Reportagem Seriada

O homem que cavava cacimba no Cariri conquistou o Brasil pelo Flamengo

Ídolo de Icasa, Fortaleza e Flamengo, Ronaldo Angelim conta que quase desistiu da carreira e relata que a ida ao Flamengo foi algo completamente inesperado
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O homem que cavava cacimba no Cariri conquistou o Brasil pelo Flamengo

Ídolo de Icasa, Fortaleza e Flamengo, Ronaldo Angelim conta que quase desistiu da carreira e relata que a ida ao Flamengo foi algo completamente inesperado Episódio
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O caririense que entrou para a galeria de ídolos do clube de maior torcida do Brasil hoje vive a mais de 2.000 km do Ninho do Urubu. Ronaldo Simões Angelim, 45 anos, autor do gol que deu o hexacampeonato brasileiro ao Flamengo, em 2009, escolheu morar em Juazeiro do Norte, na região do Cariri, após pendurar as chuteiras em 2013. Em sua acolhedora casa, no bairro do Limoeiro, ele recebeu O POVO para relembrar fatos marcantes da trajetória no futebol dentro e fora das quatro linhas.

Muito antes de chegar ao auge da carreira defendendo as cores do rubro-negro carioca, Angelim se viu diante de uma encruzilhada: futebol ou trabalho? Em 1992, aos 18 anos, as duas palavras tinham significados completamente distintos para ele. “Futebol era um divertimento, um hobby, não garantia a minha renda. Eu precisava trabalhar”, contou. Nessa época, já atuando como zagueiro titular no time juvenil do Icasa, garantia o sustento seu e de sua família vendendo pães e perfurando poços artesianos, as conhecidas cacimbas. O dinheiro que recebia do clube não era suficiente para cobrir gastos essenciais. Desmotivado, ele decidiu largar o futebol e centrar esforços apenas no trabalho.

Mas, o que deveria ser o ponto final na sua carreira se transformou num grande divisor de águas. Na entrevista, ele revelou detalhes sobre a sucessão de acontecimentos que o fizeram mudar de ideia e apostar no seu sonho. Àquela altura, nem imaginava que um dia pudesse defender o time pelo qual alimenta grande paixão desde criança. A ida ao Flamengo, em 2005, só foi possível após uma reviravolta que não estava nos seus planos antes de embarcar para outra grande cidade brasileira.

Em 21 anos de atuação no futebol profissional, Angelim colecionou vitórias dentro e fora dos gramados que o fizeram sair do fundo do poço para as graças de milhões de torcedores Brasil afora. A maior conquista foi no rubro-negro. Mas, a melhor fase como jogador ele considera que foi no Fortaleza. Mas, foi no Icasa onde a trajetória começou.

Da pequena cidade de Porteiras, onde nasceu em 26 de novembro de 1975, para o grande sonho de vestir as cores do clube de maior torcida do Brasil: é a trajetória inspiradora de Ronaldo Angelim que você conhece a partir de agora nas Páginas Azuis.

Ronaldo Angelim, na última passagem pelo Fortaleza, onde despontou para o Brasil e encerrou a carreira(Foto: GABRIEL GONÇALVES, em 24/01/2013)
Foto: GABRIEL GONÇALVES, em 24/01/2013 Ronaldo Angelim, na última passagem pelo Fortaleza, onde despontou para o Brasil e encerrou a carreira

 

 

O POVO - O futebol é uma paixão desde quando, para você?

Ronaldo Angelim - Desde moleque, jogando por diversão mesmo, em Porteiras. Até então, eu não acreditava em ser jogador de futebol. Acompanhava jogos do Flamengo pela Rádio Globo, além de alguns jogos daqui, do Icasa e Guarani, mas só pelo rádio, sem nunca ter ido a um estádio. E lá [em Porteiras] eu nunca tinha colocado uma chuteira nos meus pés. A gente rachava todo dia, mas sempre descalço. Cansei de fazer campo na roça. Nós não tínhamos terra, mas a gente pedia aos fazendeiros, aos donos de terra, pra deixarem a gente fazer. Foi aí que eu passei a gostar mesmo disso [futebol]. Minha mãe viu que eu era tão viciado em futebol que, numa época, ela chegou a dizer que eu era doente do coração, para eu não jogar mais. Aí eu pensei comigo: "Eu posso trabalhar na roça, mas não posso jogar futebol... tem alguma coisa estranha. E se eu for doente do coração, vou morrer jogando bola." Aí não deixei meu vício.

