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Reportagem Especial

Covid-19: médicos relatam vivências dramáticas no cotidiano dos hospitais

A pandemia do novo coronavírus alterou a lida com vida e a morte nos corredores e UTIs dos hospitais e no dia a dia de quem, do lado de fora, viveu ou ainda vive a expectativa de superar a Covid-19 em Fortaleza. A convite do O POVO, sete médicos de linha de frente narram como se deu essa mudança de cotidiano em seus ofícios e a maneira de reaprender a medicina

Covid-19: médicos relatam vivências dramáticas no cotidiano dos hospitais

A pandemia do novo coronavírus alterou a lida com vida e a morte nos corredores e UTIs dos hospitais e no dia a dia de quem, do lado de fora, viveu ou ainda vive a expectativa de superar a Covid-19 em Fortaleza. A convite do O POVO, sete médicos de linha de frente narram como se deu essa mudança de cotidiano em seus ofícios e a maneira de reaprender a medicina
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Deu vontade de chorar quando Beatriz Helena, 51, ginecologista e obstetra, contou que teve a certeza clandestina que mãe e feto não sobreviveriam à Covid-19.

A própria médica teve de se segurar, em seus 26 anos de batente, para tentar não desabar diante uma situação tão delicada que se punha em mais um dia difícil de pandemia nos corredores dos hospitais do Ceará.

“E, de repente, me vejo frente a frente com a morte. Sinceramente, não fui preparada pra isso. Não na minha especialidade”, escreveu para O POVO.

Ao se despedir, Beatriz fez um carinho nos cabelos da gestante e ainda esperançou: ‘Vocês vão ficar bem. Daqui a quatro meses nos veremos no seu parto’.

“Ela me olhou profundamente e assentiu com um pequeno movimento de cabeça. Nós duas sabíamos que esse momento não aconteceria. Saí de lá dilacerada. A maternidade tem linguagens que nem sempre precisam ser faladas”, contou a obstetra do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Fortaleza.


Beatriz Helena e mais seis médicos do Coletivo Rebento – Em defesa da Ética, da Ciência e do SUS aceitaram escrever para O POVO+ sobre situações limites e reflexões em torno da experiência vivida nesse momento de caos para a saúde coletiva causado pelo novo coronavírus.

Com o impedimento determinado pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) aos repórteres do jornal de entrarem nos hospitais, médicas e médicos narram parte da rotina no enfrentamento à pandemia na rede de saúde de Fortaleza. Com o cuidado para preservar a identidade de pacientes e a delicadeza de tecer sobre o sofrimento ou alento de muitos que padeceram ou regressaram para casa. 

São travessias cruzadas. E nesses percursos de socorro urgente pela vida do outro e do próprio profissional de saúde, o texto da também obstetra Liduína Rocha, 51, toca o de Beatriz Helena. Liduína põe uma lupa no drama.

"Nem morrer nos torna iguais, como pode parecer. É necessário refletir sobre o fato de que quase metade das gestantes e puérperas que morreram pela Covid sequer foram intubadas", aprofundou a presidente do Comitê Estadual de Prevenção à Morte Materna, Fetal e Infantil.   

Elas morreram, segundo Liduína Rocha, “esperando a assistência que não houve, porque o sistema de saúde havia chegado ao seu limite e lutava para não ser desmontado”. A médica, que aparece paramentada na imagem de abertura deste especial, descobriu que havia sido contaminada pelo novo coronavírus após passar mal quando auxiliava uma cesárea. 

Durante a cirurgia, o coração da obstetra só faltou sair pela boca quando acelerou repentino. O suor banhou o avental impermeável de proteção e ela teve de respirar fundo, para espantar a vontade de vomitar em meio ao parto e na companhia de outros profissionais de saúde ali. Era mais um dia dentro da pandemia. 


Mais de 100 dias se passaram trazendo uma rotina totalmente alterada no interior dos hospitais e em suas alas de isolamento. De repente, a partir de março, "as inúmeras unidades de terapias intensivas que antes estavam lotadas com pacientes com várias doenças hoje se dão conta de uma monotonia assustadora: Covid-19", caiu em si Ramon Rawache, 34, cirurgião digestivo.   

Nas palavras de Ramon, também professor da Faculdade de Medicina da Unichristus, a sequência de dias virou uma tormenta com volume de trabalho intenso e a exigência da emoção, ainda maior.

"No hospital, os chamados não param: a quantidade de pessoas internadas e padecendo por apenas uma doença, espanta!". Era mais um dia para ser vencido, segundo o médico. 

O mundo poderá até voltar ao "normal", sem assumir uma nova escrita nas relações do homem com o homem ou do ser humano com a Terra. No entanto, a experiência com a morte e a cura, açodadas pela pandemia, talvez seja mais um marco histórico para nova relação empática entre médico, paciente e familiar no trato com a comunicação e a importância da vida de alguém.

A dor do outro "precisa de notícia", de saber da "melhora", o que "houve na última noite", se "amanheceu com vida". Eis o desafio posto, agora em volume para os médicos, segundo o cirurgião ginecologista Leonardo Bezerra, 47.

Leia também | Mulheres são maioria entre profissionais de saúde infectados com a Covid-19 

Leonardo, que também é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), se viu mais uma vez no redemoinho da "intrépida missão" de "transformar tantas informações em palavras compreensíveis! Transferir às nossas notícias nos boletins médicos  o alento, a conformação, a proximidade, da estímulo, a fé e a esperança necessárias para as famílias".

