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Reportagem Especial

Colômbia: eleição de Petro fortalece a esquerda na América Latina

Esquerda consolida maioria na região duas décadas após a "onda rosa" e pode ampliar em caso de vitória de Lula no Brasil. Novas lideranças progressistas do continente aproveitam descontentamento econômico agravado com a pandemia e olham para o futuro com uma forte agenda ambiental

Colômbia: eleição de Petro fortalece a esquerda na América Latina

Esquerda consolida maioria na região duas décadas após a "onda rosa" e pode ampliar em caso de vitória de Lula no Brasil. Novas lideranças progressistas do continente aproveitam descontentamento econômico agravado com a pandemia e olham para o futuro com uma forte agenda ambiental
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A vitória de Gustavo Petro na Colômbia, que pode se somar a de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil em outubro, consolida a volta da esquerda ao poder na América Latina, em meio ao descontentamento social com o 'establishment' e à crise econômica agravada pela pandemia.

Petro, primeiro presidente colombiano de esquerda, foi eleito com a promessa de fortalecer o Estado para melhorar a saúde e a educação, aumentar os impostos aos ricos além de priorizar as energias limpas.

Antes da Colômbia, a esquerda moderada retornou ao poder na Argentina, Bolívia, Chile, Peru e México, distante da ala mais radical seguida por países como Cuba, Nicarágua e Venezuela. O Brasil se somará a essa onda se o ex-presidente Lula vencer a extrema direita de Jair Bolsonaro, como preveem as pesquisas.

A eleição de Petro "é um reflexo da frustração do povo com a classe política tradicional e a preocupação do povo de que a democracia não está respondendo às necessidades e desejos mais básicos do povo", comenta Jason Marczak, do Centro Adrienne Arsht para a América Latina, nos Estados Unidos.

"Esta preocupação foi ampliada pela pandemia e pelas consequências da Guerra na Ucrânia, com o aumento dos preços dos alimentos, dos combustíveis e a inflação", completa Marczak.

Um mural com imagens do candidato presidencial colombiano Gustavo Petro (E) e da candidata a vice-presidente Francia Marquez, é visto em Cali(Foto: RAUL ARBOLEDA / AFP)
Foto: RAUL ARBOLEDA / AFP Um mural com imagens do candidato presidencial colombiano Gustavo Petro (E) e da candidata a vice-presidente Francia Marquez, é visto em Cali

Para Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a região passa por um período de rejeição ao "establishment" que favorece aos "outsiders", sejam de direita ou de esquerda.

Os desafios econômicos encorajam "o discurso de um Estado mais presente para combater a desigualdade e nisso a esquerda tem vantagem".

Por isso "numa eleição tão apertada, muitas vezes" a esquerda "acaba prevalecendo. Como ocorreu no Peru e no Chile", acrescenta Stuenkel.

 

 

Petro e Boric, uma "esquerda diferente"

Ainda que o fenômeno ecoe a "onda rosa" que coloriu o mapa regional há duas décadas, analistas apontam diferenças.

"É uma esquerda diferente daquela que se instalou na América Latina a partir da vitória de Hugo Chávez em 1998 na Venezuela, Lula (2002), Ricardo Lagos (1999) e Michelle Bachelet (2006) no Chile e os Kirchner (2003) na Argentina", afirma Rodrigo Espinoza, analista político da Universidade Diego Portales do Chile.

A atual "olha mais para o futuro, não somente para a superação da pandemia e da crise, mas também com uma agenda ambiental importante", acrescenta Espinoza, que vê pontos em comum sobretudo entre Boric e Petro.

Nesta foto tirada em 10 de junho de 2022, o Presidente do Chile, Gabriel Boric, fala durante a sessão plenária da 9ª Cúpula das Américas em Los Angeles, Califórnia.(Foto: PATRICK T. FALLON / AFP)
Foto: PATRICK T. FALLON / AFP Nesta foto tirada em 10 de junho de 2022, o Presidente do Chile, Gabriel Boric, fala durante a sessão plenária da 9ª Cúpula das Américas em Los Angeles, Califórnia.

Lula, cuja campanha se centra em exaltar os programas sociais que o ajudaram a tirar cerca de 30 milhões de brasileiros da pobreza, também prioriza a defesa da Amazônia e dos povos indígenas em seus discursos, ao contrário de Bolsonaro e sua criticada política ambiental.

