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Silêncio que atordoa: a cartografia da Ditadura Militar pelo Ceará
Reportagem Seriada

Silêncio que atordoa: a cartografia da Ditadura Militar pelo Ceará

No dia 31 de março, o Brasil entrou na sua era mais obscura. O golpe militar instaurou a ditadura no País e iniciou uma sequência de violências ainda impunes. No Ceará, ruas e prédios expõem, silenciosamente, histórias de violência, dor e resistência. Nos 60 anos do golpe militar, é nosso dever revisitá-las para gritar ‘nunca mais’
Episódio 1

Silêncio que atordoa: a cartografia da Ditadura Militar pelo Ceará

No dia 31 de março, o Brasil entrou na sua era mais obscura. O golpe militar instaurou a ditadura no País e iniciou uma sequência de violências ainda impunes. No Ceará, ruas e prédios expõem, silenciosamente, histórias de violência, dor e resistência. Nos 60 anos do golpe militar, é nosso dever revisitá-las para gritar ‘nunca mais’ Episódio 1
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Para evitar o retorno dos terrores ditatoriais, é preciso lembrá-los. Infelizmente, parte da memória brasileira sobre a ditadura insiste em amenizar — ou melhor, ignorar e esquecer — as dores de uma população silenciada aos murros.

De acordo com o historiador Edmilson A. M. Junior, professor na Universidade Estadual do Ceará (Uece), houve por parte dos militares um projeto de “silenciamento dos próprios crimes”. “Eles apagaram, negaram a própria história, na tentativa de não ter punições. Não houve política de memória porque não houve política de transição”, explica.

Manifestantes carregam um jovem ferido nos protestos de 21 de junho de 1968, que ficaram conhecidos como "sexta-feira sangrenta".(Foto: Arquivo Nacional)
Foto: Arquivo Nacional Manifestantes carregam um jovem ferido nos protestos de 21 de junho de 1968, que ficaram conhecidos como "sexta-feira sangrenta".

Diferente da Argentina "O filme Argentina, 1985 retrata o primeiro julgamento no mundo por um tribunal civil contra comandantes militares, conhecido como Julgamento das Juntas Militares. O promotor Julio César Strassera e o adjunto Luis Gabriel Moreno Ocampo, ao lado de uma equipe de jovens, conseguiram condenar, entre outros, Jorge Rafael Videla, ditador argentino de 1976 e 1981 que chegou ao poder após o golpe militar, e Emilio Massera, comandante do centro de detenção clandestino da Marinha em Buenos Aires, à reclusão perpétua." , onde os ditadores foram julgados, condenados e presos, o Brasil seguiu uma política de conciliação, de “anistia para os dois lados”, comenta o professor. Esses fatores criaram uma “política de memória beneficiadora aos militares” e têm sido suficientes para relativizar os horrores da ditadura.

Por isso, não é estranho ver pelas ruas de Fortaleza escolas, prédios da Justiça Federal, bases militares e avenidas ostentando o nome do primeiro presidente da Ditadura Militar, Humberto Castello Branco, aparentemente com orgulho.

No fluxo do cotidiano, ignora-se que esses nomes são diretamente responsáveis pela prisão e tortura de centenas de brasileiros. “A consagração desses nomes diz respeito a negar a participação deles na miséria, na falta de acesso à educação, à saúde…”, diz Edmilson. “Mas a tortura era uma política de estado. Não eram casos isolados.”

 

 

Cartografia da Ditadura Militar no Ceará

 

 

Tortura, política de estado

O Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade identificou no Ceará dez centros de tortura, a maioria em Fortaleza. Milhares de fortalezenses passam por eles cotidianamente: o 23º Batalhão de Caçadores do Exército, a Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará, o 10º Grupo de Artilharia de Campanha… Em todos estes espaços, homens e mulheres foram torturados.

As técnicas mais usadas eram as dos paus de arara e dos choques. Os militares prendiam eletrodos às orelhas, mãos, pernas, testículos e outras regiões dos presos políticos e passavam horas em “interrogatórios”. Na Casa dos Horrores, localizada na zona rural de Maranguape, a tortura era ininterrupta. A cada torturado desmaiado e ensanguentado que saía da sala, outro entrava.

