Reportagem Seriada

Quais lições ficarão da pandemia?

Neste terceiro e último episódio do especial Indústria da Saúde no Ceará, O POVO mostra o que a pandemia trouxe de aprendizado para que o Brasil conhecesse suas necessidades para saber o que desenvolver
Episódio 3

Quais lições ficarão da pandemia?

Neste terceiro e último episódio do especial Indústria da Saúde no Ceará, O POVO mostra o que a pandemia trouxe de aprendizado para que o Brasil conhecesse suas necessidades para saber o que desenvolver Episódio 3
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Apesar de ser o oitavo maior mercado da saúde no mundo, o Brasil é um país que produz poucos produtos nesta área e de forma concentrada. Dados do estudo Rotas Estratégicas 2025, organizado pela Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), mostram que o estado de São Paulo, sozinho, responde por quase 70% desta indústria. O Ceará ocupa o 11º lugar, com participação de 0,4%. A pandemia trouxe luz à necessidade de rever estes índices, mas será que terá capacidade de alterá-los de forma significativa daqui para frente?

Para o coordenador do Observatório da Indústria do Ceará, Guilherme Muchale, pode ser que nem todas as indústrias que fizeram a reconversão produtiva durante a pandemia agreguem este tipo de produto ao portfólio daqui para frente. Mas a intensificação de parcerias entre o Governo, pesquisadores e o setor privado e que, em tão pouco tempo, resultou na produção de diversas novas soluções na área da saúde feitas com tecnologia local, mostrou que este caminho é possível, desde que esta seja uma linha a ser priorizada daqui para frente.

Local do Distrito de Saúde Viva@Porangabussu(Foto: MARCOS STUDART/ GOVERNO DO CEARA)
Foto: MARCOS STUDART/ GOVERNO DO CEARA Local do Distrito de Saúde Viva@Porangabussu

“O próprio ambiente de pesquisa e inovação precisa ser uma prioridade do Governo Federal, estadual e municipal. E a pandemia mostrou de forma clara o preço que se paga por não fazer disso uma constante. Também precisamos intensificar a aproximação entre empresas e a Academia, investir na qualificação de mão de obra e no investimento em tecnologia”.

O cenário internacional está favorável ao desenvolvimento de novas praças. A China, principal fornecedor desta indústria, por exemplo, não conseguiu ofertar o que os outros países demandaram, além disso, as práticas comerciais desleais de outros países despertaram a atenção para a necessidade de descentralização e encurtamento dessa cadeia produtiva.

"E o Ceará pode ter aí uma oportunidade interessante, por sua localização privilegiada, por ter a única Zona de Processamento de Exportação (ZPE) em funcionamento do País e pela própria demanda interna que deve aumentar daqui para frente”, avalia Muchale.

Infográfico - Raio-x da Indústria da Saúde(Foto: Cristiane Frota)
Foto: Cristiane Frota Infográfico - Raio-x da Indústria da Saúde

 

O secretário da Saúde do Ceará, Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho, o Dr. Cabeto, afirma que várias sementes que foram plantadas neste período devem se intensificar daqui para frente, como a expansão do teleatendimento, o fortalecimento dos hospitais polos, a descentralização de procedimentos médicos no Interior, maior colaboração com setor privado, uso de inteligência de dados e a criação de uma plataforma própria de inovação em saúde. Porém, reconhece que para uma mudança na matriz econômica do Estado por esta indústria é preciso avançar na construção do ambiente de negócios.

Neste contexto, acelerar a estruturação dos Polos Tecnológicos e Industriais da Saúde, como o do Eusébio e do Porangabussu, é uma importante aposta do Estado para alavancar o desenvolvimento para os próximos anos. O objetivo é atrair mais indústrias de base tecnológica, fomentar as pesquisas e a qualificação profissional nesta área.

A pasta, junto com as Secretarias do Desenvolvimento Econômico e Trabalho (Sefaz) e da Fazenda (Sefaz), já vem se debruçando sobre como avançar neste arcabouço jurídico. Inclusive, este deve ser um ponto que virá no Plano de Retomada do Desenvolvimento Econômico do Ceará que está sendo desenhado pelo Estado para o pós-pandemia.

“Estamos desenhando uma nova modelação de incentivos, que não são necessariamente fiscais para atrair esta indústria. A gente quer criar, por exemplo, uma escola de engenharia clínica para formar mão de obra nesta área, pensar em mecanismos que destravem a ambiência de negócios. E uma grande isca para isso é ter um banco de dados robusto”, afirma Dr. Cabeto.