Uma experiência vivida também por Eloide Bofim Hyppolito, 50. A hepatologista do Hospital São José (HSJ) foi transformada pela circunstância da pandemia em "médica mensageira".

Em vez de ferramentas médicas corriqueiras à mão, acabou descobrindo o telefone como parte do ofício para informar sobre um parente dos outros isolado na unidade saúde do Ceará, referência em moléstias infectocontagiosas. Do outro lado da linha, alguém ansioso sobre a perspectiva da volta de alguém. 

"A Covid-19 foi a doença que mais pavor causou a todos os atores envolvidos. Lidar com o medo é sempre difícil. Sem informação adequada, é desesperador", contou Eloide Bonfim entre altas, mortes e pedidos por milagres. 

Pelos bairros de Fortaleza, Sami Gadelha, 33, patologista e plantonista do Serviço de Verificação de Óbito (SVO) vive o drama de atestar a morte causada pelo novo coronavírus e, consequentemente, interferir num costume que virou inusual de uma hora para no universo da vida privada: o ritual do adeus de um bem querer.

“A notícia e a consequente quebra do ritual de despedida geram uma indignação tão impactante que, por vezes, se exterioriza como hostilidade a quem traz esse julgamento, nós, profissionais de saúde. Talvez mais ainda naqueles casos em que isso ocorre de modo mais rápido, em poucos dias, em que a família mal tem tempo de lidar com a possibilidade de estar com um membro seu infectado, quanto mais de ele ter falecido”, testemunhou o médico.

Confira a seguir, sete narrativas de médicas e médicos revendo a própria história em meio a pandemia da Covid-19, em Fortaleza. O anestesista Nilfacio Prado, além do testemunho em texto, constrói a narrativa visual deste especial, com imagens fotográficas em preto e branco, cedidas ao O POVO.

Um olhar dele sobre os mais de 100 dias de batalhas vencidas e perdidas contra o novo coronavírus que, provável, estará no cotidiano do mundo por tempo indeterminado.

Nilfácio também tece sobre a própria condição de profissional de saúde, de esposo e filho. Tendo que se manter no caleidoscópio de sensações e crê na possibilidade de dias melhores. 

Acompanhe, a seguir, as narrativas carregadas da emoção e da subjetividade desses tempos limite.   

Especial médicos na pandemia Covid-19. O caos sanitário causado pelo coronavírus exigiu outra vestimenta para proteger médicos e pacientes. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará-Brasil. Foto: Nilfacio Prado
Foto: Nilfacio Prado
Especial médicos na pandemia Covid-19. O caos sanitário causado pelo coronavírus exigiu outra vestimenta para proteger médicos e pacientes. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará-Brasil. Foto: Nilfacio Prado

#Narrativa 1

“Nem morrer nos torna iguais”

Por Liduína Rocha, obstetra

O coração batia rápido e forte, o avental impermeável se encharcou de suor, e eu experimentava uma sensação de náusea que me acompanharia pelos próximos dias. Respirei buscando a consciência de sentir o ar entrar nos pulmões e no corpo, e me concentrei em ajudar a concluir a cesárea que estava auxiliando.

Há 5 dias já não via nenhum familiar, incluindo os que, a muito custo, foram convencidos da necessidade de mudar de casa. Aliviada, pensei que, se eu estivesse com Covid, estariam protegidos de mim. Essa é uma das várias crueldades dessa doença: precisarmos nos proteger uns dos outros.

Swab colhido, agenda do consultório cancelada, reuniões postergadas, um oxímetro que virou quase a extensão da minha mão, e os nove dias seguintes passados em grande parte na varanda, olhando a imensidão do mar, para me apresentar a experiência de pensar na morte. E na vida.

FORTALEZA, CE, BRASIL, 23-6-2020: Liduína Rocha, ginecologista. Médicos e médicas Coletivo Rebento.. (Foto: Aurelio Alves/O POVO)
Foto: Aurelio Alves/ O POVO
FORTALEZA, CE, BRASIL, 23-6-2020: Liduína Rocha, ginecologista. Médicos e médicas Coletivo Rebento.. (Foto: Aurelio Alves/O POVO)

Pensar nas muitas vidas, a humanidade inteira, e nas mortes, agora mais de 50 mil aqui no Brasil. Mortes com faces desconhecidas, mas também de pessoas próximas, queridas. Mortes provocadas pela Covid, mas em grande parte definidas pelas escolhas de política pública.

É preciso que se diga que nem morrer nos torna iguais, como pode parecer. É necessário refletir sobre o fato de que quase metade das gestantes e puérperas que morreram pela Covid sequer foram intubadas.

Morreram esperando a assistência que não houve, porque o sistema de saúde havia chegado ao seu limite e lutava para não ser desmontado.

O SUS, que salvou muitas vidas, e é construído pelas mãos de muitos e muitas trabalhadores e trabalhadoras, que como eu também adoeceram, e muitos morreram, também em condições muito diferentes.

Em todo o mundo, somos o País com o maior número de profissionais da enfermagem mortos. Olhando com mais atenção, predominam nesse obituário mulheres e negras, que como eu são profissionais da saúde, mas exercem suas atividades em um nível de vulnerabilidade brutalmente maior.

