. Há uma série de motivos apontados por pesquisadores para a demora. O pesquisador e especialista em cinema Ary Bezerra Leite, por exemplo, defendia que o Grupo Severiano Ribeiro "freou" o projeto por conta da inauguração de outro cinema, o Cine Diogo.

Nirez lembra, também, do contexto mundial que assolava o período dos anos 1940: a Segunda Guerra Mundial. "A demora na construção do Edifício e cinema São Luiz deve-se à guerra, iniciada em 1939 e que durou até 1945", avalia.

No O POVO de 10 de setembro de 1948, a obra já decenária era alvo de cobranças diretas. "A inauguração recente do Edifício Jangada, cujo início data de setembro de 1945, ensejou motivos aos fortalezenses para estabelecer um contraste entre a sua rápida construção e a morosidade ou paralisação dos serviços do cine São Luís", afirmava texto da época. "Há quase dez anos que afronta os zelos municipais e a paciência do público, na Praça do Ferreira, a nova casa de diversões do sr. Luís Severiano Ribeiro. (...) O São Luís precisa ser concluído. E a Prefeitura tem obrigação de forçar pelos meios que dispõe, o acabamento do mesmo. Não há mais por que esperar", ressaltava.

A inauguração oficial ocorreu em 26 de março de 1958. "Até que, afinal, inaugura-se o São Luís" foi a frase de abertura da notícia sobre o fato no O POVO. "Não se sabe, sequer, o motivo real de tão inexplicável retardamento. Mas o povo cearense há-de sentir-se compensado da prolongada espera, diante dos requintes de bom gosto e distinção do seu maior e melhor cinema que é também um dos mais belos e imponentes do Brasil", segue o texto.

O "passadismo" do antigo cinema que somente exibia os ultrapassados filmes mudos, enfim, deu lugar à beleza, elegância e bom gosto do "maior e melhor cinema" do Estado. "O Cine São Luiz é o registro histórico de permanência de um desejo de ser moderno, mas também de pertencer a um determinado grupo político e econômico de uma época", avalia Adson Pinheiro, pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro do Grupo de Estudo e Pesquisa em Patrimônio e Memória (GEPPM) da Universidade Federal do Ceará.

"Ao longo dos anos, nos grandes centros urbanos, foram sendo preservadas edificações que tratam muito mais de grupos que dialogam mais com a perspectiva de uma ideia de moderno em contraposição ao popular ou mesmo o constituído para atender grupos sociais mais populares. Esse desejo de se modernizar ainda é bem presente, e o desejo de se espelhar pelo novo, e pelo que se relaciona com uma ideia capitalista de moderno é cada vez uma constância", segue Adson.

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