Reportagem Seriada

Do sonho do pai às artilharias mundo afora: a carreira do andarilho Wellington Paulista

Veterano camisa 9 do Fortaleza relembra trajetória pelos 16 clubes que defendeu na carreira, destaca momentos marcantes da trajetória e não descarta se aposentar no Fortaleza
Episódio 24

Do sonho do pai às artilharias mundo afora: a carreira do andarilho Wellington Paulista

Veterano camisa 9 do Fortaleza relembra trajetória pelos 16 clubes que defendeu na carreira, destaca momentos marcantes da trajetória e não descarta se aposentar no Fortaleza Episódio 24
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Os 20 anos de carreira profissional são recheados de memórias, clubes no currículo, conquistas, fracassos e, principalmente, gols. O veterano Wellington Pereira do Nascimento soma passagens por 16 equipes, experiências na Europa e muita história para contar sobre o mundo da bola. Jogador de futebol inspirado pelo sonho do pai, o atacante do Fortaleza cravou o nome entre os principais artilheiros do Brasil e não pensa em parar por aqui.

O paulistano de 38 anos se aventurou em outras profissões ainda jovem enquanto persistia em busca de uma oportunidade como atleta. Rodou por grandes times do futebol brasileiro, vivenciou a cultura da Inglaterra, marcou gol em pleno estádio do Barcelona, na Espanha, foi cogitado pela seleção brasileira e participou com sucesso da árdua e espinhosa reconstrução da Chapecoense-SC após o trágico acidente de avião em 2016 antes de desembarcar no Pici. No Tricolor, já balançou as redes 41 vezes, levantou quatro taças em três temporadas e não descarta se aposentar com a camisa do Leão. (Com Brenno Rebouças)

 

 

O POVO - Para conseguir se tornar jogador, você precisou fazer diversos testes nos clubes até ser aceito. Como foi esse processo?

Wellington Paulista - Aprovado não, fui reprovado em 16. Antigamente tinha muita "peneira", então, quando era moleque, pagava R$ 5 para fazer uma e tinham 500, 600 moleques para fazer junto. Como eu sou de São Paulo, fazia no Corinthians, Palmeiras, São Paulo, fiz no Santos também, Etti Jundiaí na época, XV de Piracicaba, Juventus - que foi onde eu comecei -, Nacional, Portuguesa... Resumindo, fiz peneira em todos os times de São Paulo e fui reprovado em 15. Na 16ª eu passei, no Juventus, e foi onde tudo começou.

OP - Antes de ser aprovado, você teve outras profissões também. Em quais áreas você trabalhou?

Wellington Paulista - (risos) Ah, a gente tenta de tudo quando não tem muito o que fazer. Já fui assistente do cara que coloca vidro, ajudei catador de sucata com meu irmão, até cobrança de cheque. As histórias mais engraçadas são de cobrança de cheque, que eu trabalhei três dias só e pedi demissão porque meu pai queria que eu continuasse a realizar meus sonhos. Não teve muito serviço que eu fiz, não, até porque eu era moleque ainda, meu pai queria que eu buscasse o sonho, que era ser jogador de futebol. O sonho não era só meu, na realidade, era dele, porque ele também foi jogador de futebol. Jogou no Noroeste de Bauru, quebrou as duas pernas jogando bola e, como, naquela época, meu avô não achava muito legal ser jogador de futebol, pediu para o meu pai continuar a trabalhar.

Meu pai é motorista de caminhão até hoje, então procurou sustentar a família da melhor maneira possível dirigindo caminhão. E, desde pequenininho, ele me levava para os lugares para jogar bola com ele e sempre sonhei em ser jogador de futebol. Quando eu vi que não estava conseguindo passar nas "peneiras", falei para ele que iria trabalhar. Trabalhei três dias nesse escritório de cobrança, só que eu lembro até hoje da frase que ele falou para mim. No primeiro dia, eu cheguei no horário certo para ir para a escola, 18 horas; no segundo dia, eu já tive que entrar na segunda aula porque cheguei atrasado; e no terceiro dia eu cheguei 21 horas porque teve muito serviço. Quando cheguei em casa, ele falou: "Eu te fiz para ser jogador de futebol, então você vai pedir demissão amanhã". E na hora eu falei: "Beleza" (risos).