Pegam transporte coletivo lotado diariamente, precisam ter rotinas de muitos plantões pela baixa remuneração, têm dificuldade de acesso aos EPIs. Não, não estamos no mesmo barco.

O coração ainda bate forte, ainda sinto uma sensação de náusea. Respiro fundo. E não é pela Covid. É pela compreensão da profunda desigualdade social, a doença que mais mata neste País. 

Três por Quatro

Liduína de Albuquerque Rocha e Sousa, 51, é obstetra com 25 anos de formação na Medicina no Ceará. Atualmente é coordenadora do Programa Nascer no Ceará e é assessora técnica da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). Também é presidenta do Comitê Estadual de Prevenção à Morte Materna, Fetal e Infantil e da Associação Cearense de Ginecologia e Obstetrícia (Socego)

Especial médicos na pandemia da Covid-19. Pós-parto em um dos hospitais de Fortaleza. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará.Brasil. Foto: Nilfacio Prado
Foto: Nilfacio Prado
Especial médicos na pandemia da Covid-19. Pós-parto em um dos hospitais de Fortaleza. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará.Brasil. Foto: Nilfacio Prado
#Narrativa 2

A vida pulsa dentro de outra vida

Por Beatriz Andrade, ginecologista e obstetra

Fui desafiada a escrever a minha história na linha de frente contra a Covid. Quero voltar a um tempo e dizer o motivo que escolhi a ginecologia e a obstetrícia. A vida que pulsa dentro de outra vida sempre me atraiu e aos meus olhos é um milagre.

Nesses 26 anos de profissão fui presenteada com a vinda ao mundo de pessoinhas que representam o futuro. E o futuro é cheio de tantas possibilidades... Fascinante demais!

E, de repente, me vejo frente a frente com a morte. Sinceramente, não fui preparada pra isso. Não na minha especialidade.

FORTALEZA, CE, BRASIL, 23-6-2020: Beatriz Andrade, ginecologista. Médicos e médicas Coletivo Rebento.  (Foto: Aurelio Alves/O POVO)
Foto: Aurelio Alves/ O POVO
FORTALEZA, CE, BRASIL, 23-6-2020: Beatriz Andrade, ginecologista. Médicos e médicas Coletivo Rebento. (Foto: Aurelio Alves/O POVO)

No último plantão, além das inúmeras pacientes que atendi com sintomas de Covid, fui chamada a dar um parecer obstétrico em uma paciente gestante na vigésima-segunda semana com dispneia severa (desconforto respiratório intenso). Me paramentei, entrei na área de isolamento e deparei com ela.

Catéter de oxigênio no nariz, deitada em uma maca encostada na parede, por falta de leito. Aguardavam, ela e o filho que carregava em seu ventre, a transferência para um hospital terciário onde a assistência ao binômio mãe e filho seria mais adequada.

Trocamos olhares. E jamais esquecerei aquele olhar cheio de desesperança (é a única palavra que me vem à mente agora). Expliquei que estava ali pra saber se ela e o bebê estavam bem.

Coloquei o sonar (aparelho usado para auscultar os batimentos cardíacos do feto) no seu ventre e escutei o som da vida que insistia em pulsar apesar de todas as adversidades. Ficamos um tempo assim: a escutar aquele sopro de vida e esperança (pausa para o meu choro...).

Ao me despedir, fiz um carinho nos seus cabelos e falei: "Vocês vão ficar bem. Daqui a quatro meses nos veremos no seu parto". Ela me olhou profundamente e assentiu com um pequeno movimento de cabeça.

Nós duas sabíamos que esse momento não aconteceria. Saí de lá dilacerada. A maternidade tem linguagens que nem sempre precisam ser faladas. Meus pacientes, mãe e feto, faleceram dois dias depois da minha visita, aguardando um leito de UTI.

O choro de alegria do nascimento, da força da vida, não será ouvido. E é com essa saudade do que não vivi que termino o meu depoimento.

Três por Quatro

Beatriz Andrade tem 27 anos de formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). É ginecologista infanto-puberal da Clínica Femini Imagem. É obstetra do Hospital Nossa Senhora da Conceição.

Especial médicos na pandemia. Cirurgia realizada durante o caos sanitário causado pela  Covid-19, em Fortaleza. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará.Brasil. Foto: Nilfacio Prado
Foto: Nilfacio Prado
Especial médicos na pandemia. Cirurgia realizada durante o caos sanitário causado pela Covid-19, em Fortaleza. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará.Brasil. Foto: Nilfacio Prado

#Narrativa 3

Médica mensageira

Por Elodie Bonfim Hyppolito, hepatologista

A pandemia pelo Sars-CoV-2 impactou irreversivelmente todo o mundo e todas as áreas. Gestores, médicos, todos os profissionais da área de saúde de nível médio e superior.

Todos, absolutamente todos os que trabalham direta ou indiretamente em unidades hospitalares foram retirados de suas zonas de conforto e domínio, sendo deslocados para o enfrentamento da Covid-19.

De médica hepatologista, acostumada a atender pacientes de hepatite e transplantados de fígado, fui transformada pela necessidade em intensivista, infectologista, “covidologista”, epidemiologista, gestora de crises e também em médica mensageira.

