Reportagem Seriada

Maior artilheiro do Castelão relembra feitos que nem Pelé igualou

Ídolo do Fortaleza e do Icasa, o maior goleador do Castelão e do Romeirão percorre histórias de confrontos contra os maiores craques do Ceará e do Brasil, como Rivelino, Gérson e também o rei do futebol — mas Geraldino se orgulha de façanha que, segundo ele, nem Pelé alcançou
Episódio 11

Maior artilheiro do Castelão relembra feitos que nem Pelé igualou

Ídolo do Fortaleza e do Icasa, o maior goleador do Castelão e do Romeirão percorre histórias de confrontos contra os maiores craques do Ceará e do Brasil, como Rivelino, Gérson e também o rei do futebol — mas Geraldino se orgulha de façanha que, segundo ele, nem Pelé alcançou Episódio 11
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Na década de 1960, o adolescente José Geraldo Olímpio de Souza estava a 411 km do seu maior sonho. Essa era a distância que o dividia da sua cidade natal, a pequena Ipaumirim, no Centro-Sul cearense, à época com menos de 10 mil habitantes, e a maior metrópole do Estado, Fortaleza. Na capital cearense, que até então ele só conhecia por fotos, Geraldo queria provar que o talento que vem dos pés transpõe quaisquer barreiras. Com obstinação, um pouco de ambição e muito trabalho, ele se tornou o jogador mais caro do futebol cearense em 1972, ano em que foi contratado pelo Fortaleza Esporte Clube por 30 mil cruzeiros.

A partir dali, iniciava a trajetória de sucesso de Geraldino Saravá, como passou a ser chamado um dos maiores ídolos da torcida leonina, dono de recordes difíceis de serem quebrados e lembrado como o maior artilheiro do clube e do estádio Castelão.

Para chegar a uma das mais importantes equipes do futebol cearense, Geraldino superou e venceu os desafios que a vida lhe impôs. Ao O POVO, ele contou detalhes sobre os primeiros passos de sua carreira e relembrou acontecimentos marcantes dentro e fora das quatro linhas. Dos 810 gols que contabiliza ter feito ao longo dos 17 anos de atuação no futebol profissional (1972-1989), um tem significado mais importante: o que fez contra o Ceará, no dia 23 de março de 1975, no primeiro jogo da grande final do campeonato estadual referente a 1974. Não sai da sua memória também, o dia em que colocou a bola nas redes contra o imbatível Santos de Pelé.

Geraldino, aliás, assegurou, durante a entrevista, que detém uma marca própria, ainda não alcançada por nenhum jogador brasileiro, nem mesmo por Pelé. Fora de campo, ele também se orgulha de uma conquista inédita: o título do campeonato cearense de 1992, como técnico, pelo Icasa, clube onde ele iniciou a carreira no futebol amador, em 1969, e até hoje o único do interior que levantou a taça da maior competição estadual.

Geraldino exibe faixa de campeão, pelo Icasa, em 1970, ainda na categoria futebol amador(Foto: acervo pessoal)
Foto: acervo pessoal Geraldino exibe faixa de campeão, pelo Icasa, em 1970, ainda na categoria futebol amador

Nascido aos 29 de agosto de 1950, Geraldino teve a paixão pelo futebol despertada na década seguinte, quando ele e sua família tiveram que trocar Ipaumirim por Cedro, cidade para onde o seu pai, então servidor público estadual, havia sido transferido. Aos 16 anos, o adolescente já estava determinado a alcançar o seu maior objetivo: jogar em um grande clube da capital. Para isso, ingressou no time de futebol amador da cidade, chamado de Seleção Cedrense. Defendendo a equipe, ele disputou torneios regionais com várias equipes do interior. Em 1969, brilhou diante do Icasa, de Juazeiro do Norte, em jogo realizado no estádio municipal do Cedro. Com dois gols de Geraldino, a equipe goleou os alviverdes do Cariri por 4 x 0. O bom desempenho abriu caminhos para uma chance no Verdão (que à época ainda era um clube amador), onde ele ficou até março de 1972, quando foi contratado pelo único time profissional do interior cearense de então, o Guarany de Sobral.