Nem pensei duas vezes, liguei para o Ricardo, amigo nosso que tinha dado o emprego para mim, pedi demissão e na semana seguinte fiz a "peneira" no Juventus com 700 meninos. Três, quatro dias de "peneira", passei, e aconteceu tudo muito rápido. No outro dia já estava treinando com os meninos, viajei na sexta-feira, voltei na segunda-feira e ainda era o time B do juvenil do Juventus, não era nem o (time) que disputava o Campeonato Paulista. Fui para esse time B, fiz dois gols em dois jogos nessa viagem, daí voltei, me inscreveram no Campeonato Paulista e a coisa foi embora. Como já era final do ano e eu estava com 17 anos, no ano seguinte já fui para o juniores com contrato profissional e fui emprestado para o profissional do Mirassol. Em 2001 foi quando começou tudo mesmo, de verdade.

Wellington Paulista, atacante do Fortaleza, foi entrevistado para as Páginas Azuis do O POVO. 09/09/2021(Foto: Felipe Cruz / Fortaleza EC)
Foto: Felipe Cruz / Fortaleza EC Wellington Paulista, atacante do Fortaleza, foi entrevistado para as Páginas Azuis do O POVO. 09/09/2021

OP - Em qual momento você percebeu que conseguiria realizar o sonho de ser jogador de futebol?

Wellington Paulista - Por incrível que pareça, foi quando eu comecei a jogar mesmo, de verdade. Eu sempre tive esse sonho de ser jogador de futebol. Eu tinha muita expectativa, porque todo ano fazia duas, três "peneiras" para ver se eu passava, teve ano que eu fiz até mais. Meu pai me levava no parque do Piqueri, em São Paulo... Tinha o parque da Mooca, onde eu nasci, só que o Piqueri era muito maior, em frente ao Corinthians, e ele me dava treinos físicos para que eu pudesse estar bem fisicamente para fazer uma "peneira". Ele falava sempre: "Você tem que estar bem fisicamente porque os moleques vão lá só por ir e você tem que ir para passar", e eu fazia muito treino com meu pai, físico, técnico e tático, para que pudesse me dar bem. Só que era muita gente, era muito difícil o pessoal olhar do jeito que a gente queria, só se fizesse uma coisa muito mirabolante nos jogos.

Quando eu comecei a jogar mesmo, que eu passei na "peneira" e viajei para Birigui com o time B, eu pensei: "É daqui para cima. Eu não vou dar mais um passo para trás agora. Daqui é só coisa grande e não importa o time que eu esteja, eu quero jogar e fazer gol".

E eu não era centroavante, eu era meia. Nas "peneiras", eu era meia, ponta-direita, ponta-esquerda, nunca joguei de centroavante. No futebol de salão eu também não era pivô, era fixo, então eu gostava de marcar e chutar no gol. Meu negócio era chutar no gol (risos). Aí, eu achava que tinha de jogar de meia, então comecei como meia. Já no time B do Juventus, o treinador me colocou de centroavante. Eu fiz dois gols de cabeça em escanteio, e ele me botou de centroavante e falou: "Você gosta de entrar na área? Então vou botar você de centroavante". Aí foi embora, virei centroavante mesmo

O atacante Wellington Paulista, do Fortaleza, recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19(Foto: Reprodução/Twitter/Fortaleza EC)
Foto: Reprodução/Twitter/Fortaleza EC O atacante Wellington Paulista, do Fortaleza, recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19

OP - O primeiro grande clube brasileiro no qual você atuou foi o Santos-SP e a estreia foi justamente contra o Fortaleza, correto?

Wellington Paulista - Verdade, no Bruno José Daniel (em Santo André). Eu nem sei por que nós não jogamos na Vila Belmiro, até porque era o meu primeiro jogo e nem sabia o que estava acontecendo, só estava feliz de estar estreando com a camisa do Santos. E foi contra o Fortaleza. Quando eu cheguei aqui, falei para todo mundo.