Cada uma dessa novas funções me trouxe enormes ensinamentos. Tive que voltar a intubar, ventilar, usar drogas da terapia intensiva há muito esquecidas. Entretanto, nenhuma dessas funções me trouxe tanto crescimento pessoal e espiritual como a de médica mensageira do Hospital São José (HSJ).

FORTALEZA, CE, BRASIL, 23-6-2020: Elodie Hyppolito, hepatologista. (Foto: Aurelio Alves/O POVO)
Foto: Aurelio Alves/ O POVO
FORTALEZA, CE, BRASIL, 23-6-2020: Elodie Hyppolito, hepatologista. (Foto: Aurelio Alves/O POVO)

O HSJ é um hospital de referência terciária e de ensino em doenças infecciosas, gerido pelo Estado e situado no bairro Parquelândia, em Fortaleza. Por ser um hospital de doenças infectocontagiosas, conta com um injusto estigma de medo dos usuários atendidos pela primeira vez.

Mesmo trabalhando há 26 anos nesta unidade, nunca vi tanto medo entre pacientes, gestores, profissionais e familiares diante de uma doença infecciosa.

Diante da gravidade, do risco de disseminação para os contactantes, a Covid-19 foi a doença que mais pavor causou a todos os atores envolvidos. Lidar com o medo é sempre difícil. Sem informação adequada, é desesperador.

Quantas manchetes e denúncias de dificuldade de pacientes internados vimos aqui nos telejornais do Ceará e de todo o Brasil? Soubemos de pacientes intubados, cujas famílias sofriam intensamente por ficarem dias sem saber como estavam seu pai, mãe, avós, tios, filhos, esposos, amigos!

Desumano para todos! Além de ter que lidar com a dor e a incerteza de ter o seu parente de volta, de estar proibido de visitar por períodos longos, de até dois meses de hospitalização, convivendo com manchetes diárias de covas rapidamente preenchidas, as famílias tiveram que lidar com a escassez de notícias.

Em algumas unidades em que internei conhecidos, as informações muitas vezes se resumiam a um texto frio enviado por mensagem eletrônica. A dificuldade de acesso ocorreu mesmo para nós, médicos.

Diante da gravidade da doença, do risco de disseminação para os contactantes, a Covid-19 foi a doença que mais pavor causou a todos os atores envolvidos. Lidar com o medo é sempre difícil. Sem informação adequada, é desesperador

O HSJ evoluiu positivamente na informação aos pacientes durante toda a pandemia. Inicialmente, criou uma equipe multiprofissional com enfermeiras, psicólogos e assistentes sociais que telefonavam diariamente para a família.

Posteriormente, além dessa equipe, somou-se outra de 10 profissionais batizados como “Médicos e Enfermeiros Mensageiros” (o que uma espirituosa colega apelidou jocosamente de “Médicos e Enfermeiros Telefonistas”).

Uma equipe composta em maioria por infectologistas, além de uma psiquiatra, uma dermatologista, um ginecologista, uma enfermeira e eu.

Diariamente telefonávamos para as ansiosas Marias, Antônios, Josés desconhecidos que, ligação após ligação, se tornavam aos poucos conhecidos com quem dividíamos o estado clínico de outros Franciscos, Merys, Pedros internados aos nossos cuidados.

A maioria das mensagens era passada por ligações detalhadas contendo informações da gravidade e do risco que o paciente corria, se estava intubado, em máscara reservatório, catéter de oxigênio ou (alegria suprema!!!) sem nenhum suporte de O2.

Diariamente telefonávamos para as ansiosas Marias, Antônios, Josés desconhecidos que, ligação após ligação, se tornavam aos poucos conhecidos com quem dividíamos o estado clínico de outros Franciscos, Merys, Pedros internados aos nossos cuidados

E foram tantos diálogos inesquecíveis... “Doutora, ele comeu direitinho? Ele não gosta de comida fora de casa... Tadinho! Isso deve ser o pior para ele! Não que a comida do hospital seja ruim... É que o meu marido só gosta da minha comida...". "Qual a saturação dele hoje?".

Sim, eles aprendiam tudo! Após alguns dias de notícias telefônicas, entendiam todos os termos técnicos e questionavam tanto que, por vezes, se acreditava serem profissionais de saúde. Quando eu perguntava se eram, respondiam orgulhosos que aprendiam tudinho com as ligações.

Questionavam bastante os tratamentos ouvidos na televisão. Ele está usando heparina? E essa tal da cloroquina, doutora, presta? Ele está usando? Vixe, piorou?! Mas estava melhorando, doutora... Teve febre hoje? Ah, minha Nossa senhora de Aparecida! “

“Doutora, o Pedro é a única pessoa que eu tenho no mundo, não posso perder ele. Façam tudo o que puder para salvar o meu Pedim. Ele é catador de lixo, sustenta a mim e à nossa cachorrinha que morre de saudades dele. A senhora podia dar esse recado a ele? A baleia está amofinada e não quer mais comer. Estamos bem e os vizinhos tão tudo me ajudando. Diz a ele que não se preocupe cum nada!”.

Em outra vídeoconferência emocionante, um paciente que tinha ficado intubado por mais de 30 dias e ainda estava na unidade semi-intensiva fazendo hemodiálise (filtragem do sangue, quando os rins param de funcionar) chorou por poder desejar “pessoalmente” com imagem e som do smartphone: “Feliz aniversário, minha veia. Eu bem, eu escapei, quase bom e indo pra casa. Diz para Jana que o vovô vai já colocar ela pra dormir logo logo!”