O POVO - Como foi o começo da carreira? 

Angelim - Morei em Porteiras até os dezenove anos. Meus pais vieram embora para Juazeiro do Norte e eu fiquei lá tomando conta de minha avó. Depois ela foi morar com minha tia e eu vim pra viver com meus pais de novo. Quando eu cheguei aqui, comecei a cavar poço profundo, mas, mesmo assim não deixava de bater um racha todo dia quando eu chegava do trabalho. Numa dessas ocasiões, um amigo meu me chamou pra treinar na base do Icasa, o Lili. E aí de tanto ele insistir, eu fui fazer o teste e passei. Nosso time se destacou e foi campeão do torneio juvenil com os clubes da região, e a partir daí, o Cleber Lavor [então diretor do clube] me deu uma oportunidade. Ele disse: "Eu vou subir cinco garotos para categoria profissional." No meio desses cinco, eu estava. Como o Icasa na época estava mal financeiramente, não estava com tanto dinheiro pra investir em jogador de fora, resolveu subir alguns outros jogadores da base. Tive essa oportunidade, mas até então eu era muito irresponsável, eu não sabia que futebol era uma profissão. Pra mim era um divertimento, era um hobby, eu gostava de jogar. Tanto que eu continuei trabalhando, eu entregava meus pães aqui da padaria, ia cavar poço e quando era de tarde eu saía mais cedo para ir pros treinos do Icasa.

O POVO - Depois de boa fase no Icasa, surgiu uma oportunidade na Capital?

Angelim - Sim. O convite veio primeiro do Ceará, em 1999, quando eu fiz um grande campeonato pelo Icasa, que naquela época mudou o nome para Juazeiro por causa de dívidas. Fui um dos destaques da competição, fomos vice-campeões, inclusive contra o Ceará. E aí o Ceará resolveu levar quase toda a base do Icasa, para reforçar o time da série B [do brasileirão] e eu estava nessa lista. Chegando lá, fiz um grande campeonato brasileiro também, eu era até dupla de zaga com Waldson. Aí ele foi pro Botafogo e eu fui vendido pro Ituano, em São Paulo. Lá eu passei dois, depois voltei pro Ceará de novo por empréstimo, aí retornei em menos de seis meses para o Ituano, e logo recebi o convite do Fortaleza, onde fiquei por cinco anos.

O POVO - No Leão, teve mais sucesso?

Angelim - Foi a minha melhor fase jogando futebol. Me projetou nacionalmente lá: dois acessos à série A do brasileiro, tetracampeão cearense, entre outras conquistas.

 

"Foi a minha melhor fase jogando futebol" Sobre a fase de Fortaleza

 

O POVO - Os maiores desafios de sua carreira foram dentro ou fora de campo?

Angelim - Ah, o desafio maior é fora de campo, né? Dentro de campo não, ali quando você entra, você esquece tudo. Ali você só depende do seu trabalho, do seu esforço e do seu talento. Mas, fora de campo não, tem várias situações, principalmente pra quem é muito pobre, que não tem muitas condições. Então, você tem que ter uma cabeça boa, foco e vontade de lutar pelo seu sonho. É tanto que hoje eu tenho quarenta e cinco anos e nunca bebi, nunca fumei, nunca tive vício nenhum, o único vício meu era jogar bola e trabalhar, porque estudar eu estudei muito pouco.

 

Angelim resume momentos mais importantes de sua passagem vitoriosa pelo Flamengo

 

 

O POVO - O futebol foi sua escola?