OP - Depois do Santos-SP, você foi para o Alavés, da Espanha, e fez até gol contra o Barcelona...

Wellington Paulista - (risos) Isso é verdade. Para falar a verdade, o que mais me motivou a ir para a Espanha... Porque eu queria ter ficado no Santos, na época, só que já tinham feito a negociação, estava tudo meio que resolvido já. O que me motivou também foi o primeiro jogo da Copa do Rei, que era contra o Barcelona. Não consegui chegar para o primeiro jogo, que foi no estádio do Alavés, mas depois, no Camp Nou, consegui jogar. Fiz um belo gol lá. Para a gente que era moleque e tinha sonhos de pegar um time grande, jogar na Europa, jogar contra grandes equipes... Meu primeiro jogo na Europa foi já contra o Barcelona e fazendo gol no Camp Nou com 95 mil pessoas. Imagina a felicidade que eu estava depois (risos).

OP - De volta da Europa, você foi para o Botafogo-RJ e acabou tendo muito sucesso naquele time. Por que voltou e como foi aquele período?

Wellington Paulista - Na realidade, a volta para o Brasil foi só um caso: minha mãe. Minha mãe, na época, estava com câncer, e eu fiquei preocupado. Eu tinha quatro anos (de contrato) no Alavés ainda, mais quatro anos para ficar na Europa. Minha irmã ligou falando que a minha mãe estava com câncer, não tinha falado para ninguém e estava indo para o hospital carregada pelo meu pai porque estava com uma trombose na perna. E não falou para ninguém, simplesmente ela aceitou a situação. Eu fiquei muito preocupado, então preferi voltar para o Brasil para tentar ajudar a minha mãe da melhor maneira possível, sei lá, financeiramente em alguma coisa que pudesse ajudar ou estar perto dela para tentar que ela pudesse se recuperar o mais rápido.

Assim que eu falei com meu empresário, na época, o Botafogo já se interessou na hora. E acabou dando tudo certo porque o Botafogo era um time bem estruturado, muito bem montado, um excelente treinador, que era o Cuca, com grandes jogadores, tanto os que estavam no ano anterior quanto os que chegaram depois, e acabou dando tudo certo. A gente montou um excelente time, as oportunidades foram saindo naturalmente, fui fazendo os gols, virando artilheiro e acabei tendo destaque para ir para o Cruzeiro no ano seguinte. Também tinha mais quatro anos no Botafogo, mas nos últimos quatro meses não estavam pagando, aí saiu o time todo, ficaram só três jogadores no elenco para o ano seguinte, e eu fui para o Cruzeiro. Daí começou uma história legal também, com vitórias, gols, títulos. Ali foi legal também, bacana demais.

OP - A passagem pelo Cruzeiro-MG, com quatro temporadas, gols importantes e conquistas, foi o seu auge na carreira?

Wellington Paulista - Todo mundo acha que lá foi o auge também pela Libertadores, que a gente chegou (à final), por conquistas que a gente teve, o grande número de gols que eu fiz no Cruzeiro. Era uma grande equipe, não tem nem o que discutir. E foi muito tempo, então acaba todo mundo associando ao tanto de gols que eu marquei e à história que eu fiz. Foi importante por tudo que a gente conquistou no clube, que é grande, com uma excelente estrutura, bastantes pessoas legais que trabalham lá. Foi importante para que eu pudesse dar uma sequência na minha carreira.

 

 

OP - Além da Espanha, você também passou pelo futebol europeu na Inglaterra, no West Ham. Por que foi tão breve?