Declínio da curva de contágio não significa fim do sufoco no setor

A desaceleração da pressão sob a rede hospitalar de atendimentos por coronavírus que está sendo observada no Ceará não significa o fim do sufoco do setor de saúde público e privado. O alerta é do epidemiologista e economista em saúde, Marcelo Gurgel, do Grupo de Trabalho de Enfrentamento à Covid-19 da Universidade do Estado do Ceará (Uece).

Ele diz que para além da preocupação de uma nova onda de contágio, em função da flexibilização das regras de isolamento, que é real e requer atenção, há uma demanda grande de atendimentos que ficou reprimida.

"Por conta da demanda exacerbada de atendimentos de Covid-19, houve uma decisão importante de cancelar os procedimentos elegíveis, tudo que não era urgência. Mas uma vez debelado o pico da crise, isso volta com muito mais força. Muitos pacientes que estavam em tratamento de radio, quimioterapia, hipertensão deixaram de ser tratados, e a gente sabe que quando há descontinuidade no tratamento é grande o risco de uma evolução rápida para um caso mais grave”, diz.

Reforça que esta pressão sobre o sistema público e privado ocorrerá em um momento de maior fragilidade econômica, pois já não há mais tantas alternativas de onde tirar mais recursos. "Os planos de saúde, por exemplo, passam por um aumento significativo de gastos que tiveram de ser feitos para atender à demanda da pandemia, simultaneamente a uma queda significativa da receita por conta da perda do poder aquisitivo da população”.

Hospital Leonardo da Vinci, Aldeota, Fortaleza(Foto: Barbara Moira)
Foto: Barbara Moira Hospital Leonardo da Vinci, Aldeota, Fortaleza

Ao avaliar as medidas adotadas pelo Estado, Gurgel acredita que o Governo vem reagindo de maneira rápida e eficiente, na medida do possível, mas também soma alguns equívocos, como a criação do hospital de campanha em estádios de futebol. “Gastou-se um dinheiro fabuloso em algo que demorou a ficar pronto, não é definitivo e vai demandar mais recursos para recuperar o que era antes. Melhor seria era ter requisitado mais hospitais que estavam ociosos, como fez com o Leonardo da Vinci, que, inclusive, vai ajudar a reforçar o atendimento no pós-pandemia”.

Fiocruz Ceará está desenvolvendo novo teste menos invasivo para Covid-19

(Foto: DIVULGAÇÃO)
Foto: DIVULGAÇÃO

Do Polo de Saúde do Eusébio, que tem como âncora a Fiocruz, já começam a sair novas tecnologias para o combate à pandemia. Está em fase de documentação de patente, um novo teste, feito a partir de sistema simples de auto coleta, seguro, não invasivo, de amostras para diagnóstico molecular, por meio da saliva.

Na prática, esta seria uma alternativa à tradicional coleta por swab, uma espécie de "cotonete" longo, que recolhe material da cavidade nasal e/ou na orofaringe. De acordo com o coordenador do projeto, o pesquisador da Área de Biotecnologia, Fábio Miyajima, além de menos invasivo, os resultados relacionados à estabilidade das amostras indicam que o novo sistema pode ser útil para intensificar o nível de testagem nas comunidades mais afastadas e no Interior.

"Mais de 80% dos testes foram realizados em Fortaleza e não é porque o vírus não está no Interior. Há muita subnotificação: faltam quites de coleta, estrutura para analisar estes exames, mão de obra, material. O que a gente está buscando com este protótipo é criar mais uma alternativa, de baixo custo, segura, para fazer chegar estes exames aos locais mais distantes”.

O projeto foi um dos selecionados pelo Edital do Programa Inova Fiocruz - Resposta Rápida, com foco na pandemia da Covid-19. O protótipo está em fase final de documentação da patente. Depois disso, a ideia é buscar parceiros para viabilizar a comercialização.

Quite de diagnóstico molecular para coronavírus de Bio-Manguinhos(Foto: Bernardo Portella/Fiocruz)
Foto: Bernardo Portella/Fiocruz Quite de diagnóstico molecular para coronavírus de Bio-Manguinhos

E um aspecto importante que ele quer preservar nesta etapa é o preço acessível que foi obtido para confecção. O custo projetado dos adaptadores será de menos de R$ 1 e cada quite de coleta deverá custar em média R$ 6. “Queremos preservar o interesse público. Certificar-nos de que o preço esteja dentro de um patamar que o SUS tenha como absorver e possa ser cliente desse sistema para ser melhor difundido”.