Os direitos das mulheres, da comunidade LGBTQIA+ e a igualdade racial também ganharam maior importância, mas não de maneira uniforme: Pedro Castillo, no Peru, e Daniel Ortega, na Nicarágua, mantém posturas conservadoras a este respeito.

"Há tantas diferenças que não é correto falar de uma só esquerda latino-americana e de um progressismo latino-americano", considera o internacionalista Juan Pablo Prado Lallande.

Isto se reflete também na relação com países como Cuba, Nicarágua e Venezuela. "Para as esquerdas da região, a Venezuela sempre vai ser um peso a carregar e parte das campanhas tem sido basicamente o afastamento do governo de Nicolás Maduro", baseado em um modelo "autoritário", segundo Espinoza.

 

 

Desafios econômicos

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assiste ao lançamento das diretrizes de seu programa de governo(Foto: NELSON ALMEIDA / AFP)
Foto: NELSON ALMEIDA / AFP O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assiste ao lançamento das diretrizes de seu programa de governo

Após a vitória de Petro, vários líderes previram uma nova era de integração latino-americana. "Ficaremos muito contentes! (quando Lula vencer)", celebrou o mexicano Andrés Manuel López Obrador.

Uma vitória de Lula permitiria restituir "o diálogo regional, que hoje não existe", indica Stuenkel, que cita como exemplo a fria relação entre Bolsonaro e o argentino Alberto Fernández. O analista prevê, no entanto, importantes desafios devido a uma conjuntura macroeconômica menos favorável que nos anos 2000.

Bolsonaro coleciona histórico de rusgas e distanciamento com o presidente da Argentina Alberto Fernández(Foto:  Alan Santos/Presidência da República)
Foto: Alan Santos/Presidência da República Bolsonaro coleciona histórico de rusgas e distanciamento com o presidente da Argentina Alberto Fernández

"Os anos 2000 foram uma época altamente benéfica para quem estava no governo. Era muito fácil se reeleger, em função dos preços altos das 'commodities', que geravam a oportunidade de aumentar o gasto público e obter altas taxas de aprovação", aponta Stuenkel.

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) projeta um crescimento de 1,8% para América Latina e o Caribe em 2022, apesar de um aumento da pobreza (de 29,8% em 2018 a 33,7% em 2022) e da pobreza extrema (10,4% em 2018 a 14,9% em 2022), especialmente no México, Colômbia, Brasil e Paraguai.

 

 

'A cortina se levanta': a relação Colômbia-Venezuela após o triunfo de Petro

A esquerda chega ao poder na Colômbia pela primeira vez e o presidente eleito Gustavo Petro afirmou que restabelecerá as relações com a Venezuela de Nicolás Maduro após três anos de ruptura e graves acusações trocadas entre Caracas e Bogotá. O que resultará da iminente reativação das relações bilaterais após a vitória eleitoral de Petro no domingo sobre Rodolfo Hernández?

Petro, que assume a presidência em 7 de agosto, desperta temores entre muitos venezuelanos que o associam ao chavismo, embora o ex-guerrilheiro tenha mantido distância com o governo de Maduro durante a campanha eleitoral, chegando a classificá-lo como "ditadura".

Nicolas Maduro durante uma reunião por videoconferência com o presidente do Azerbaijão Ilham Aliyev (não retratado) em Baku, Azerbaijão, em 17 de junho de 2022 (Foto: Presidência venezuelana)
Foto: Presidência venezuelana Nicolas Maduro durante uma reunião por videoconferência com o presidente do Azerbaijão Ilham Aliyev (não retratado) em Baku, Azerbaijão, em 17 de junho de 2022

A Venezuela, que acusou frequentemente o atual presidente da Colômbia, Iván Duque, de planos de golpe de Estado e até de assassinato contra Maduro, felicitou em um comunicado a vitória do líder de esquerda e expressou "a mais firme vontade de trabalhar na construção de uma renovada etapa de relações integrais".

"Novos tempos estão no horizonte", comemorou Maduro no Twitter. "Muda radicalmente a relação com a Venezuela com o simples fato de que a oligarquia deixa de governar" na Colômbia, disse Diosdado Cabello, número dois do chavismo, em entrevista coletiva na segunda-feira.