Wellington Paulista - Acabou que não foi tão longa porque assim que eu cheguei já me colocaram logo no time B, então acabei não tendo nenhum jogo no (time) principal. Eu ia para todos os jogos no banco, acabava o jogo, na segunda-feira eu já tinha que descer para jogar no sub-21. Vi vários jogadores porque ficava no banco em todos os jogos, só via os caras jogar e não podia entrar. Cheguei lá com um nome legal, porque tinha feito 30 gols no Brasil em 2012, muita coisa legal pelo Cruzeiro, então estava com uma expectativa boa de jogar também, só que aí o treinador, na primeira semana, já falou na minha cara que eu não iria jogar, ia ficar só no time B. Até perguntei o motivo, e ele falou: "Eu contratei você para o time B", e eu não sabia, né? Eu achava que tinha sido contratado para jogar no principal.

São coisas do futebol que acontecem, não tem muito como lutar contra isso. Só respeitar e trabalhar. Graças a Deus fui bem no time B, consegui fazer sete gols, o time foi campeão. A minha parte como trabalhador eu fiz: trabalhei, fiquei treinando onde tinha que treinar, joguei onde tinha que jogar e voltei. Não tinha o que fazer, eram só seis meses de contrato. Eles só iriam ter opção de compra se eu tivesse jogado e ido bem. Fiquei feliz mais pela experiência: conheci um país novo, uma cultura diferente, voltei muito mais educado tecnicamente e taticamente para jogar, então foi um aprendizado legal para mim.

OP - Você também se recusou a ir para uma viagem após chegar ao clube?

Wellington Paulista - Teve, teve isso sim. Mas ele (treinador) que sugeriu que eu ficasse para poder fazer a parte física. Eu estava já há um mês de férias, aqui no Brasil era férias. Eu falei para ele que estava parado há um mês, e eles não estavam em pré-temporada, só foram fazer dois jogos em um torneio curto. E ele falou: "Se você quiser ficar aqui para treinar, está frio, mas pode ficar". E eu falei: "Está bom, beleza, não tem problema nenhum". Fiquei, porque também eu não iria para lá para jogar, ia só fazer (treino) físico. E ele falou que eu tinha que treinar a parte física, parte de força, um monte de coisa. Treinei 10 ou 15 dias sem eles.

Quando voltaram, me reintegraram, continuei treinando com eles normal, só que ele, até então, ele não tinha falado que eu ia jogar no time sub-21. Eu ia para jogo, aí ele falava: "Desce para jogar". E eu ia, porque não era só eu que descia, eram muitos jogadores mais velhos e experientes, que estavam voltando de lesão e desciam para jogar também. Eu achava que era normal isso, natural. Aí, depois, eles me deixaram só lá. Eu ia para jogo e depois jogava embaixo, ia para jogo no principal e jogava no sub-21. Acabei acostumando.

 

"Ali eu aprendi a ser homem, mais responsável dentro e fora de campo, aprendi muita coisa na Chapecoense. Quando eu cheguei, a cidade inteira estava devastada pelo que tinha acontecido"

 

OP - Na volta ao Brasil, em um curto período, você trocou bastante de clube. Foi opção sua ou circunstâncias de momento?

Wellington Paulista - Na realidade, isso foi tudo venda. Eu cheguei no Criciúma já com o Inter querendo me contratar, aí o Criciúma não me liberou, falou que eu só iria no final do ano e estipulou uma meta de gols que se eu fizesse iria para o Inter. Fiz os gols que eles falaram, 11 gols, e fui para o Inter. No Inter, acabei não jogando, fiquei na reserva quase o ano todo, mas ainda fiz alguns golzinhos. No final da temporada, chegou o Aguirre, aí fui para o Coritiba. Joguei três meses no Coritiba e fui vendido para o Fluminense. Do Fluminense fui emprestado para a Ponte Preta e da Ponte Preta já fui para a Chapecoense. Fiquei quase três anos lá e depois vim para o Fortaleza. Mas a maioria desses lugares foi venda, um empréstimo, nada que eu decidi: "Ah, quero ir embora". Foram coisas boas que aconteceram.

OP - Em 2017, em um dos principais momentos da carreira, você participou da reconstrução da Chapecoense após o acidente aéreo. Como foi aquela experiência?

