
Resumo
• O bloco preza pela sua independência e gestão coletiva, financiando-se através da venda de camisas para manter os bailes gratuitos na rua, o que permite ao grupo total liberdade para escolher seus temas e manifestos.
• A artista Ercília Lima, que tem formação em corais e cultura de matriz africana, é uma das vozes e percussionistas centrais do projeto, participando de apresentações que possuem uma estrutura quase teatral e colaborativa.
• Para o grupo, a festa é um ato político e de resistência, promovendo a brasilidade real, apoiando outros artistas independentes locais e realizando ações solidárias, como a arrecadação de alimentos para instituições.
É sábado de Carnaval e a Cidade já está no auge da febre. Glitter no chão da sala, agenda aberta para o improviso. Mas antes que os dias oficiais explodam em confete, Fortaleza tradicionalmente recebe um ensaio geral que balança o chão das praças do Centro.
O Pra Quem Gosta É Bom é bloco de Pré-Carnaval que atrai multidões. Sai antes, acende o pavio e testa o fôlego da Cidade. Seu polo tradicional é a praça Waldemar Falcão, conhecida como Praça dos Correios, do ladinho da Praça dos Leões.
O local fica lotado de “gostantes”, pessoas de todas as idades, origens e estilos, dispostas a compartilhar de uma mesma energia que impulsiona a entrada de um novo ano.
Sim, porque as festividades de fim de ano acabam, mas a disposição do povo, não. O Pré é uma prévia, a preparação para os dias de folia nas ruas. Se o Sol está de rachar, é dia lindo de bloco. Se cai um toró, é chuva que refresca. Não tem tempo ruim para quem entende que festa é o ano inteiro.
No Pra Quem Gosta, o chão da praça vira um canal que concentra as vibrações do público e a boca da plateia é uma só — que canta, em sinergia com a vida: “Belo é o Recife pegando fogo, na pisada do macaratu”. Um “hit” de um dos primeiros artistas pop que virou clássico: Luiz Gonzaga. E quem não canta, se arrepia.
Do alto do palco, quando Ercília Lima puxa “Eu não sei se vem de Deus, do céu ficar azul”, a praça responde em coro.
A cantora e percussionista se divide entre alfaias, efeitos e vocais, mas o que conduz mesmo é essa sintonia fina com o o bloco que anima o Pré de Fortaleza. Gente de todo jeito, espremida entre estandartes e ambulantes, formando um organismo só.
O PQGÉB nasceu em 2017 e cresceu sem abandonar o princípio da independência. “Nosso bloco não pede licença a gringo, nem bênção a patrão”, crava o manifesto de 2026.
Na prática, isso significa vender camisa para pagar estrutura, organizar ensaio depois do expediente, decidir repertório em roda, manter o baile gratuito e na rua. Persistir na alegria, apesar de tantos motivos para lamentar, é um ato político.
Neste ano em que o Brasil descobriu-se “protagonista” no mundo, a brasilidade virou estandarte ainda mais alto. Não a versão plastificada do patriotismo fácil, mas a que nasce da feira, do batuque, do improviso.
O bloco convidou O Cheiro do Queijo, projeto de circo e rap de Maracanaú, reforçou o coro para doações ao SerPonte e fez da apresentação um espetáculo dividido em atos, quase teatral. Tudo pensado coletivamente por 17 músicos no palco e uma equipe que trabalha antes, durante e depois da festa.
A praça lotada amedronta e encanta. Crescer exige cálculo, diálogo com ambulantes, atenção ao espaço. Mas também confirma que a Cidade quer rua e que a rua quer destino. O Pré-Carnaval é onde a vida testa volume antes de atingir o máximo.
No sábado oficial da folia, quando Fortaleza já estiver inteira entregue ao delírio, vale lembrar: houve um momento em que o chão começou a tremer. E, no centro desse tremor, estava Ercília.

O POVO+ — Ercília, você se apresenta como cantora, percussionista e brincante de cultura popular. A música é um elo entre esses três. Como ela entrou na sua vida e te fez passear por esses lugares?