No Bugre sobralense, o ponta esquerda Geraldino se projetou para a cena estadual do futebol. Naquele ano, foi vice-artilheiro do Campeonato Cearense, com 17 gols. O sucesso meteórico logo despertou o interesse dos grandes da capital. O Ceará, segundo ele, foi o primeiro a procurar a diretoria do Guarany, que teria pedido 50 mil cruzeiros pelo passe do atleta, quantia negada pelos executivos do Vovô. Na mesma semana, dirigentes do Fortaleza ofereceram 30 mil cruzeiros pelo jovem artilheiro. Negócio fechado, sendo essa a maior transação do futebol cearense daquele ano.

O investimento rendeu bons frutos. Com a camisa do Leão, de 1972 a 1978, Geraldino foi campeão cearense por duas vezes (1973 e 1974) e se tornou o maior goleador do clube, com 154 gols. É, ainda, o maior artilheiro do Castelão, com 98 gols, e do Romeirão, com 72 gols.

Geraldino exibe faixa de campeão cearense, pelo Fortaleza, em 1973(Foto: acervo pessoal)
Foto: acervo pessoal Geraldino exibe faixa de campeão cearense, pelo Fortaleza, em 1973

Em 1979, teve uma rápida passagem pelo Ceará, onde jogou por apenas 10 meses. No ano seguinte, atuou pelo Ferroviário. Ainda vestiu as camisas do Tiradentes (1981), Campinense-PB (1982) e Sampaio Corrêa-MA (1982). Em 1983, após sofrer uma lesão no joelho, retornou ao Icasa para encerrar sua carreira. Desde então, vive com sua família em Juazeiro do Norte, onde atualmente trabalha como professor de educação física na rede municipal de ensino.

Aos 70 anos, Geraldino ainda preserva na memória os momentos mais marcantes de sua carreira vitoriosa. Na casa onde mora, localizada na rua Santa Luzia, ao lado da antiga sede do Icasa, ele recebeu O POVO para esta entrevista, em que revelou acontecimentos inéditos dos bastidores do futebol cearense nas décadas de 1970 e 1980.

Devidamente protegido com máscara customizada com o brasão do Fortaleza, ele tornou evidente a sua inclinação pelo clube leonino, mas disse ser um torcedor de três times.

Na camisa que vestia, uma homenagem às seis equipes cearenses por onde passou. “Nenhum outro jogador jogou nos seis "grandes" do Estado. Me mostre qual!'", disse, entusiasmado, antes do início da entrevista que você confere a partir de agora.

Geraldino Saravá exibe camisa que estampa símbolo dos seis clubes onde ele atuou como jogador profissional: Fortaleza, Icasa, Ceará, Ferroviário, Tiradentes e Sampaio Corrêa(Foto: Luciano Cesário)
Foto: Luciano Cesário Geraldino Saravá exibe camisa que estampa símbolo dos seis clubes onde ele atuou como jogador profissional: Fortaleza, Icasa, Ceará, Ferroviário, Tiradentes e Sampaio Corrêa

 

 

O POVO - Como surgiu o interesse pelo futebol?

Geraldino Saravá - Eu sou filho natural de Ipaumirim. Nós jogávamos lá no futebol amador. Papai era funcionário do Estado e a gente foi transferido para o Cedro, no começo da década de 60. Quando chegamos lá, eu e meu irmão entramos na seleção do Cedro. Ganhamos do Iguatu, Icó... de várias seleções, e com isso começamos a ganhar destaque. Um certo dia, o Icasa foi jogar lá [no Cedro] e nós ganhamos de 4 a 0. Nesse jogo eu fiz dois gols, mas quem chamou a atenção do Icasa foi meu irmão, o Nena. Eles queriam ele de qualquer maneira, mas Nena disse: "Só vou se meu irmão for." Aí viemos, mas quando chegamos aqui quem deu o show fui eu [risos]. Então, com pouco tempo ele voltou pro Cedro e eu fiquei [em Juazeiro]. Aí aqui comecei a jogar melhor, fui fazendo gols, e depois o Guarany de Sobral veio e me contratou para eu ir pra lá.

OP - Como foi a temporada no Guarany?

Geraldino - Fiquei pouco tempo lá. Só joguei três meses. Quando fui, já estava na metade do Campeonato [Cearense], mesmo assim ainda fui vice-artilheiro, com 17 gols. Aí devido a esse destaque, o Ceará foi me contratar, mas o Guarany pediu muito dinheiro, acho que uns 50 ou 60 mil [cruzeiros]. Aí o Ceará foi e não quis, mas depois o Fortaleza ofereceu 30 mil e eles aceitaram a oferta. Ainda me lembro, foi em setembro de 1972. Na época, fui vendido como o jogador mais caro do ano do futebol cearense.