Em 2004, o jornalista Raimundo Madeira e o repórter fotográfico Evilázio Bezerra, do O POVO, identificaram a possível localização na zona rural de Maranguape com a ajuda de ex-presos políticos da Ditadura Militar. O processo de rastreamento e visita à casa foi registrado em reportagem publicada em 19 de junho de 2004.

Leia a reportagem especial sobre a Casa dos Horrores e as histórias de tortura física e psicológica vividas por presos políticos durante a Ditadura Militar em Fortaleza:

 

As ruas da Capital também testemunharam sequestros relâmpagos, com militares encapuzando vítimas da ditadura, invasão de casas e diversos protestos. Aliás, a própria cidade foi moldada pela repressão.

No artigo A cidade impressa: o cotidiano de Fortaleza na imprensa (1968-1970), a historiadora Vânia Lúcia da Silva Lopes descreve como projetos de “humanização” ou “modernização” das vias públicas de Fortaleza almejavam impedir a interação social e a troca de ideias.

Em meados dos anos 1960, a prefeitura dedicou-se a retirar vendedores ambulantes das ruas e extinguir as feiras livres de praças públicas. Assim, ficava mais difícil para as pessoas pararem nas ruas e, literalmente, ter tempo de conversar.

Assista ao trailler do documentário Castello, o Ditador. Para ver o filme completo no OP+, clique aqui

 

A mesma lógica servia para a ampliação de espaços. Na época, estava em debate a reforma da Praça do Ferreira: o público queria ampliação das calçadas, mais espaço para os transeuntes e menos para os carros; a prefeitura não aprovou.

“Ampliação dos espaços também poderia significar maiores possibilidades de concentração e, por extensão, a ampliação das redes de sociabilidade nas vias públicas”, destaca Vânia no artigo. “Considerando o que ocorreu com a Praça do Ferreira, onde os bate-papos e os encontros sofreram interferência incisiva, fica evidente que as intervenções urbanas do período visavam justamente o contrário.”

Vale lembrar que a Praça do Ferreira, assim como a Praça José de Alencar, eram pontos de concentração das passeatas estudantis contra a Ditadura Militar. Era crucial reduzir o espaço, impedindo ao máximo o “conluio dos subversivos”.

 

 

A resistência deve ser rememorada

No Ceará, o governador Virgílio Távora foi muito rápido ao “mostrar serviço” para os ditadores. Já nos dias 9 e 10 de abril, promoveu as cassações nas câmaras dos Deputados e dos Vereadores. Os sindicatos foram sufocados e restou aos estudantes e aos artistas a missão de liderar os protestos contra a Ditadura Militar.

A Universidade Federal do Ceará (UFC), a Uece, o Liceu do Ceará, a Escola Normal Justiniano de Serpa e tantos outros espaços educacionais viraram centros de resistência. O papel do movimento estudantil contra a repressão foi tanto que, alguns meses após a publicação do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), o presidente-ditador Artur da Costa e Silva baixou o Decreto 477, em fevereiro de 1969, que previa a punição de professores, alunos e funcionários de universidades considerados culpados de subversão ao regime.

 
Frei Tito de Alencar i
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Frei Tito de Alencar foi preso e torturado pelo regime militar (Foto: Wikicommons)

Por isso, as universidades são testemunhas vivas da Ditadura Militar e erguem-se como bastiões de resistência. Além disso, tantos outros logradouros públicos resgatam nomes que dedicaram a vida a acabar com o governo obscuro e também foram vítimas de torturas.

Em Fortaleza, Frei Tito de Alencar é o nome mais marcante. Ele foi fichado e perseguido pelo regime militar por sua participação em um congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1968. O doloroso relato de Frei Tito sobre o período em que foi torturado descreve a crueldade da Ditadura Militar e os horrores que os brasileiros viveram. Clique na foto de Frei Tito e leia o relato completo.

Sem revisionismos históricos, são esses relatos que devem ser resgatados pela sociedade brasileira para poder gritar “nunca mais”. “A memória vem junto com justiça”, reforça o historiador Edmilson.

Todo ano em democracia é uma oportunidade para a sociedade exigir por políticas de memória efetivas que tirem os ditadores das ruas como herois e os coloquem onde realmente cabem: nas sarjetas de traidores da democracia e de torturadores da nação brasileira.

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