Ercília Lima — Eu comecei na música cantando no coral da Escola Técnica, atual IFCE. Passei alguns anos cantando em corais pela Cidade até que conheci a Caravana Cultural, minha escola de percussão, onde comecei a tocar tambor e a estudar sobre a cultura popular e de matriz africana.
Foi lá também onde comecei a cantar individualmente, assumindo o vocal do grupo de batuqueiros.
E daí, então, me tornei o que chamo de brincante, né? Que é essa pessoa que ama participar das manifestações da nossa cultura tradicional: dançar coco, brincar boi, tocar maracatu e por aí vai.
Sempre que posso, procuro vivenciar de algum modo nossa cultura, estar perto dos mestres, prestigiar o trabalho dos grupos e se possível, claro, brincar junto. E levo toda essa vivência para meu trabalho enquanto cantora e percussionista.
OP+ — Hoje você é uma das vozes à frente do Bloco Pra Quem Gosta É Bom, um dos expoentes do Pré-Carnaval de Fortaleza. Antes disso, você passou por outros grupos? Como era essa época de festa para você enquanto foliã antes de subir aos palcos?
Ercília — Nossa, eu me sinto muito feliz por estar participando do bloco. É muito gratificante. Mas, sim, já passei por vários grupos…
Tem o Afoxé Acabaca, do qual faço parte ainda hoje; teve o Samba Delas, que eram rodas de samba só com mulheres, organizadas pela nossa saudosa Michele Militão; os grupos formados com amigos da música, como os Mandingueiros e o Cocos do Norte; e tem também meu trabalho solo, com shows que apresento pela Cidade ao longo do ano, e no ciclo carnavalesco também.
Enquanto foliã, eu amo Carnaval! Adoro curtir um bloquinho, me encher de glitter, dançar…
Viajei alguns anos para brincar o Carnaval em Olinda. Mas ultimamente tem sido um dos períodos em que mais trabalho, em especial no Pré-Carnaval. E que bom! Que continue assim!
OP+ — No PQGÉB, você entoa canções de figuras como Gal Costa, Preta Gil e Iza. O que sente quando interpreta letras consagradas por essas artistas para uma praça lotada?
Ercília — Cantar músicas que foram consagradas por grandes artistas é muito forte. Ao mesmo tempo que é, de certa forma, um desafio. Porque a galera já conhece essas músicas na voz delas.
Você se sente inspirada e fortalecida por estar fazendo referência a essas grandes artistas e mulheres incríveis da nossa música brasileira. Elas acabam sendo referências mesmo. É especial!
OP+ — O Pré-Carnaval exige resistência física, presença e entrega. Como você se prepara para sustentar essa energia do início ao fim do cortejo?
Ercília — Olha, eu tento, em especial no período das apresentações. Eu fico muito focada, diminuo os compromissos extras, procuro descansar, ter boas noites de sono, me alimentar bem e reforçar a imunidade para tentar manter a saúde e a energia que o Pré-Carnaval exige.
OP+ — O show do Pra Quem Gosta tem atos bem definidos, quase como uma peça teatral. Como esse formato foi pensado e qual é o papel da sua performance dentro dessa estrutura?
Ercília — A apresentação do bloco é uma construção coletiva. Todos são importantes e colaboram para esse “espetáculo” final.
Os temas, figurinos, as músicas que vão compor o repertório, tudo é discutido e decidido juntos. Algumas pessoas assumem funções mais específicas, de acordo com suas habilidades.
Como a Julyta, que geralmente escreve o manifesto do bloco; Débora e Romano, que contribuem bastante na produção; e Rodolfo na elaboração do áudio que dá início aos nossos bailes.
Costumo participar na sugestão de músicas, ideias para temas, arranjos e na hora da apresentação em si, me dividindo principalmente entre as alfaias, efeitos e vocais.
OP+ — O Pra Quem Gosta É Bom se define como um bloco independente e o manifesto de 2026 reafirmou isso: “nosso bloco não pede licença a gringo, nem bênção a patrão”. Na prática, o que essa independência garante e o que ela dificulta?
Ercília — Na minha visão, essa independência garante justamente a liberdade de escolhermos os nossos temas e defendermos nossas ideias.
Porém, isso custa muito trabalho do coletivo para garantir os meios necessários para realização dos nossos bailes como são: gratuitos e na rua.