De todas, a que mais me emocionou foi a de dona Lurdes, esposa do Sr. Clayton, 74 anos, internado há 45 dias, intubado, gravíssimo e em cuidados paliativos (considerado sem chance de ter alta hospitalar pela gravidade).

Felicidade suprema era noticiar uma alta: “Dona Antônia, a senhora está preparada para bater palmas e fazer o vídeo com o seu marido?! Ele está de alta! 100% recuperado! Não é uma maravilha?

Dotôra, pelo amor que a senhora tem aos seus filhos, me deixa ver meu marido só uma vezinha antes dele morrer. Eu não tenho medo de pegar essa doença! Eu tinha e aceitei no começo só ter notícia por telefone, mas sei que ele tá perto de morrer! As notícias tão cada dia piores, eu sei que ele vai morrer! Não importa se eu pegar! Prefiro morrer junto que não me despedir do meu marido. Somos casados há 52 anos. Tentei de todo jeito, ontem, com a assistente social. Me ajude, eu imploro”.

Respondi que tinha certeza que a direção acataria o seu pedido e daríamos retorno breve. “Jesus seja louvado, muito agradecida! Nosso Senhor vai abençoar a todos desse hospital com saúde e muitas bênçãos!”.

E saiu gritando: “Zefinha, chega! Eu vou ver o Clayton amanhã!”. A direção do hospital prontamente acolheu a demanda e permitiu visitas a este paciente com os devidos cuidados.

Claro que as notícias mais difíceis e dolorosas eram as de falecimento. Como sou espírita sempre dava a notícia na perspectiva da esperança e do fim de uma missão. Sim, essa é minha visão da morte.

Para quem parte é o fim do sofrimento. Para quem fica, muita dor e saudade. Felizmente eram a minoria das notícias que tínhamos que dar. Mas não foram poucas.

Felicidade suprema era noticiar uma alta: “Dona Antônia, a senhora está preparada para bater palmas e fazer o vídeo com o seu marido?! Ele está de alta! 100% recuperado! Não é uma maravilha?".

Não! Estas pessoas não são números, nem os óbitos, nem as altas felizes são números. São sentimento puro, gente de carne e osso como eu e você que está lendo este texto. Poderia ser um de nós ou nosso parente.

Através das mensagens, cresci muito como profissional e ser humano. Aprendi mais ainda a escolher palavras, a ouvir, a tentar sempre enfatizar os aspectos positivos do quadro daquele dia, sempre deixando uma pontinha de esperança nos casos muito graves. Pois é assim que enxergo a medicina.

Somos nós, profissionais de saúde, privilegiados por testemunharmos verdadeiros “milagres” todos os dias! Pacientes desenganados pela evolução das suas doenças, com prognósticos teoricamente muito ruins, se recuperarem enchendo familiares e equipes de alegria!

Sempre finalizava as mensagens dizendo que tudo estava sendo feito como eu gostaria que estivesse sendo feito em um parente meu, pois acho isso um grande conforto, especialmente verdadeiro nessa unidade em que eu trabalho.

Unidade SUS, cheia de funcionários compromissados, que se orgulham de ter muito mais elogios que críticas na sua ouvidoria.

Como funcionária pública orgulhosa que sou e defensora ferrenha do SUS, saía feliz da vida incontáveis vezes escutando: “Doutora eu jamais esperava ser tão bem atendido em um hospital do SUS!”.

Já pensou se não fosse o SUS?! Defenda o SUS! Viva o SUS!

Três por Quatro

Elodie Bomfim Hyppolito, hepatologista, é a médica número 6000 no Conselho Regional de Medicina do Ceará. Formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC) tem 25 anos de medicina e atua como coordenadora do Ambulatório de Hepatites do Hsopital São José e conselheira do Comitê Estadual de Hepatites da Sesa. É também médica do Serviço de Transplante de Fígado do Hospital Universitário Walter Cantídio da UFC.

Especial médicos na pandemia Covid-19. Cena do dia a dia de médicos e médicas durante o caos sanitário causado pelo coronavírus em Fortaleza. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará-Brasil. Foto: Nilfacio Prado
Foto: Nilfacio Prado
Especial médicos na pandemia Covid-19. Cena do dia a dia de médicos e médicas durante o caos sanitário causado pelo coronavírus em Fortaleza. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará-Brasil. Foto: Nilfacio Prado

#Narrativa 4

Comunicação em tempo de Covid-19: novos desafios à empatia médica

Por Leonardo Bezerra, ginecologista

Diante de tantas internações e do colapso da rede hospitalar com a pandemia de coronavírus, as unidades de saúde tiveram que proibir visitas aos pacientes internados.

Estratégia sanitária crucial para evitar a disseminação do vírus através de contato com enfermos em tratamento.

Com efeito, muitos familiares só viram seus entes à hora da internação, nunca mais os podendo tocar, conversar, abraçar. A partir de então viraram números de acometidos, internados, estatística de vítimas graves da Covid-19.