Também reforça que o sistema está sendo desenvolvido para atender, inicialmente, a demanda de Covid, mas pode ser aplicado para identificar qualquer vírus respiratório. “O que nos deixa mais preparados para outros surtos que surgirem, sem ficar tão dependente de testes importados”.

Indústrias que fizeram conversão terão de se adequar à Anvisa

Há 18 anos a empresa cearense Plastsan transforma produtos plásticos e embalagens para outras indústrias. Durante a pandemia, como forma de minimizar a ociosidade do parque fabril em função dos decretos de isolamento e atender a uma demanda que crescia no Estado, duas das oito linhas de produção foram redirecionadas para fabricação de face shields (máscaras de acetato). Com capacidade de produção de 30 mil equipamentos por mês, a indústria já mira em outros produtos para incorporar no catálogo.

O sócio da Plastsan, Alexandre Mota, diz que a ideia de fazer face shields surgiu a partir de um pedido feito pela M. Dias Branco, que precisava de escudo facial de proteção para seus funcionários. "Era um investimento alto para minha empresa, mas a M. Dias Branco foi extremamente habilidosa e generosa em nos ajudar a fazer a adequação na linha de produção e fazer um produto específico às necessidades deles. Eles também nos deram autorização para que pudéssemos oferecer o produto ao mercado. E isso está sendo determinante para nos ajudar a passar por este momento mais difícil, a sobreviver como indústria”.

Polímero é um dos materiais usados na Plastsan(Foto: Repodução da Internet/Instagram Plastsan)
Foto: Repodução da Internet/Instagram Plastsan Polímero é um dos materiais usados na Plastsan

Ele diz que, em tempos normais, seria muito difícil entrar neste nicho da saúde por conta de todo processo que é exigido para certificação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mas durante a pandemia, foi criada uma resolução que flexibiliza o credenciamento de outras empresas por seis meses, desde que os produtos preencham as recomendações de segurança e qualidade exigidas.

"Até lá, se não me adequar, terei que parar de vender. Mas entrei em um programa de capacitação do Senai para me ajudar neste processo de homologação. Se tudo der certo pretendo incorporar o produto de forma definitiva ao catálogo, além de tirar do papel uma ideia antiga de desenvolvimento de um novo produto na área dA saúde, mas que não tinha colocado em prática por causa dessa dificuldade”.

Baixo investimento em ciência no Brasil pode retardar saída da crise

Até maio, o Brasil investiu cerca de R$ 466,5 milhões em ciência e tecnologia para fazer frente à crise da Covid -19. Os dados fazem parte de um estudo realizado pela Rede Pesquisa Solidária, que mostra que o baixo investimento e a falta de estratégia brasileira para pesquisa e inovação podem dificultar a saída do País da crise.

Do volume aportado, R$ 326,5 milhões vieram via suplementação orçamentária do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), outros R$ 120 milhões em suplementação orçamentária ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC) para tecnologias aplicadas, inovação e desenvolvimento sustentável e R$ 20 milhões de recursos do Ministério da Saúde, em edital com MCTIC.

Enquanto o Brasil investe o equivalente a 1,7% do PIB em inovação, outros países estão acelerando os investimentos nesta área, podendo alcançar até 11% do PIB, como é o caso do Canadá. Nos EUA estão sendo destinados mais de US$ 6,1 bilhões (4,1% do PIB) exclusivamente para financiar pesquisas sobre a Covid.

Investimento em P&D frente à Covid-19(Foto: Ítalo Furtado)
Foto: Ítalo Furtado Investimento em P&D frente à Covid-19

O estudo reforça que não é só baixo volume de recursos que preocupa. “O quadro não é animador, apesar da energia e disposição que aflorou em universidades e centros de pesquisa. O País não conta com estratégias públicas de longo prazo para enfrentar, atravessar e sair da crise. Mesmo as políticas de distanciamento social estão sendo realizadas sem nenhum tipo de coordenação federal”, diz o estudo assinado pelos pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Fernanda de Negri, Priscila Koeller, Graziela Zucoloto e Pedro Miranda.

Este posicionamento do Governo Federal, alerta o estudo, condena o Brasil a ser apenas um usuário de C&T. “A exemplo do que ocorreu em outras pandemias de menor porte, sem estratégias para o desenvolvimento de vacinas e outros medicamentos, o País corre o risco de ficar completamente desprovido de eventuais vacinas, equipamentos e insumos médicos que serão orientados para abastecer os países com maior competência científica e maior poder de compra”.

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