Wellington Paulista - Bom, ali foi meio que um ápice profissional para mim, na realidade. Ali eu aprendi a ser homem, mais responsável dentro e fora de campo, aprendi muita coisa na Chapecoense. Quando eu cheguei, a cidade inteira estava devastada pelo que tinha acontecido. E eu fui o quarto jogador a chegar, estávamos eu, (Douglas) Grolli, Nenê e o Moisés Ribeiro. Na chegada, me falaram: "Você tem que ficar esperto porque a cidade inteira está devastada e a gente vai ter que fazer uma reconstrução não só de jogos, mas sim da cidade inteira, porque está todo mundo chorando". Qualquer matéria que aparecia, qualquer símbolo da Chapecoense que aparecia, a torcida chorava.

Foi legal porque foram momentos marcantes. Nos primeiros três meses, no Campeonato Catarinense, a gente foi campeão e ninguém imaginava. Chegaram 35 jogadores do nada e já me deram a incumbência de ser capitão logo no começo, ter que guiá-los da melhor forma possível, mas também não botar uma responsabilidade tão grande nas costas dos meninos. Para ter uma diversão, um momento de descontração, mas ter a responsabilidade e saber o quão importante era aquele momento para nós. Lógico que tinham momentos de brincadeira e descontração, mas eu pedia para eles que continuassem com isso dentro do clube, na parte mais interna. Quando fosse externar alguma coisa, viagem ou treinamento com público, que a gente levasse um pouquinho mais a sério, porque o torcedor em si não sabe. Eles estava muito sentidos pelo que tinha acontecido; nós, que viemos de fora, não sabíamos como estava a cidade.

A gente chegou lá e estava tudo devastado, de verdade. Tanto que quando eu cheguei, no primeiro exame médico que fui fazer, um menininho de 4, 5, anos, sei lá, me perguntou: "Você é o Wellington Paulista, né? Você é carequinha" (risos). Aí eu falei: "Sou eu, sim". "Você vai fazer muito gol aqui?", e eu falei assim: "Espero que sim". Então ele falou: "Honra a camisa do Bruno Rangel para mim". Aí eu falei: "Caramba...". Foi difícil, porque o Bruno Rangel tem uma história muito grande na Chapecoense, é o maior ídolo e maior artilheiro da Chapecoense. Eu estava com essa incumbência também, mas não queria substituí-lo, queria fazer o meu papel para poder fazer o melhor para a cidade e para o clube, e não substituí-lo porque não tem como substituir um cara desses.

Eu fui colocando na cabeça dos torcedores e dos jogadores para que eles pudessem ter consciência disso também, de que a gente não tinha que substituir os que foram embora, tinha que fazer o nosso papel, jogar, tentar fazer o melhor possível para deixar todo mundo feliz e o clube ser campeão, fazer coisas boas. Mas, consequentemente, você acaba sendo comparado com o número da camisa que estava usando. Foi bem complicado, mas também foi uma responsabilidade legal, porque a gente foi campeão catarinense em três meses e no Campeonato Brasileiro a gente conquistou uma vaga na Libertadores inédita e foi campeão do segundo turno, ganhando um troféu. Imagina, com um time que foi devastado, uma cidade inteira que foi devastada, chega no final do ano com conquistas maravilhosas.

Os destroços do avião fretado da LAMIA Airlines transportando membros do time de futebol Chapecoense são vistos após a queda na serra de Cerro Gordo, município de La Union, em 29 de novembro de 2016. Um avião fretado que transportava a seleção brasileira de futebol caiu nas montanhas da Colômbia na noite de segunda-feira, matando até 75 pessoas, disseram as autoridades. / AFP FOTO / Raul ARBOLEDA(Foto: Raul ARBOLEDA / AFP)
Foto: Raul ARBOLEDA / AFP Os destroços do avião fretado da LAMIA Airlines transportando membros do time de futebol Chapecoense são vistos após a queda na serra de Cerro Gordo, município de La Union, em 29 de novembro de 2016. Um avião fretado que transportava a seleção brasileira de futebol caiu nas montanhas da Colômbia na noite de segunda-feira, matando até 75 pessoas, disseram as autoridades. / AFP FOTO / Raul ARBOLEDA

OP - Vestir a camisa da Chapecoense naquele momento foi o maior desafio da sua carreira?

