Reportagem Seriada

Bolsonaro consolida pior patamar econômico de alimentos e renda do Brasil desde 1994

A gestão federal conseguiu elevar o valor da cesta básica do fortalezense em 39%, ao mesmo tempo que acabou reduzindo em 21% o número de cestas que se pode comprar com o salário mínimo
Episódio 2

Bolsonaro consolida pior patamar econômico de alimentos e renda do Brasil desde 1994

A gestão federal conseguiu elevar o valor da cesta básica do fortalezense em 39%, ao mesmo tempo que acabou reduzindo em 21% o número de cestas que se pode comprar com o salário mínimo Episódio 2
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É o valor da comida que faz a população notar que a economia vai mal ou bem. Quanto mais caros os produtos, pior a situação. Entre janeiro de 2020 e agosto de 2021, essa percepção chegou a todas as classes e apenou, especialmente, os mais carentes. Itens básicos tiveram os preços elevados em poucos meses e fizeram da alimentação uma tarefa desafiadora para o cearense.

Nos primeiros mil dias do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), três dos principais indicadores econômicos, são eles: valor da cesta básica, o salário ideal e as horas trabalhadas necessárias para adquirir produtos da cesta, atingiram os piores cenários quando comparamos os primeiros 1000 dias de cada ex-presidente, desde a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1994.

Enquanto FHC reduziu, em 1000 dias, 28% do tempo de trabalho necessário para se comprar uma cesta básica e Lula reduziu 33%, Bolsonaro incrementou em 26% esse indicador, fazendo com que o fortalezense, por exemplo, passasse de 89h04min para 112h34min para adquirir uma cesta básica completa (R$ 562,82).

Leia especial Bolsonaro 1.000 dias

 


O levantamento O POVO teve como base, os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) , e analisou os primeiros mil dias de governo de cada presidente, desde FHC, e como afetaram a vida do Fortalezense. Foi calculada a variação percentual, entre o início e os primeiros mil dias de cada governante, dos seguintes indicadores: número de cestas básicas que se pode comprar com um salário mínimo, quantidade de horas de trabalho necessárias para se comprar uma cesta básica e proporção entre o salário mínimo e ideal.

Para se ter uma ideia, a gestão Bolsonarista conseguiu elevar o valor da cesta básica do fortalezense em 39%, ao mesmo tempo que acabou reduzindo em 21% o número de cestas que se pode comprar com o salário mínimo. A distância entre o rendimento mínimo e o salário necessário (ou ideal) ficou ainda maior, 40% maior, em 1000 dias.

De FHC até agora, a série histórica das horas trabalhadas atesta apenas mais um caso de aumento da carga após mil dias e é exatamente no segundo mandato de Lula. Porém, esse acréscimo é de apenas 1,28%. No fim das contas, hoje, comer ficou mais caro nas duas pontas: tanto é preciso gastar mais quanto é preciso trabalhar mais.

Medida pelo Dieese, a cesta básica de Fortaleza saltou 39,32% neste período, saindo de R$ 403,99 (janeiro/2020) para R$ 562,82 (agosto/2021). É a maior elevação do conjunto de itens que compõem a alimentação no período de mil dias iniciais de um Governo Federal. Desde Fernando Henrique Cardoso (PSDB), quem chegou mais perto de uma carestia tão acentuada na cesta básica foi Luís Inácio Lula da Silva, no segundo mandato (34,55%).

 

 

 

 


Este episódio faz parte do especial "Bolsonaro 1.000 Dias", que traz reportagens especiais e conteúdos em diversas áreas. Para ler a reportagem de abertura dessa série, é só acessar este link. A programação do projeto, que abordará vários recortes dos dias com Bolsonaro, seguirá até 14 de outubro, antecipadas às terças e sextas no multistreaming O POVO Mais. No impresso, o conteúdo sairá às terças e quintas.



Os motivos estão na política econômica


Os porquês para um cenário tão drástico, de acordo com Reginaldo Aguiar, supervisor técnico do Dieese no Ceará, envolvem elementos locais, regionais e internacionais. Mas o papel do Governo Federal é crucial para que os alimentos tenham se tornado tão caros, segundo enfatiza.