OP - O senhor esperava uma ascensão meteórica como essa?

Geraldino - Eu não fiquei tão surpreso. Isso aconteceu porque eu tinha esse pensamento desde pequeno. Eu dizia sempre para Nena: 'Meu irmão, eu vou jogar num time grande em Fortaleza, você vai ver'. E aconteceu. Era um sonho que eu lutei para ver se tornar realidade.

"Digo sem medo de errar, o Fortaleza Esporte Clube de 1974 foi a melhor coisa que eu já vi acontecer no futebol cearense. " Geraldino, sobre sua maior alegra no futebol

OP - Dentro de campo, qual foi sua maior alegria?

Geraldino - A minha maior alegria eu estou vendo aqui agora [direciona o olhar para a parede onde está fixado o quadro do time do Fortaleza de 1974, campeão do campeonato cearense daquele ano]. Digo sem medo de errar, o Fortaleza Esporte Clube de 1974 foi a melhor coisa que eu já vi acontecer no futebol cearense. Era um time de ouro: Lulinha, Zé Carlos, Louro, Basílio, Ozires, Roner, Haroldo, Amilton, Lucinho, Chinesinho e Geraldino. Esse time conseguiu fazer o que nenhum outro grande do Brasil fez em clássico. Pegou o Ceará por três vezes dentro de oito dias e ganhou todas as três partidas. Uma de 4 a 0, onde Geraldino fez 3 gols. Uma de 1 a 0, onde Geraldino fez um gol. E no outro jogo, botaram dois [zagueiros] para me marcar e deixaram Amilton só, aí ele fez dois gols, e Haroldo fez um, terminou 3 a 1. Onde tem no Brasil um clássico com três vitórias de um lado só em oito dias? Nem Corinthians e São Paulo, nem Flamengo e Vasco, não conheço um. Só o Fortaleza de 74 mesmo. Foi a maior alegria que eu tive na minha carreira, sem dúvidas.

Geraldino Saravá guarda na parede de sua casa o quadro do time do Fortaleza de 1974, campeão do cearense daquele ano(Foto: Luciano Cesário)
Foto: Luciano Cesário Geraldino Saravá guarda na parede de sua casa o quadro do time do Fortaleza de 1974, campeão do cearense daquele ano

OP - E a maior frustração?

Geraldino - Foi lá em Cuiabá, em 1979, contra o Dom Bosco. Eu estava jogando pelo Ceará e a gente tava ganhando de 5 a 2, eu já tinha feito três gols. Numa jogada lá dentro da área, o Amilton Melo gritou pra mim: "Não vai não, Geraldino, não vai não." Eu fui. O goleiro estava com muita raiva de mim. Ele voou no meu joelho e quebrou. A dor foi tão grande que eu voltei pra Fortaleza numa cadeira de rodas. Ali acabou minha carreira, nunca mais fui o mesmo.

OP - A fama de artilheiro lhe rendeu muito dinheiro?

Geraldino - Mais ou menos. Não rendeu mais ainda porque eu fui orgulhoso. Fui besta. Não fiz propaganda do meu trabalho. Porque se eu tivesse feito propaganda do meu trabalho, eu teria recebido mais dinheiro. Mas, graças a Deus, com o dinheiro que eu ganhei pelo Fortaleza, formei todos os meus filhos, meus netos e minha esposa. Todos têm casa, têm carro, vivem mais ou menos, rico não, mas vivem bem. Mas se eu tivesse gastado mais com propaganda, talvez eu estivesse muito rico hoje, mas tudo bem, Deus quem escreve nossa história.

" Quando eu chego em Fortaleza, todos os torcedores, de todas as equipes, vem demonstrar esse reconhecimento. Essas amizades, assim posso dizer, ficaram até hoje." Geraldino, sobre as recompensas do futebol

OP - O que o senhor conquistou de mais importante fora das quatro linhas, mas através do futebol?