Angelim - Sem dúvidas. O futebol ensina várias coisas. Por isso que eu peço pras pessoas praticarem esporte, porque ali você tá trabalhando com pessoas formadas, com pessoas educadas, você tem que ter disciplina, você tá trabalhando parte física, parte psicológica, enfim, o esporte ele junta várias coisas no geral. Então, eu acho que o esporte, ele ensina muita coisa pra todo mundo. É por isso que a gente deve pedir para os governantes investirem muito em esporte e em educação, porque são as únicas coisas que fazem com que a pessoa realmente possa transformar a sua vida.

O POVO - Por enfrentar tantas dificuldades no início da carreira, você chegou a pensar em desistir?

Angelim - Sim, por causa do meu trabalho. Como falei, eu tinha dois trabalhos, entregava pão e cavava poço. O dinheiro que eu recebia do Icasa não chegava nem perto do que eu ganhava nos dois empregos, então, eu pensei: "Não vou mais [jogar], vou trabalhar." E foi aí que o Cleber Lavor foi lá em casa e me fez uma proposta: "Ronaldo, a partir de hoje você não vai mais trabalhar entregando pão e nem cavando poço, mas agora você vai ter que ser 100% profissional". A proposta veio com um aumento bem significativo. A partir daí, isso foi em 1997, tive como me dedicar somente ao futebol.

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O POVO - Foi divisor de águas na sua carreira?

Angelim - Com certeza. Se não fosse o Cléber, para ter insistido, eu não estaria aqui hoje. Teria parado de jogar no profissional.

OP - Uma de suas principais marcas é a humildade, o desapego ao luxo, comum à vida dos jogadores de grandes clubes. Você já chegou a ser criticado por colegas ou se sentiu excluído por dispensar um estilo de vida nababesco quando jogava no Flamengo?

Angelim - Não, me senti não, pelo contrário, eu acho que os jogadores da minha época, eles achavam engraçado a minha forma de ser e o meu jeito, e lógico que tinha a zoação, mas a gente sabia que era uma zoação de brincadeira. Eram só amigos. Até hoje a gente tem um grupo no WhatsApp com todos os atletas de 2009 [ano do título brasileiro pelo Flamengo] e a gente ri muito falando dessa época aí. Tem uns que nós chamamos de mão de vaca, de miserável, outros de não sei o que, tem vários apelidos. Mas sobre esse negócio de luxo, eu era uma pessoa que não tinha besteira com nada, usava as roupas dos patrocinadores, usava camiseta, chinelo de dedo, enfim, da forma que eu saí do Icasa aqui, eu permaneci no Flamengo. Não é porque eu passei a ganhar um pouco a mais lá no Flamengo, que eu ia mudar meu estilo de vida. E jamais mudei, até hoje continuo como sempre fui. Ao invés de comprar roupa de grife ou carro de luxo, eu preferi investir.

 

"Da forma que eu saí do Icasa aqui, eu permaneci no Flamengo" Angelim ao falar sobre a mudança de time

 

O POVO - E os seus investimentos foram em quê?

Angelim - Imóveis. Porque era uma coisa que meu avô fazia. Ele tinha umas casinhas aqui em Juazeiro e praticamente sustentou a família todinha com isso. Então, eu botei na cabeça: "Quando eu ganhar alguma coisa, eu vou investir nessa área aqui, de imóveis, casas, terrenos…" eu lembro que minha mulher tirou até onda comigo, disse que eu precisaria jogar muito para comprar dez casas. Quando eu comprei, passei na cara dela[risos]. Foi difícil, mas consegui. E graças a Deus, segui nesse rumo, saí investindo em apartamento, casa, terreno…

O POVO - Hoje você tem quantos imóveis?

Angelim - Tenho um bocado. Inclusive eu estou em processo de separação com minha mulher e a gente tá vendo ainda o total, mas tá na faixa dos 200 a 300.

O POVO - Qual a maior alegria dentro de campo?