Aguiar reconhece o peso do chamado boom das commodities, movimento mundial onde itens agrícolas tiveram os preços elevados devido à demanda internacional e com o qual o Brasil tem faturado, uma vez que é um dos maiores produtores de soja, milho e carne do planeta. Mas critica a falta de políticas que garantam a segurança alimentar, além do modo como é conduzido o setor.

“O agro tem um impacto muito pequeno para o PIB brasileiro. Os empregos são de qualificação baixa e remuneração menor. O setor agrícola não dá conta para o crescimento do Brasil”, afirma, apontando a necessidade de políticas e investimento público em setores de maior impacto para a economia nacional.

FORTALEZA, CE, BRASIL, 16-09-2018: O recorrente aumento do preço dos alimentos impactam bares e restaurantes da cidade. Na foto, movimentação e serviço de self-service no restaurante Divina Comida, no bairro Aldeota. (Foto: Fernanda Barros/ O POVO)(Foto: Fernanda Barros)
Foto: Fernanda Barros FORTALEZA, CE, BRASIL, 16-09-2018: O recorrente aumento do preço dos alimentos impactam bares e restaurantes da cidade. Na foto, movimentação e serviço de self-service no restaurante Divina Comida, no bairro Aldeota. (Foto: Fernanda Barros/ O POVO)

Para o supervisor técnico do Dieese no Ceará, o Brasil tem problemas para se encaixar na economia mundial. Ao mesmo tempo que se projeta como desenvolvido no exterior, tem na balança comercial uma pauta dominada por exportação de matérias-primas e itens semiprocessados.

A política “ultraliberal” do atual governo também é criticada por Aguiar e apontada como motivo da situação econômica que levou à escalada da inflação. Bandeira do ministro Paulo Guedes (Economia), a diminuição do papel do Estado em um momento de crise como agora, de acordo com Aguiar, atinge todas as camadas sociais.

Perguntado sobre o impacto da pandemia de Covid-19 neste contexto, ele é categórico ao afirmar que a doença serviu como catalizadora de um futuro já traçado. “A pandemia trouxe problemas, mas não foram localizados geograficamente. Poderia dizer que a pandemia trouxe problema para o Brasil se tivesse sido só aqui. Mas afetou vários países, mas como cada país reagiu à pandemia é que é a questão”, analisa, sugerindo que as medidas adotadas na política econômica não foram as mais adequadas para atenuar a crise deflagrada pela doença.

 



Desoneração do poder de compra


Somado a isso, Reginaldo Aguiar aponta a agenda reformista como motivo de desoneração do poder de compra. As reformas da previdência e trabalhista, especialmente, abalaram de forma substancial a classe média, que se viu saindo do emprego de carteira assinada e se convertendo em pessoa jurídica, trabalhando por temporadas ou autônomos. O impacto sobre a renda nesta camada e a diminuição do consumo por seus componentes resulta em outro movimento observado nos últimos anos no Brasil: a fuga das empresas e mais desemprego.

“Se há uma diminuição da renda das pessoas mais pobres, elas vão deixar de comprar sapato, comida, remédio e roupa... Se diminui a da classe média, elas deixam de compra carro, viajar pelo País, reformar a casa. Ou seja, essa camada gira mais a economia. Quando a classe média sofre um ataque como a da reforma trabalhista, pessoal começa a trabalhar como PJ, inflação segue galopante e as atividades que lucravam com eles perdem pessoas. Com a camada encolhendo, essas empresas vão vender para quem?”, explica.

Assim como o aumento dos alimentos, a perda de renda também pode ser observada nos estudos do Dieese, através dos quais voltamos a encontrar cenários drásticos ao comparar os primeiros mil dias de governo Bolsonaro com os demais presidentes.


As reformas da previdência e trabalhista, especialmente, abalaram de forma substancial a classe média, que se viu saindo do emprego de carteira assinada e se convertendo em pessoa jurídica, trabalhando por temporadas ou autônomos.(Foto: )
Foto: As reformas da previdência e trabalhista, especialmente, abalaram de forma substancial a classe média, que se viu saindo do emprego de carteira assinada e se convertendo em pessoa jurídica, trabalhando por temporadas ou autônomos.