FORTALEZA, CE, BRASIL, 23-6-2020: Leonardo Bezerra, ginecologista. Médicos e médicas Coletivo Rebento.  (Foto: Aurelio Alves/O POVO)
Foto: Aurelio Alves/ O POVO
FORTALEZA, CE, BRASIL, 23-6-2020: Leonardo Bezerra, ginecologista. Médicos e médicas Coletivo Rebento. (Foto: Aurelio Alves/O POVO)

Acompanhamos estarrecidos todos os hospitais com alas de internação, apartamentos e enfermarias sendo transformados em unidades de terapia intensiva. Sem outras alternativas, foram também adaptadas as salas cirúrgicas.

Antes mesas de cirurgias, agora leitos com respiradores para acolher o que a nós parece um sem fim de graves enfermos da pandemia. Cirurgias eletivas adiadas indefinidamente.

Consequências dolorosas e inevitáveis advieram e o problema precisava de solução. A impossibilidade de visitas limitaria as estratégias de esperança de quem sofre a angústia do ente internado.

As famílias que não veem seus enfermos se sentem amputadas, angustiam-se ainda mais! Essa dor precisa de notícias, saber se há melhora, o que houve na última noite, se amanheceu com vida.

Doloroso ficar desse lado ainda mais de “fora da UTI”, de tão longe, silencioso, sem informação. "Agravou-se o quadro? Recuperaram-se as células do sangue? Ele respira melhor?".

Enfim, não se dorme direito, não se pode comer. Não há quem possa trabalhar, existir sua pretensa normalidade sem notícias.

A impossibilidade de visitas limitaria as estratégias de esperança de quem sofre a angústia do ente internado. As famílias que não veem seus enfermos se sentem amputadas, angustiam-se ainda mais! Essa dor precisa de notícias

Mas a capacidade médica do cuidado transcende. O acolhimento à dor e a empatia com tanto distanciamento evoluem, se transformam, se adaptam com as novas tecnologias! Para estabelecer um elo entre família, UTI e paciente, verdadeiras forças-tarefas foram criadas!

Profissionais médicos foram mobilizados, responsáveis em informar pelo contato, agora, telefônico. A moderna tecnologia de informação hospitalar tem sido crucial na elaboração de alternativas de comunicação.

Hoje os dados clínicos, exames, parâmetros de ventilação mecânica, taxas de infusão de medicações, exame físico dos doentes internados, dados de fisioterapia, nutrição são computadorizados e digitalmente acessíveis em sigilosa rede intra-hospitalar de dados.

Acessar, ler, interpretar esses dados, inquirir ainda o plantonista para potenciais dúvidas, compilar informações técnicas, enfim. Tudo numa tela de computador e num fone de celular!

Intrépida missão: transformar tantas informações em palavras compreensíveis! Transferir às nossas notícias nos boletins médicos o alento, a conformação, a proximidade, o estímulo, a fé, e a esperança necessárias para as famílias.

Preocupação comum e a de como a notícia irá afetar a família, sendo esta uma justificativa para o fato de, muitas vezes, intuitivamente querer-se "dourá-la". Ou até mesmo transformá-la numa sucessão de hermetismos médicos que pouco falam do que os familiares querem tanto ouvir.

“A vida de uma pessoa doente pode ser diminuída não apenas pelos atos, mas também pelas palavras ou maneiras do médico. Isto e, portanto, uma obrigação sagrada: a de guarda-lo cuidadosamente a este respeito e evitar todas as coisas que tenham a tendencia de desencorajar o paciente e deprimir seu espirito" (Vandekief, GK. Breaking Bad News. American Family Physician 2001)”.

Quantas vezes o boletim foi interrompido por um choro convulso! Às vezes um silêncio aterrador expressando a mais profunda descrença, decepção e pessimismo

Depois de tantos anos praticando e ensinando medicina presencial, em que dores e horrores, boas e más notícias se compartilham olho a olho, tive de me adaptar a essa modalidade de comunicação sem rosto.

O ato médico quase anônimo. Sem possibilidade de abraço ou aperto de mão. De fato, a forma com que a notícia e apresentada pode afetar sua compreensão, o ajustamento a mesma, além da satisfação com o profissional e a unidade de saúde.

Aprendemos que familiares buscam atitude positiva do médico, competência, eloquência, clareza e tempo para perguntas. Os próprios medos do médico relacionados ao receio de causar insatisfação, de sentir incômodo no momento de comunicar a notícia, de ser culpado pelos familiares, do desconhecido, de dizer “não sei”, de expressar emoções e, por fim, da sua própria morte.

A nova forma de desafio à empatia: boletim médico telefônico. A voz como único recurso terapêutico. O cuidado com o tom, a atenção aos intervalos após as apresentações, o silêncio necessário pra enxergar quem nos escuta do outro lado.

Habilidades novas de comunicação haveriam de ser aprendidas. A capacidade de síntese e complexa inteligibilidade de dados médicos. "Boa tarde, Dona fulana, sou o médico comunicador do hospital, estou ligando para dar informações do seu familiar internado na UTI".

Nesse pequeno intervalo, entre a apresentação e o informe, muita angústia. Sempre me veio que, do outro lado, alguém temia assustadoramente uma informação, o prenúncio de tragédia familiar: a notícia de morte!