Geraldino - Os amigos. O carinho e o reconhecimento das torcidas. Não é por nada, mas todo mundo gostava de mim. Me mostre um jogador hoje do Ceará que o torcedor do Fortaleza goste, que o torcedor do Ferroviário goste, que o torcedor do Tiradentes goste… Eu era um jogador que toda a torcida gostava de mim. Né mais difícil? Hoje, a torcida do Ceará gosta de mim, a do Ferroviário, a do Fortaleza, a do Tiradentes, a do Icasa... então é muito difícil acontecer isso com um jogador. Por quê? Porque quando eu fazia um gol eu não ia chatear o torcedor adversário não. Eu ia vibrar com a minha torcida. Quando eu fazia um gol pelo Ceará, e ia vibrar com a torcida do Ceará, pelo Ferroviário, do mesmo jeito... então por isso que a torcida toda gosta de mim. Quando eu chego em Fortaleza, todos os torcedores, de todas as equipes, vem demonstrar esse reconhecimento. Essas amizades, assim posso dizer, ficaram até hoje.

OP - Durante sua atuação nos clubes da capital, recebeu convites de equipes do eixo Rio-SP?

Geraldino - Rapaz, você agora falou um negócio sério que eu fiquei com muita raiva [risos]. Vou dizer quantos clubes me queriam: Palmeiras me queria, Corinthians me queria, Vasco me queria, Flamengo, botou 600 mil [cruzeiros] no meu passe, mas o Fortaleza só dava por 1,4 milhão. Eu ia jogar do lado do Zico. Quer dizer, tive muitos times atrás de mim, mas naquela época não tinha os empresários que tem hoje. A negociação era direta de presidente para presidente. O Fares Lopes [então presidente do Fortaleza] não queria me liberar.

OP - Então o senhor não decidia sobre seu passe?

Geraldino - Totalmente. Era tudo nas mãos deles [os presidentes]. Vou até contar uma história que nunca havia falado em entrevista. Eu fui pedir um vale ao presidente [um adiantamento de parte do salário] e ele falou que não tinha. Aí eu falei pra ele que só sairia de lá com o vale em mãos porque estava precisando para comprar umas coisas. Nisso, eu fiquei sentado lá do lado de fora da sala dele. Com um pedacinho [pouco tempo], o telefone toca. Aí eu ouvi ele dizendo: "Não, aquele matuto véi do Cariri ninguém dá por dinheiro nenhum não. Não vamos deixar ele sair daqui não." Aí ele foi e desligou o telefone. Quando ele saiu da sala, ele disse: "Quanto é o vale?" [risos]. Aí eu disse, primeiro eu quero saber o que era que você tava conversando aí. Ele disse: "Era o Vasco que tava lhe querendo, mas ninguém vende não."

OP - E se a decisão fosse sua, iria ou não?

Geraldino - Ora não. Eu teria ido logo para o Flamengo jogar ao lado de Zico. Iria fazer gol até umas horas.

OP - O senhor foi um artilheiro que nunca fez um gol de bola parada e não gostava de bater pênaltis. Não era o seu forte?

Geraldino - Tudo na vida tem que ter a prática. Eu não praticava pênalti. Eu só praticava bola de longe, de fora da área. Antes de começar o treino, eu chamava o goleiro e levava dez bolas para mirar bem o gol. Às vezes chutava sessenta, setenta bolas em uma hora. Quando terminava o treino, eu chutava mais umas vinte.

OP - E por que não treinava pênalti?

Geraldino - Porque eu não queria. Eu achava bom era chutar de longe. Eu chutava muito forte tanto de pé esquerdo como com o pé direito. Nunca treinei um pênalti, nem falta.

OP - Mas já bateu algum pênalti ou falta?

Geraldino - Só um pênalti, mas não lembro o ano. Foi no [estádio] Presidente Vargas. Nós [Fortaleza] estávamos ganhando o jogo de 7 a 0 e eu não tinha feito nenhum gol ainda. Aí já caminhando pro fim da partida, o juiz deu um pênalti. Os jogadores foram todos pra cima de mim pedindo para eu bater, a torcida fez campanha na arquibancada: "Vai, vai, vai", e mesmo assim eu não queria. Mas, no fim das contas, acabei batendo.

OP - Converteu?

Geraldino - A bola foi parar lá no "meião" da torcida [risos]. Depois dessa, aí é que nunca mais quis saber de pênalti mesmo.

OP - Qual o segredo da artilharia de Geraldino Saravá?