OP+ — Nas músicas, nos estandartes e na energia, o PQGÉB transmite o orgulho da brasilidade. Por que reforçar essa ideia ou esse sentimento?
Ercília — “Deus me livre de não ser brasileira” (risos). Acho que reforçar esse sentimento de brasilidade vai num sentido contrário a esse patriotismo esvaziado que alguns defendem.
É reafirmar nossas raízes, nossa cultura, nosso jeitinho de ser brasileiro. É o que nos dá esse tempero, essa resistência e essa habilidade de festejar ainda que a vida não esteja assim tão boa.
OP+ — Como tem sido lidar com o crescimento do público e com os limites físicos do espaço?
Ercília — Esse é um ponto de atenção do bloco. Ao organizar a festa, se tenta deixar o espaço mais livre e confortável possível. Uma das ações tomadas para isso, por exemplo, foi dialogar com os ambulantes para ficarem ao redor da praça.
OP+ — O público do PQGÉB é diverso em idade, estilo e origem. Esse encontro acontece espontaneamente? Como vocês sentem o carinho desses “gostantes” no dia a dia?
Ercília — Olha, esse encontro é bem espontâneo. Eu vejo que todes são bem vindos, desde que saibam respeitar essa diversidade existente no bloco e a individualidade de cada pessoa.
E acredito que esse acolhimento faz com que o público se torne ainda mais próximo ao bloco.
No dia a dia, é muito interessante esse carinho, que chega muitas vezes de forma inesperada: num sorriso, numa abordagem aleatória para dizer que gostou da apresentação, fazer um elogio ou perguntar quando vamos tocar novamente...
Dá um quentinho no coração saber que, de algum modo, tocamos as pessoas positivamente.
OP+ — Quantas pessoas fazem o Pra Quem Gosta É Bom hoje e como se divide a organização entre ensaios, produção e apresentações?
Ercília — Nós estamos hoje em 17 pessoas tocando no palco: Romano, Rodolfo, Eduardo Augusto, Eduardo Vale, Abna, Daniel, Julyta, Erlon, Romário, Eustaquio, Teresa, Italo, Lia, Debora, Raquel, Laizy e eu.
Tem também a DJ Julyana, que sempre nos acompanha, e mais uma equipe de produção que fica responsável desde o preparo do show, como ensaios e montagem da estrutura, até a execução em si.
OP+ — Neste ano, vocês convidaram os gostantes para fazer a doação de alimentos para o projeto Ser Ponte. Por que é importante vincular festa e ação solidária?
Ercília — O bloco vem fazendo essas ações de arrecadação de alimentos há alguns anos, com diferentes instituições sendo beneficiadas, e eu acho isso extremamente importante.
Eu entendo a festa, o Carnaval, também como uma ação política, no sentido de resistência e enfrentamento a tantas dificuldades que a gente vivencia enquanto sociedade.
E por que não aliar esse momento de alegria e divertimento a uma ação solidária? Acho uma excelente forma de usar nosso poder de mobilização.
OP+ — Na última apresentação de 2026, o bloco convidou O Cheiro do Queijo, projeto de circo e rap de Maracanaú. Apoiar iniciativas independentes de outras linguagens também faz parte do sentido do bloco?
Ercília — Sim, faz muito sentido. Somos um bloco independente, então nada melhor que apoiar outras iniciativas independentes, assim como nós. Esse já é o segundo ano em que convidamos O Cheiro do Queijo para nossa apresentação.
Mas já tivemos também a presença de outros artistas de Fortaleza, como Di Ferreira e Daniel Medina. Outra maneira de estreitarmos essa relação é incluindo músicas de compositores e grupos da Cidade em nosso repertório.
OP+ — Depois da jornada de Pré-Carnaval, para onde vai a energia de vocês? O grupo se mantém junto no Carnaval também? O que essa época representa para vocês?
Ercília — Nós somos um bloco de Pré-Carnaval, então estamos muito juntos e focados em nossos bailes nesse período. Mas no Carnaval, cada um segue para curtir e se divertir à sua maneira.
Os encontros, quando ocorrem, é no meio de outros blocos, como os bons foliões que também somos.