Às vezes um silêncio aterrador expressando a mais profunda descrença, decepção e pessimismo. Em tantas outras ligações fui alvo de toda a raiva e não conformação da família com a condição clínica do paciente e a realidade do sistema de saúde

Mesmo estando pactuado que o óbito não era nossa alçada. Mas se pondo no lugar do familiar, em afazeres diários, se o telefone tocasse e me fosse feita essa introdução, não conseguiria imaginar outro motivo, senão a notícia da morte.

Cuidava então de abreviar o tempo entre a apresentação e o boletim, passando de imediato à frase introdutória que, ao meu ver, tudo expurgava: "seu familiar encontra-se estável".

Descrevia as vitórias que enxergamos em números e parâmetros com o compreensível necessário: "Estão bem melhores... Melhoraram muito...Não pioraram...".

Para os insucessos e agravos que muitas vezes sobrevinham, sempre a perspectiva de ampla análise otimista, racionalização dos próximos passos, do muito ainda a fazer.

Do outro lado das chamadas, esposas, filhos, netos, cunhados, sobrinhos, toda sorte de gente com medo. Gente em extremos de angústia! Distanciados, isolados, fadigados com o não poder visitar, não poder acalentar, tocar a mão, o rosto do ente querido. Sequer poder vê-lo ou ouvi-lo.

Não existe preparação ou publicação sobre a técnica ideal para comunicarmos às famílias notícias sobre pacientes graves utilizando os atuais complexos recursos de tecnologia de informação para dados clínicos e chamadas telefônicas. Sem ver o paciente, sem ver a família para expressar a comunicação com empatia, otimismo e compreensão

Tantos perguntavam se poderiam ainda ter esperanças! Muitos transformavam a ligação em oração coletiva, pedidos de melhora, "se Deus quiser vai sair"! Quantas vezes o boletim foi interrompido por um choro convulso!

Às vezes um silêncio aterrador expressando a mais profunda descrença, decepção e pessimismo. Em tantas outras ligações fui alvo de toda a raiva e não conformação da família com a condição clínica do paciente e a realidade do sistema de saúde.

O novo elo de comunicação transformado em mero instrumento catártico, desconcertante, frustrante e doloroso.

A comunicação médica tem sido elemento de interesse pessoal desde que ingressei na vida acadêmica. Nunca consegui deixar de enxergá-la como uma das tarefas mais difíceis de se executar, ensinar e até mesmo descrever.

Não existe preparação ou publicação sobre a técnica ideal para comunicarmos às famílias notícias sobre pacientes graves utilizando os atuais complexos recursos de tecnologia de informação para dados clínicos e chamadas telefônicas.

Sem ver o paciente, sem ver a família para expressar a comunicação com empatia, otimismo e compreensão.

Três por Quatro

Leonardo Bezerra é formado há 25 anos pela Universidade Federal do Ceará (UFC). É cirurgião ginecologista, laparoscopia e cirurgia robótica. Professor adjunto de Ginecologia da UFC e coordenador da residência médica de endoscopia ginecológica da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (UFC)

Especial médicos na pandemia Covid-19. Cenas do dia a dia de profissionais da saúde em um hospital de Fortaleza. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará.Brasil. Foto: Nilfacio Prado
Foto: Nilfacio Prado
Especial médicos na pandemia Covid-19. Cenas do dia a dia de profissionais da saúde em um hospital de Fortaleza. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará.Brasil. Foto: Nilfacio Prado

#Narrativa 5

Dias de pandemia

Por Ramon Rawache, cirurgião geral

Despertador tocou, mais um dia a se vencer e mais um dia vencido. A sequência de dias tem sido uma tormenta. O volume de trabalho tem sido intenso e a exigência da emoção, ainda maior.

No hospital, os chamados não param: a quantidade de pessoas internadas e padecendo por apenas uma doença espanta! As inúmeras unidades de terapias intensivas que antes estavam lotadas com paciente com várias doenças hoje se dão conta de uma monotonia assustadora: Covid-19.

FORTALEZA, CE, BRASIL, 23-6-2020: Ramon Rawache, cirurgião geral. Médicos e médicas Coletivo Rebento. (Foto: Aurelio Alves/O POVO)
Foto: Aurelio Alves/ O POVO
FORTALEZA, CE, BRASIL, 23-6-2020: Ramon Rawache, cirurgião geral. Médicos e médicas Coletivo Rebento. (Foto: Aurelio Alves/O POVO)

A demanda é intensa: acessos centrais, catéteres para pressão arterial invasiva, traqueostomia. Pacientes são jovens, idosos, negros, mulheres, todos singulares em sua fragilidade. A rotina dos profissionais está toda alterada.

Múltiplos equipamentos de segurança. A humanidade dos sorrisos foi perdida nas máscaras, nos protetores faciais e óculos. A expressões corporais são engessadas em aventais impermeáveis. Mal se pode sentar, mal se pode descansar, mal se pode respirar.

As mãos ressecadas, quase feridas de tanto lavar. A face marcada e já ferida dói. As pernas latejam do acumulado do dia. O coração já anda miúdo da distância dos amores. A promessa tão alardeada que tudo vai passar é mais que uma esperança; é uma necessidade. O desejo é que a humanidade saia melhor, solidária e coletiva.

O retorno para casa é um alento, que o descanso daquele dia chegou, que temos um dia de tragédia a menos e que amanhã teremos mais um dia a vencer.