Geraldino - O trabalho. Tudo na vida é o trabalho. Então, eu fazia o trabalho. Pegava dez, quinze bolas, ia pro campo antes de começar qualquer treino, e chutava no gol. E até às vezes eu ficava apostando com o goleiro Luinha. Aquela bola que ele pegasse, ele ganhava um refrigerante. E o [gol] que eu fizesse, eu quem ganhava o refrigerante. Então isso aí é uma das coisas mais importantes de um jogador de futebol, o trabalho. Hoje em dia eu não vejo mais isso. Vou para os treinos do Icasa de vez em quando e não vejo um jogador chutar bola no gol.

OP - Na sua contagem, quantos gols fez ao longo da carreira?

Geraldino - 810, contando todos os meus gols, incluindo os amistosos.

OP - Qual desses gols foi mais importante para o senhor?

Geraldino - O que fiz contra o Ceará no primeiro jogo da final do Cearense de 1974. Sabe por quê? Porque eu fiz [o gol] aos 44 e meio do segundo tempo contra o nosso maior rival. A alegria que proporcionei ao torcedor com aquele gol foi demais. O estádio tremeu, levantou todo mundo. Eu me arrepio todo, ainda hoje, quando penso nesse dia.

Na entrevista concedida ao O POVO, Geraldino fez questão de colocar ao seu lado o quadro do time do Fortaleza campeão cearense em 1974(Foto: Luciano Cesário)
Foto: Luciano Cesário Na entrevista concedida ao O POVO, Geraldino fez questão de colocar ao seu lado o quadro do time do Fortaleza campeão cearense em 1974

OP - Por toda essa trajetória vitoriosa, ainda é reconhecido pelos torcedores nas ruas aqui no Cariri e na capital?

Geraldino - Sou. E tenho até outra história pra lhe contar [risos]. Em 2018, cheguei a Fortaleza e peguei um táxi para ir a um hotel perto da Beira Mar. E, durante o caminho, o taxista tava só olhando pra mim pelo retrovisor e eu já estava até desconfiado. Fiquei pensando: "Será que esse cara tá pensando que sou bandido?" Quando chegou lá [ao hotel] eu perguntei quanto tinha dado [o valor da corrida] aí ele disse: "Primeiro eu quero fazer uma pergunta. Você é Geraldino Saravá?" Eu disse, sou. Ele respondeu: "Pois você não paga é nada no meu carro. Nada, nada, nada." Aí ele correu pra cima de mim pedindo para tirar foto. Isso, depois de tantos anos, é bom demais. Tudo bem que só os mais velhos me reconhecem, mas pelo menos sou lembrado [risos].

OP - Fora de campo, o senhor ainda atuou como técnico. Como surgiu essa oportunidade?

Geraldino - Mesmo tendo pendurado as chuteiras, depois que encerrei a carreira profissional, eu ia todos os dias para o treino do Icasa fazer aquecimento. Eu não queria parar. Em 1992, o técnico do time foi demitido. Aí o presidente me via treinando, interessado, e me chamou para ser o técnico. Fui, e deu certo. Treinei legal os meninos. Fui campeão cearense.

OP - Era um técnico "casca grossa"?

Geraldino - Não. Eu sabia conversar com os meninos. Como eu já tinha sido jogador, eu sabia como o treinador precisava tratar o atleta. Eu aprendi. Quando eu ia fazer uma reclamação, eu falava sério depois do jogo, no outro dia. Nunca o treinador deve criticar na hora do jogo, porque o atleta tá de sangue quente e "pega corda", fica com raiva. E mais, quando o jogador tava errado, eu não falava na frente dos outros. Eu chamava no particular e dizia tudo que eu queria, mas evitava deixar ele envergonhado diante dos outros. Por esse meu jeito, todos os jogadores gostavam de mim. E olha, graças a Deus, não fiz nenhum inimigo no futebol.

Time amador do Icasa, em 1969. Na foto, Geraldino é o segundo agachado da esquerda para a direita(Foto: acervo pessoal)
Foto: acervo pessoal Time amador do Icasa, em 1969. Na foto, Geraldino é o segundo agachado da esquerda para a direita

OP - A quem pertence o coração de Geraldino Saravá, Icasa ou Fortaleza?

Geraldino - Eita pergunta que eu não sei como resolver [risos]. Eu não sou torcedor de um time só. Tem um que eu torço mais: o Fortaleza. Depois, o Icasa. Por último, o Vasco da Gama.

OP - Qual o grau de importância de cada um desses três para o senhor?