Wellington Paulista - Foi. Já na primeira semana, quando aconteceu o acidente, eu estava com a minha filha em São Paulo, e ela falou: "Papai, eu não quero mais viajar de avião" (risos). Eu falei: "O que foi, filha, por quê?", e ela: "Não, o time da Chapecoense derrubou o avião". Aí eu disse: "Não, não foi o time da Chapecoense que derrubou o avião, o avião caiu com o time dentro. Quem errou foi o piloto", e ela: "Você é jogador de futebol", aí eu disse: "Não, nada a ver". Para botar na cabeça dela que não era o time que era errado, ela achava que eu ia cair com o avião.

Só que, antes de chegar proposta, ela falou: "Papai, eu quero que você vá para a Chapecoense para ajudar". Eu falei: "O papai quer. Se chegar proposta, o papai até vai". E ela falou assim: "Eu quero, mas você vai de ônibus?" (risos). Aí eu falei: "Está bom, eu vou de ônibus". Ela: "É, você vai lá para ajudar eles, mas vai de ônibus". Ela nem sabe que eu fui de avião, na época nem falei para ela. Mas aí fui.

A responsabilidade era gigantesca. Eu lembro que, no primeiro jogo, que foi contra o Palmeiras, que teve aquela repercussão toda, com as famílias lá, eu saí do vestiário de mão dada com a minha filha... Meu pai tinha um motorhome, minha filha queria ir para o primeiro jogo, e meu pai teve que levar minha filha de motorhome, 11 horas de carro e ela foi as 11 horas de carro, mas não foi de avião. As primeiras vezes foram bem complicadas para ela entrar no avião. Eu estava de mão dada com ela para entrar e campo e assim que saí do vestiário...

Lá, o pessoal da imprensa fica de frente para o vestiário, tipo uma zona mista. Aí, algumas pessoas das famílias estavam ali, em pé. Assim que eu saí, fui um dos primeiros a ir para o campo, uma mulher me esticou a mão, como se fosse me cumprimentar. Assim que ela esticou, eu falei: "Opa, tudo bom? Prazer". Ela falou: "Posso te falar uma coisa?", e eu disse: "Pode, claro". Ela falou assim: "Honra essa camisa para mim". "Claro, claro, com certeza, vou honrar assim"; "meu marido lutou muito por ela". Aí eu falei: "Vixe...". Já entrei no campo chorando, ela chorando, apertou minha mão e deu um abraço. Minha filha perguntou o que era, e eu falei: "Não, filha, caiu um cisco no olho do papai" (risos).

Foi complicado demais. E praticamente nos primeiros meses eram quase todos os jogos assim, algum familiar ia lá e a gente entrava em campo chorando, porque era sempre muito emocionante. Quando dava o minuto 61, todo mundo parava o jogo para bater palma. O jogos não eram com cântico de torcida, era todo mundo vendo o jogo. Não tinha mais aquela alegria de ver futebol, todo mundo estava ali porque tinha que estar. Acho que o torcedor pensava: "Vou para o jogo porque sou Chapecoense". Mas a gente foi mudando isso. Eu até comentei com os meninos (jogadores): "Já que o pessoal não está festejando com a gente, a gente vai festejar com eles, trazer eles de volta para o âmbito do futebol", de vibrar, torcer, festejar. Então a cada gol que fazia, a gente ia na arquibancada, pulava atrás do gol e trazia o torcedor de volta, pedia para os torcedores cantarem mais.

Acabou que eles começaram a nos abraçar para que a gente pudesse motivar dentro de campo, e a gente motivava de dentro para fora. Acabou que deu tudo certo. Quando a gente foi campeão foi que a cidade meio que acordou. Acho que eles pensaram que a ferida cicatrizou. A partir do momento que a gente foi campeão catarinense, em todos os jogos começaram cânticos, xingamentos, porque isso é natural do torcedor também. Antes disso, a gente perdia a bola, perdia gol, tomava gol e o torcedor não reclamava. Era muito estranho para a gente, que está acostumado com torcedor. Torcedor é muito louco: vibra, xinga, canta, aplaude, tudo na mesma hora. E lá não estava desse jeito, mas depois que a gente foi campeão catarinense, mudou a chave. Foi bem bacana. 