Três por Quatro

Ramon Rawache, 34, cirurgião digestivo, é formado há 8 anos e meio. É professor da faculdade de medicina da Unichristus

Especial médicos na pandemia Covid-19. Cena do dia a dia durante o caos sanitário causado pelo novo coronavírus. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará-Brasil. Foto: Nilfacio Prado
Foto: Nilfacio Prado
Especial médicos na pandemia Covid-19. Cena do dia a dia durante o caos sanitário causado pelo novo coronavírus. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará-Brasil. Foto: Nilfacio Prado

#Narrativa 6

Para tentar evitar sofrimento ainda maior

Sami de Andrade Cordeiro Gadelha, patologista

Nesse período de pandemia, considerando que o Serviço de Verificação de Óbito (SVO) não tem a infraestrutura e os equipamentos necessários para a realização das necropsias de pacientes com suspeita clínica de Covid-19, e para evitar o deslocamento de familiares e de funcionários das funerárias e a aglomeração dessas pessoas na nossa sede, passamos a realizar nosso serviço nos deslocando para a casa de pessoas que faleceram em seus domicílios.

Especial médicos na pandemia. Sami Gadelha, patologista. Plantonista do Serviço de Verificação de Óbitos (SVO). Acervo pessoal. 25/6/20120
Foto: Acervo Pessoal
Especial médicos na pandemia. Sami Gadelha, patologista. Plantonista do Serviço de Verificação de Óbitos (SVO). Acervo pessoal. 25/6/20120

Lá, conversamos com as famílias e, com base nos sintomas relatados, construímos nossas suspeitas e informamos à família a possível causa da morte. Se houver suspeita de Covid-19, colhemos o material para o exame e orientamos sobre os cuidados que a família deve tomar para se proteger do contágio e obter o resultado do teste.

O que percebo como mais angustiante para as famílias das vítimas é que, a partir do momento em que se levanta essa hipótese de Covid-19, um dos cuidados necessários para a proteção dos próprios familiares é a realização do enterro diretamente, sem possibilidade de velório.

A notícia e a consequente quebra do ritual de despedida geram uma indignação tão impactante que, por vezes, se exterioriza como hostilidade a quem traz esse julgamento, nós, profissionais de saúde.

Talvez mais ainda naqueles casos em que isso ocorre de modo mais rápido, em poucos dias, em que a família mal tem tempo de lidar com a possibilidade de estar com um membro seu infectado, quanto mais de ele ter falecido.

Justamente por estar ciente de que tudo o que estou testemunhando, no momento em que comunico a suspeita de Covid-19, são manifestações do desamparo das famílias, me posiciono da maneira mais assertiva possível, explicando o que aconteceu quantas vezes forem necessárias e que todas as medidas são para tentar evitar que aquela família sofra ainda mais tragédias por conta dessa doença.

Acredito, sobretudo, que entender o que aconteceu é o primeiro passo para que essas famílias superem essa dor e sigam em frente, e sinto-me lisonjeado de estar oferecendo ajuda nessa iniciativa.

Três por Quatro

Sami Gadelha, patologista, é formado há nove anos. Atualmente é plantonista do Serviço de Verificação de Óbito Dr. Rocha Furtado (SVO). Também trabalha em um laboratório privado de patologia cirúrgica

Especial médicos na pandemia. Ensaio sobre o dia a dia de profissionais da saúde durante a pandemia da Covid-19, em Fortaleza. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará.Brasil. Foto: Nilfacio Prado
Foto: Nilfacio Prado
Especial médicos na pandemia. Ensaio sobre o dia a dia de profissionais da saúde durante a pandemia da Covid-19, em Fortaleza. 28/6/2020. Fortaleza-Ceará.Brasil. Foto: Nilfacio Prado

#Narrativa 7

Caleidoscópio de sensações 

Por Nilfacio Prado, anestesista

A condição humana do profissional de saúde, sobretudo neste momento, foi e está sendo testada ao máximo. Cada um sente a angústia do conflito interno entre o instinto de autopreservação e o sentimento de dignidade de honrar a palavra empenhada no juramento.

Nilfácio Prado, médico
Foto: Acervo Pessoal
Nilfácio Prado, médico

Como médico, cumpro o que jurei há mais de uma década. Mediante o desconhecido, continuo empregando princípios milenares: primum non nocere (primeiro não prejudicar). Dei a mão a colegas caídos, amparei pacientes temerosos da condição de fragilidade e tento orientar meu semelhante não só com medicamentos ou técnicas apuradas. Também com palavras, gestos e esforços presenciais e a distância.

Como pessoa, preservo aqueles que são a real marca da minha humanidade. Meu pai, homem idoso, simples do Sertão e que me deu a base sólida para enfrentar as intempéries da vida, permanece em casa sob suporte dos filhos. Minha esposa asmática, mesmo apreensiva, está ao meu lado com amor e compreensão. Por eles, também, não posso cair.

Sob influência desse caleidoscópio de sensações, tento somar com a minha diferença e coleto imagens do fronte desse momento tão singular e único. Como médico e como pessoa, sigo com meus semelhantes a frente sob a luz da esperança de dias de melhores.

Três por Quatro

Nilfacio Prado Bezerra, 38 anos, é médico formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC)
e anestesista formado pelo Instituto Dr. José Frota (IJF.) Trabalho também na Maternidade Escola Assis Chateaubriand
e outros hospitais. É fotografo por entusiasmo


 

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