Geraldino - O Icasa me deu a oportunidade de chegar onde cheguei. Me projetou para o futebol profissional. O Fortaleza me deu as condições de criar meus filhos, minha família, ficar tranquilo. Fortaleza me deu tudo, da sandália que eu calço a essa casa aqui onde moro. E o Vasco eu torço porque eu sempre gostei mesmo, só isso.

OP - Dentro de campo, quais foram os melhores jogadores cearenses que o senhor já enfrentou?

Geraldino - O futebol cearense teve muitos jogadores bons, tanto no Fortaleza como no Ceará. No Fortaleza teve Amilton Melo, Zé Carlos, Louro, Lulinha… no Ceará teve Arthur, Edmar, Hélio, Da Costa… todos jogadores de qualidade, que hoje não vejo nenhum no naipe deles jogando.

OP - Quais o senhor temia antes de entrar em campo?

Geraldino - Zé Eduardo, do Ceará. Jogava muito. Ele é baiano. Quando ele pegava na bola era um perigo maior do mundo. Um atacante muito bom.

OP - Tinha algum zagueiro que era "a pedra no seu sapato"?

Geraldino - Arthur. Pra mim, o número um do futebol cearense na zaga era ele. Não dava moleza pra ninguém. E quando ele pegava na bola, você não tomava dele de jeito nenhum. Era um zagueiro que eu não conheço um igual àquele cara não.

OP - Nacionalmente, quais foram os grandes que o senhor enfrentou?

Geraldino - Ah, eu peguei muitos jogadores bons. Gerson, Rivelino, Paulo César, Careca, Clodoaldo, Pelé...

OP -Como foi entrar em campo contra o rei do futebol?

Geraldino - Foi muito bom, principalmente porque eu fiz um gol contra o time dele [risos]. Isso em 1976, pelo campeonato brasileiro, no Castelão. Eu fiz 1 a 0. O jogo estava caminhando para os 10 minutos do segundo tempo. Teve um jogador nosso que deu uma bola por debaixo das pernas de Pelé. Aí a torcida toda vibrou e mandou vaia pra cima dele. Aí depois disso, Carlos Alberto [então lateral do Santos] foi pra cima dele [Pelé] e disse: "Macaca preta, se quiser jogar, tu joga, se não quiser, tu sai, porque nós não viemos aqui para servir de palhaços não, rapaz." Pelé ficou com raiva. Sabe o que foi que aconteceu depois disso? Faltando só 30 minutos para o jogo acabar, fizeram cinco gols, três de Pelé. Aí no fim das contas, a torcida do Fortaleza ficou com raiva foi do cara que colocou a bola por baixo das pernas de Pelé, não lembro mais o nome dele [risos].

OP - Enfrentou o Santos de Pelé outras vezes?

Geraldino - Sim. Acho que no ano seguinte. Foi lá na casa deles [Vila Belmiro], acho que o placar foi 1 a 1, não lembro muito bem, mas nesse jogo eu não fiz gol.

OP - Na época em que o senhor atuava na capital, qual era o peso do futebol cearense em nível nacional?

Geraldino - Era muito maior. Acontecia uma coisa que não acontece mais hoje: aqui no Ceará [Estado] a gente tinha jogadores em nível de seleção brasileira. Eram muitos: Da Costa, Amilton Melo, Lulinha, tudo nível de seleção hoje, rapaz.

OP - E o senhor?

Geraldino - Eu também estava nesse nível, mas não era chamado porque tinham muitos outros Brasil afora. O País todo tinha craques capazes de vestir a amarelinha. Os cearenses, na maioria das vezes, não eram chamados, mas nós tínhamos condições de estar lá. Hoje é diferente. Além de não termos mais jogadores em nível de seleção no Ceará, poucos atletas do futebol brasileiro são convocados. O talento foi exportado para a Europa.

OP - Dentro de campo, o senhor colecionou recordes. Quais foram os mais importantes?

Geraldino - Primeiro: maior artilheiro do Castelão, com 98 gols. Segundo: maior artilheiro do Romeirão, com 72 gols. Terceiro: maior goleador do Icasa, com 136 gols. Quarto; maior artilheiro do Fortaleza, com 237 gols. Quinto: o jogador que atuou nos seis grandes do futebol cearense, Fortaleza, Ceará, Icasa, Guarany de Sobral, Ferroviário e Tiradentes. Sexto: o único treinador do interior campeão do campeonato cearense. Ainda falta um.