Angelim - Acho que se eu responder essa pergunta objetivamente, posso ser injusto com os clubes onde joguei. Lógico, todo mundo lembra mais do gol de 2009, foi o que ficou mais marcado e até hoje sou reconhecido por isso, mas eu não posso ser injusto, por exemplo, com o Icasa, onde fui formado, com o Ceará, onde fiz duas grandes séries B, com o Fortaleza, que me projetou para o Brasil, enfim, foram muitos momentos.

O POVO - Mas você consegue resumir uma alegria diante de tantas?

Angelim - A maior, lógico, foi o gol de 2009 em cima do Grêmio e o título que a gente conquistou pelo Flamengo. Isso daí não tem como, fica pra história.

O POVO - Para um zagueiro você fazia muito gol.

Angelim - Ah, sem dúvidas. Eu fazia muitos gols e costumava fazer mais em jogos decisivos. Mas acho que os gols não foram o mais importante, eles serviram apenas para coroar o meu empenho na posição defensiva, porque muitas vezes o zagueiro não é tão notado, mas o seu trabalho é muito importante para qualquer equipe. Pode ver que tem muitos zagueiros que passaram por grandes clubes, mas não ficaram marcados na história porque não fizeram gols assim em momentos importantes, porque não adianta você marcar um gol no começo do campeonato. No Brasileiro 2009, eu só fiz um, mas foi o do título.

O POVO - Dentro de campo, alguma grande decepção?

Angelim - O jogo contra o América do México, em 2008, pelas oitavas de final da Libertadores. Nós tínhamos ganhado o jogo lá [no México] de 4 a 2, e quando viemos para o jogo da volta, a gente acabou perdendo por 3 a 0. Acho que o nosso erro foi ter menosprezado o adversário. Ficou essa frustração de não ter conquistado uma Libertadores.

O POVO - E fora das quatro linhas, qual foi o momento de maior felicidade na sua vida?

Angelim - Meus filhos. Os dois nasceram quando eu já estava no futebol, em uma etapa de muita realização.

O POVO - E a maior tristeza?

Angelim - Ter perdido meu avô, em 1992. Queria muito que ele tivesse visto eu jogar. Fui criado por ele e por minha avó, que morreu recentemente, aos 104 anos. No começo de tudo, foram eles que mais me incentivaram a ser quem eu me tornei hoje.

O POVO - Imaginava algum dia fazer parte da galeria de ídolos do Flamengo?

Angelim - Eu não pensava nem em jogar no Flamengo, quanto mais fazer parte dessa história, ficar marcado. Isso é uma coisa que não tem preço. O cara sair da onde eu saí, Porteiras, essa cidadezinha bem pequenininha, jogar no maior clube do País, o clube do seu coração, e ainda ser reconhecido pela torcida no Brasil e no mundo onde você vai... eu só tenho a agradecer. Nunca nem sonhei com isso.

O POVO - Como foi que chegou esse convite do Flamengo e qual foi a sua reação quando o recebeu?

Angelim - Curioso que não era pra acontecer. Foi em 2005. Eu tinha acertado com o Palmeiras. Estava no Fortaleza, tinha ficado tudo certo que eu ia me apresentar no Palmeiras. Mas dias antes da viagem, a diretoria do Flamengo me ligou. E aí como sou torcedor do Flamengo, isso pesou.

O POVO - A oferta salarial foi maior do que a do Palmeiras?

Angelim - Não. Foi a mesma proposta, mas eu não pensei duas vezes em decidir pelo Flamengo. E olhe que na época o Flamengo estava ruim financeiramente e o Palmeiras vivia numa situação bem melhor, ia jogar até a Libertadores.

 Cearense de Porteiras, Ronaldo Angelim entrou para a história do flamengo ao marcar gol decisivo para o hexacampeonato brasileiro do clube, em 2009(Foto: IGOR DE MELO)
Foto: IGOR DE MELO Cearense de Porteiras, Ronaldo Angelim entrou para a história do flamengo ao marcar gol decisivo para o hexacampeonato brasileiro do clube, em 2009

O POVO - A trajetória vitoriosa lhe rendeu mais dinheiro do que você esperava?