Dispondo de apenas um salário-mínimo por mês, o fortalezense só é capaz de comprar 1,95 cesta básica. Para uma família de quatro pessoas (dois adultos e duas crianças), a média calculada pelo Dieese é de três cestas básicas. Nenhum outro governo atingiu essa marca desde 1994, mas 1,95 só se compara ao primeiro governo de FHC, quando a média era de 1,9 cesta básica por salário-mínimo.

Lula experimentou altos e baixos neste comparativo, tendo recebido uma média de 1,51 cesta básica por salário-mínimo de FHC no primeiro governo e ampliado para 2,27 cestas básicas já nos primeiros mil dias. No segundo mandato, os fortalezenses experimentaram uma leve redução desse poder de compra, quando a média saiu de 2,73 cestas básicas por salário-mínimo no início do governo e oscilou para 2,7 em mil dias.

Mas o que difere entre os mil dias iniciais de cada presidente desde 1994 e indica o estrangulamento da renda do habitante de Fortaleza é o salário necessário para o sustento de uma família de quatro pessoas (dois adultos e duas crianças) calculado mensalmente pelo Diesse. Todos os ex-presidentes que antecederam Bolsonaro desde 1994 conseguiram reduzir a diferença entre o salário-mínimo e o necessário.

FHC foi o de maior avanço no poder compra, quando conseguiu reduzir uma diferença de mais de dez vezes entre o ganho real e o necessário. Em 1995, quando assumiu, o salário-mínimo era de R$ 70, enquanto o necessário era estimado em R$ 723,82. Em mil dias, ele elevou o mínimo para R$ 120, ao mesmo tempo que o ideal avançou para R$ 776,42 – cerca de 6,47 vezes o mínimo.

Já Bolsonaro assumiu com um salário necessário estimado em três vezes o mínimo de R$ 998, em 2019. Mas, mil dias depois, mesmo com o salário-mínimo tendo avançado para R$ 1,1 mil, o necessário saltou para R$ 5.583,90 no mesmo período – uma diferença de 5,07 vezes o mínimo.



Neste comparativo é necessário observar outro elemento: o cálculo do salário-mínimo. Entre 2011 e 2019, nos governos de Dilma e Temer, a política de valorização era feita a partir de reajustes que tinham base na inflação medida no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) e a variação do PIB. O objetivo era garantir o ganho real ao cidadão e, por isso, nos anos em que o PIB encolheu, em 2017 e 2018, o reajuste aconteceu apenas com o INPC como referência.

Mas, em 2019, Bolsonaro delegou ao ministro Paulo Guedes a tarefa do reajuste apenas pela inflação, o que não garante ganhos reais aos brasileiros que recebem salário-mínimo. Guedes sacramentou a decisão afirmando que “o salário será definido a cada ano”, sem uma política que defina regras, a não ser a da Constituição Federal, pela qual o governo é obrigado a garantir a manutenção do poder de compra dos trabalhadores.

Tarefa que vem sendo difícil de ser cumprida com a escalada da inflação e a desoneração do salário.

 

 
 

Metodologia

Os dados utilizados para o especial "Bolsonaro 1000 dias" são oriundos de bases públicas do Governo Federal , ONGs, institutos de pesquisa, entre outros órgãos ou instituições. Todas as bases de dados utilizadas nesta reportagem e nos demais capítulos a serem publicados podem ser acessadas no perfil do DataDoc no GitHub. Esta é uma forma de garantir a transparência, reprodutibilidade e credibilidade dos métodos utilizados.

 

Expediente

  • Edição DataDoc Thays Lavor
  • Edição O POVO+ Fátima Sudário
  • Edição de arte Cristiane Frota e Isac Bernardo
  • Texto Armando de Oliveira Lima
  • Análise e visualização de dados Alexandre Cajazeira
  • Infografia Luciana Pimenta
  • Concepção e identidade visual Isac Bernardo
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Bolsonaro 1000 Dias

Bolsonaro 1.000 Dias é uma série de reportagens, feitas a partir da análise e cruzamento de dados, que descreve os cenários criados pelo bolsonarismo à frente do poder no Brasil.

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