OP - Qual?

Geraldino - Esse eu só digo por último e digo com orgulho, que nem Pelé tem: vinte e oito gols num campeonato sem nenhum gol de pênalti ou de bola parada. Em 1978 no campeonato cearense, fui o artilheiro. Nenhum jogador no Brasil tem isso. Me mostre se Pelé tem! Tem não!

" Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido no futebol cearense e na minha vida, que até hoje sou o maior artilheiro do estádio." Geraldino ao falar relembrar a primeira vez que jogou no Castelão

OP - O senhor foi um dos primeiros a jogar no Castelão, inaugurado em 1973. Qual a importância para o futebol cearense, à época, de ter um estádio daquele porte?

Geraldino - Deu mais vida. Nós jogávamos no Presidente Vargas, era mais apertado. Lá [Castelão] não, lá tinha muito espaço. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido no futebol cearense e na minha vida, que até hoje sou o maior artilheiro do estádio.

OP - Depois da reconstrução do Castelão, hoje uma moderna arena, o senhor já esteve lá algumas vezes participando de jogos amistosos. O que sentiu ao entrar num estádio completamente diferente daquele em que viveu dias de glória?

Geraldino - Saudade e alegria. Fiquei feliz porque tá tudo lindo. Deu um pouco de saudade, mas o que eu fiz está lá. Foi naquele espaço, naquele chão, está na história e ninguém apaga. Quando cheguei lá, a primeira coisa que pensei foi: "Mas, rapaz, eu ser o maior artilheiro do Castelão, não é fácil. Não é brincadeira."

OP - O senhor também é o maior artilheiro do Romeirão, que está sendo reformado e também se transformará em arena. Isso, de certa forma, apaga um pouco a memória dos bons momentos vividos nesses estádios?

Geraldino - Olha, acho que não. Os gols estão lá dentro. Não vão sair de lá. Se mudasse o estádio de lugar, aí sim, mas vai continuar no mesmo local. Quem viveu aquele tempo, principalmente eu, que fiz os gols, não vai esquecer jamais.

OP - E quais as lembranças mais importantes o senhor guarda do Castelão e do Romeirão?

Geraldino - Do Romeirão, foi um gol que eu fiz contra o Guarani de Juazeiro. Eu chutei uma bola lá de meio de campo, de lado, e quando a bola estava a caminho do gol, um colega veio me reclamar: "Mas rapaz, chutar uma bola longe dessa", aí eu virei as costas, desacreditado, mas em questão de segundos, quando ele fechou a boca, a torcida gritou e ele correu para me abraçar [risos]. Resultado, a bola foi tão forte que ela quando chegou lá [nas traves], bateu no chão, bateu no morrinho e entrou. Do Castelão, o que mais me vem à cabeça é o gol contra o Ceará no primeiro confronto da final do cearense de 1974. Aquele gol, pra mim, tem um significado indescritível.

"Esse homem é um Saravá, ele diz que faz, e faz, e diz que não faz, e não faz." Geraldino enquanto explica o apelido Saravá que ganhou de um jornalista esportivo

OP - De onde vem o apelido Saravá?

Geraldino - O Saravá foi o seguinte… quando nós íamos jogar por aí, quando chegávamos, eu sentia quando eu ia fazer gol e sentia quando não ia fazer. E não falava isso para ninguém. Lembro que quando fui jogar no Maracanã, os meus colegas iam me chateando dentro do avião dizendo: "Esse matuto véi do Cariri não vai fazer nada hoje". Quando cheguei lá no Maracanã, a gente ia jogar contra o Botafogo, eu pisei na grama e senti que eu ia fazer gol. Aí eu gritei para os meus colegas: "Ei, vocês me chatearam muito, segura lá que hoje vai ser 1 a 0 e eu vou fazer o gol." A primeira bola que eu peguei, caixa [gol]. Depois, levamos 5, mas, apesar da derrota, acertei o meu [gol] e na volta eu quem fui chateando eles: "O matuto véi do Cariri ganhou de 1 a 0 e os fortalezenses perderam de 4" [risos]. Então, aonde eu chegava que ia fazer gol, eu sentia. Isso chegou ao ouvido da imprensa. Foi aí que dois repórteres, o Júlio Sales e o Vilamar, durante um jogo no Castelão, eles disseram, na transmissão de rádio: "Esse homem é um Saravá, ele diz que faz, e faz, e diz que não faz, e não faz." Aí pegou e ficou até hoje. Antes disso, eu era conhecido só como Geraldino mesmo.