Angelim - Não, acho que eu ganhei o suficiente. Lógico que hoje o futebol tá pagando bem mais do que na minha época. Sempre foi assim, na época de Zico também pagava bem menos do que na minha época, agora já paga bem mais, enfim. Eu cheguei a receber até um bom salário. No Fortaleza, já ganhava bem também. Lógico que um zagueiro nunca vai ganhar nem perto de um atacante, a diferença é grande, até porque atacante faz muitos gols, apesar de eu ter sido um zagueiro que fez bastante gols decisivos, mas é diferente, você sabe que o zagueiro ganha bem menos. Mas eu acho que pro que eu joguei, foi dentro do esperado, dentro da normalidade.

O POVO - O que sente um jogador ao entrar no Maracanã com a torcida do Flamengo gritando seu nome?

Angelim - Olha, isso aí só vai saber a gente que jogou no Flamengo. Não tem emoção maior não. Eu joguei em vários clubes, mas é diferente de você entrar no Maracanã com cento e poucas mil pessoas, como eu já entrei várias vezes. E tem outra coisa, não é só no Rio de Janeiro a torcida do Flamengo, onde você chega, a torcida do Flamengo no Brasil inteiro no mundo, ela tá presente, está lhe acompanhando. Então, não tem como, a emoção só quem passou é quem vai saber. Você chega a arrepiar. Toda vez que você entra no Maracanã, não adianta dizer que está acostumado, qualquer jogo que você for que tiver lotado, que você entrar vestindo a camisa do Flamengo, você arrepia. Você pode ter certeza, por conta da pandemia os jogadores estão sentindo muito, porque quando a torcida tá presente é outra coisa totalmente diferente.

O POVO - E qual é a origem do apelido mago de aço?

Angelim - Surgiu no Fortaleza. Fortaleza é conhecido como Tricolor de Aço. Quando cheguei no Fortaleza, eu era muito magro, não pesava nem setenta quilos, mas mesmo assim sempre tive muita força. Então, quando eu trombava com os atacantes, eu acabava derrubando alguns com as trombadas. Daí vem o apelido, que foi colocado por um radialista, acho que foi o Júlio Sales.

O POVO - Qual a maior qualidade de um bom zagueiro?

Angelim - O zagueiro tem que ser rápido, ter uma boa antecipação, e não ter medo de sair jogando, mesmo fazendo a defesa. Eu nunca gostei de dar chutão não, só se fosse obrigado, meu negócio era sair pro jogo.

O POVO - E o maior defeito?

Angelim - São vários. Zagueiro lento, sem posicionamento, ruim de bola aérea. Hoje estão escolhendo o zagueiro pelo tamanho, mas isso é o que menos importa. Tem muito zagueiro grande por aí sem velocidade, mal posicionado, sem intensidade. Tamanho não é documento no futebol.

 

"Eu acho que poderia ter vestido a camisa da seleção pelo menos de uma vez, nem que fosse um amistoso, né?" Angelim fala sobre seu desejo em jogar na seleção

 

O POVO - Ao longo da carreira, você acha que sofreu alguma injustiça?

Angelim - Eu acho que poderia ter vestido a camisa da seleção pelo menos de uma vez, nem que fosse um amistoso, né? Pelo trabalho que eu fiz durante seis anos no Flamengo, poderia ter tido essa chance, mas também como já estava com uma certa idade, não questionei muito.

O POVO - Depois de tantos anos morando fora, por que resolveu retornar a Juazeiro do Norte?

Angelim - Ah, primeiro, minha família toda é daqui, de Juazeiro e da região do Cariri. Meus pais moram aqui, então não tinha porque eu tá morando longe da minha família, até porque eu acho que qualquer pessoa, sem família, ela tá tá sem nada. Você pode ter o dinheiro que for, mas se você não está bem estruturado com sua família, nada estará bem. Lógico que a gente sabe que o Rio de Janeiro e Fortaleza são duas metrópoles maravilhosas. Pra quem quer morar, pode ir, super indico, se eu não morasse aqui em Juazeiro moraria em uma das duas bem tranquilo, mas resolvi voltar por conta de minha família, que é daqui, a gente é nascido e criado aqui, e gosto das nossas raízes, da nossa terra.