Caracas rompeu relações com Bogotá em 2019 depois que Duque reconheceu como presidente encarregado da Venezuela o líder opositor Juan Guaidó, que agora está em um limbo. Foi o pior momento entre esses países vizinhos, que compartilham uma fronteira porosa de mais de 2.200 quilômetros e tiveram altos e baixos, especialmente nos últimos 20 anos com a entrada em cena de Hugo Chávez e Álvaro Uribe.

Não há consulados ou voos diretos e a fronteira permaneceu fechada entre 2019 e outubro de 2021, o que colapsou o comércio bilateral.

"As relações diplomáticas não podem depender ou se concentrar no simples clientelismo ideológico", afirma o historiador Ángel Lombardi, professor da Universidade de Zulia, região fronteiriça com a Colômbia. "Se prevalecer o bom senso, eles terão uma relação baseada no pragmatismo e no interesse comum."

 

 

Migração, assunto-chave

Migração, segurança fronteiriça e comércio são pontos destacados na agenda. O tema migratório é crucial, quando milhares de pessoas cruzam diariamente a linha limítrofe.

A Colômbia acolhe dois milhões dos seis milhões de venezuelanos que migraram devido à crise de seu país, que Duque regularizou para que possam trabalhar e acessar os serviços públicos. "A população migrante, hoje principalmente venezuelana, receberá um tratamento digno e respeitoso nos direitos humanos", prometeu Petro em seu plano de governo.

A normalização das relações, por outro lado, impulsionaria o intercâmbio comercial, que estava próximo de US$ 7,2 bilhões em 2008, mas entrou em colapso com o fechamento parcial da fronteira em 2015 e total em 2019. A Câmara Colombo-Venezuelana administra projeções de US$ 800 milhões a US$ 1,2 bilhão em 2022, depois que no ano passado o valor era de cerca de US$ 400 milhões.

"Uma nova cortina se levanta", projeta Wladimir Tovar, líder da associação patronal venezuelana Fedecamaras, no estado fronteiriço de Táchira. "Com a Colômbia sempre houve uma relação próxima", acrescentou.

No entanto, a região é palco de confrontos entre grupos armados e forças públicas, em meio a denúncias de Bogotá de que Maduro abriga dissidentes das Farc, guerrilheiros do ELN e narcotraficantes. O presidente socialista nega e acusa Duque de enviar paramilitares para desestabilizar a Venezuela.

 

 

Virada política

Duque liderou nos últimos anos na região a pressão diplomática para retirar Maduro do poder, causa que vem perdendo adeptos. O resultado eleitoral de domingo se une ao retorno da esquerda à Argentina e possivelmente ao Brasil nos próximos meses.

A situação deixa Guaidó em má posição, cada vez mais enfraquecido, embora mantenha o apoio de Washington. A Colômbia foi um dos principais destinos de aliados de Guaidó que se exilaram por processos criminais ou investigações na Venezuela, como seu antigo "ministro das Relações Exteriores", Julio Borges.

O ex-presidente da Assembleia Nacional da Venezuela e líder da oposição Juan Guaidó fala à imprensa em Caracas, em 14 de junho de 2022(Foto: FEDERICO PARRA / AFP)
Foto: FEDERICO PARRA / AFP O ex-presidente da Assembleia Nacional da Venezuela e líder da oposição Juan Guaidó fala à imprensa em Caracas, em 14 de junho de 2022

No entanto, Jesús Esparza Bracho, professor de Direito da Universidade Rafael Urdaneta de Maracaibo, diz que o fato de Maduro e Petro serem de esquerda não implica uma aliança automática.

"Maduro está mais alinhado com regimes menos democráticos e essa não é necessariamente a linha de Petro", comentou o especialista, que acha que o próximo governante colombiano pode ser um "catalisador" no processo de negociações políticas entre Maduro e a oposição, paralisada desde o último outubro.

"A instabilidade na Venezuela é uma ameaça para Petro, como a instabilidade colombiana foi para a Venezuela por muitos anos", acrescentou.

 

 

Como está a correlação esquerda e direita na América do Sul

 

 

 

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