OP - Ao longo de sua carreira, as alegrias e as tristezas foram compartilhadas com a torcida, no estádio. Hoje, isso é impossível, por conta da pandemia. A gente pode dizer que o futebol perdeu um pouco da emoção?

Geraldino - Sim, não só porque não tem torcida no estádio, mas porque o momento é de tristeza. Desde que começou essa pandemia, as coisas ficaram mais difíceis para todo mundo. Eu mesmo, perdi dois irmãos para a Covid. O futebol é festa, mas a gente não tem o que festejar. O melhor mesmo, nesse momento, é se cuidar. Vai chegar a hora da torcida lotar aquele Castelão de novo.Vai chegar a hora da inauguração da Arena Romeirão, queira Deus que com torcida. Quando esse momento chegar, nós vamos viver dias de alegria de novo, através do futebol, e com a emoção que ele pode nos proporcionar. Vamos ter fé que isso vai passar.

 


 

Gol "mais importante" da carreira de Geraldino foi contestado e gerou polêmica

O gol apontado por Geraldino como o mais importante de sua carreira é cercado de polêmicas. Dirigentes do Ceará e parte da imprensa, à época, apontaram que o atacante estava em posição irregular quando recebeu lançamento de Lucinho e chutou a bola em direção ao gol. Na edição do O POVO de segunda-feira, 24/3/1975, um dia após o jogo, a principal manchete do jornal indicava o calor das discussões em torno do assunto: “Fortaleza vence; Ceará contesta”, era o título da matéria de capa.

Capa do Jornal O POVO 24/03/1975(Foto: acervo Jornal O POVO)
Foto: acervo Jornal O POVO Capa do Jornal O POVO 24/03/1975

“Revolta era a palavra de ordem no vestiário do Ceará, onde o ambiente e o clima estavam carregadíssimos. Tudo por causa do gol da vitória do Fortaleza, no modo de entender dos alvinegros, feito de forma irregular”, dizia um trecho da notícia, acompanhada do depoimento do então zagueiro do Ceará, Dimas. “Eu participei da jogada e portanto posso dizer o que ocorreu. Quando olhei para o bandeirinha e vi que era o Monteiro da Silva, não tive dúvidas de que ela não marcaria nada. Ele só falta apitar com a camisa do Fortaleza”, desabafou o jogador.

A matéria segue com a fala do então presidente do Ceará, Fernando Façanha. “É difícil fazer futebol numa terra desta, mormente quando as coisas são torcidas sempre para um lado. O Ceará foi roubado e esbulhado dentro de campo”, disparou o então dirigente máximo do Vovô.

No olho do furacão, o árbitro da partida Arnaldo César Coelho foi elogiado pelo O POVO. “Arnaldo César com trabalho perfeito”, foi o título de uma matéria estampada na página 17 do caderno de Esportes.

“O árbitro Arnaldo César Coelho confirmou, mais uma vez, sua alta categoria. Esteve impecável em todo o desenrolar da partida. Acompanhou as jogadas com precisão. Marcou com segurança e não se complicou, apesar da dificuldade que o campo oferecia.[...] Os auxiliares de Arnaldo César Coelho comportaram-se com bastante eficiência. Harry da Costa Ramos e Monteiro da Silva não tiveram erros de gravidade. O lance que a torcida do Ceará mais reclamou, o do possível impedimento de Geraldino ao receber a bola que culminou no tento, não teve nenhuma irregularidade, porque tanto Dimas quanto Marcos davam condições ao atacante tricolor”, destacava a matéria.

Página 17 do caderno de Esportes do O POVO 24/03/1975(Foto: acervo Jornal O POVO)
Foto: acervo Jornal O POVO Página 17 do caderno de Esportes do O POVO 24/03/1975

Na imprensa radiofônica, opiniões divididas: Cid Carvalho, Pierre Neto (Rádio Uirapuru), Celso Martinelli e Assis furtado (Rádio Dragão do Mar) apontaram que o gol foi legal; já Alberto Damasceno, Tom Barros (Ceará Rádio Clube), Gomes Farias, Paulino Rocha e José Tosto (Rádio Verdes Mares) viram ilegalidade na marcação do tento.


>> Ouça a narração do Gol na voz de Gomes Farias:

 

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