O POVO - O que de mais importante você conquistou através do futebol?

Angelim - O reconhecimento de todo mundo, o respeito. Quando eu chego em qualquer lugar, eu sou muito bem recebido, muito bem reconhecido, não só pelo torcedor do Flamengo, do Fortaleza, do Ceará, mas a torcida no geral, no Brasil todo.

O POVO - A fama é passageira ou você ainda convive com ela até hoje?

Angelim - Eu não me considero um cara famoso, eu posso ser conhecido, mas famoso não. É tanto que dificilmente você vai me ver em programa de TV ou bombando em redes sociais.

Ronaldo Angelim coleciona troféus e medalhas em sua casa, em Juazeiro do Norte(Foto: Luciano Cesário)
Foto: Luciano Cesário Ronaldo Angelim coleciona troféus e medalhas em sua casa, em Juazeiro do Norte

O POVO - Recebeu convites para jogar fora do País?

Angelim - Recebi, mas na época não compensava, pelo menos o que me ofereceram, não era interessante para eu largar tudo aqui e ir.

O POVO - Quais foram as ofertas?

Angelim - De alguns clubes dos Emirados Árabes, mas nessa época eles não pagavam tanto quanto hoje. Era praticamente o que eu já ganhava aqui, só um pouquinho a mais, uma mixaria, como diz o cearense [risos].

O POVO - Temia algum atacante dentro das quatro linhas?

Angelim - Não, temia não, eu estudava. Estudava os atacantes. Quando a gente ia enfrentar um adversário, aí geralmente eu tinha um aparelhinho que gravava os jogos deles e eu ficava vendo em casa, qual era o lado que eles levavam mais, quais eram as jogadas que eles gostavam de fazer, principalmente os que caíam do meu lado.

O POVO - Quais eram os que mais te preocupavam como zagueiro?

Angelim - Eu tiro uma galera aí que eu não coloco em conta, porque são jogadores que foram monstros no futebol. Esses caras como Romário, como Adriano, como Ronaldinho, são caras que estão em outro patamar. Os normais, que eu encontrei dificuldade para marcar, foram Nilmar, do Internacional, quando ele estava na grande fase; Felipe, do Vasco, quando ele passou a jogar mais da meia pro ataque, jogador muito difícil de marcar; Neymar, quando surgiu no Santos; Robinho, peguei no auge... foram vários.

 

O POVO - Qual foi o seu maior aprendizado com o futebol?

Angelim - A disciplina. Foi uma coisa que aprendi muito e levarei para sempre, independentemente de estar no futebol ou não.

O POVO - O que o Angelim, ídolo do Flamengo, faz hoje em dia fora dos gramados?

Angelim - Particularmente, eu não faço nada da minha vida [risos]. Nada, nada, em termos de trabalho mesmo. Mas vamos lá, o que é que eu faço? Eu tenho três times. Tá parado por conta da pandemia, mas quando tá normal, a gente treina a semana todinha, por conta disso, eu tenho uma agenda cheia, porque o time feminino treina quase todo dia, a gente treina no CT, treina no meu campo e marca jogos nas cidades, participa de vários campeonatos. E eu tenho muitos eventos. Agora não, mas antes da pandemia, eu viajava mais do que quando eu jogava no Flamengo. Era evento demais. Ia visitar os consulados e as embaixadas das torcidas, para participar de lançamentos de uniformes, assistir aos jogos do Flamengo, jogar com eles [torcedores], muitas atividades. Então, posso dizer que ainda vivo o futebol 100%, e vivo do futebol, porque além de tudo que construí, também sou remunerado por cada evento desse. Sou muito grato a Deus, em primeiro lugar, e em segundo aos torcedores do Flamengo, por terem esse carinho todo especial comigo.

 

 

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