 

 

OP - Você saiu de um clube onde tinha bastante identificação e veio para o Fortaleza. O que motivou essa decisão?

Wellington Paulista - O meu maior medo quando vim para cá era o calor. De verdade. Eu nunca tinha vindo jogar no Nordeste por causa do calor, eu achava que não ia conseguir. Sempre que eu vinha jogar contra algum time do Nordeste, Nossa Senhora... Sofrido jogar aqui, era impressionante. Eu estava sempre lá para o Sul e Sudeste, pegava muito frio e vinha para o calor. A gente passava um apuro incrível aqui. Então o meu maior medo era o calor, como eu ia me adaptar.

O jogo Fortaleza e Bahia, que foi 2 a 2, pela Copa do Nordeste, eu assisti em casa. Estávamos eu e minha esposa em casa, e eu falei: "O time do Fortaleza está arrumadinho, toque de bola legal, envolvente, pessoal rápido na frente. Seria legal jogar em um time assim, né?". Acabou o jogo, sem brincadeira nenhuma, o Rogério Ceni me ligou. Eu olhei para ela e falei: "É o Rogério Ceni. E agora?", aí ela disse: "Atende". "Oi, alô", aí ele: "Oi, Wellington, tudo bem? Sou eu", porque ele tinha mandado mensagem: "Wellington, posso te ligar?", e eu tinha dito: "Pode". Ele já me ligou na sequência. "Oi, Rogério, tudo bem?", "Tudo... O que você acha de vir para cá?". Eu falei: "Pô, estava vendo seu jogo agora". "O que você achou?"; "gostei muito do seu time". Aí, ele perguntou: "Quer vir", e eu falei: "Na hora". Aí eu falei: "Como é que faz?", "vou falar com o pessoal, Papellin e Marcelo Paz, e você resolve com eles".

No dia seguinte, já cheguei na Chapecoense falando que queria ir embora para vir para cá. Aqui não foi difícil porque o time estava montadinho, certinho, totalmente entrosado. Cheguei, o Júnior Santos estava fazendo gol, o Rogério me colocou um pouquinho mais atrás, como meia, para que eu pudesse ajudar o Júnior Santos, e fui me adaptando aos meninos. Um time muito rápido, com um calor intenso, lógico, mas acabei me acostumando rapidamente porque também sempre me cuidei fisicamente. Foi bem legal, favorável, porque também o time ajudou, as coisas foram fluindo naturalmente. Vieram os títulos, do Cearense, logo que eu cheguei, e da Copa do Nordeste. Foi legal porque o time estava bem montadinho, qualquer jogador que chegasse naquela época ia desenvolver o melhor trabalho.

OP - Você citou um personagem que desperta muita curiosidade no futebol, que é o Rogério Ceni. Afinal, como é trabalhar com ele?

Wellington Paulista - O trabalho de campo do Rogério é um dos melhores que eu já trabalhei. Isso eu já falei antigamente e não tem como esconder de ninguém. O trabalho de campo é muito bom, até porque você vê os resultados que ele conquistou. Muita gente fala dele porque é um cara bem rigoroso, bem enérgico. Qualquer um que não é muito acostumado com bronca, xingamentos, acaba se assustando porque ele é bem diferente de outros treinadores nesse sentido. A gente acabou se acostumando rápido. Antes de chegar aqui, já me falaram como ele era, que eu não ficasse assustado, então já cheguei sabendo. Todo mundo que vinha para cá, a gente avisava: "Cuidado com os xingamentos, não vai ficar chateado, não vai ficar triste porque isso é normal". E ele xingava no dia a dia, no treinamento, mas depois não falava nada, era bem tranquilo fora de campo. O trabalho de campo dele é excelente. A única coisa que todo mundo acha que ele pecava era nessa parte de ser rigoroso, e a gente sabe como funciona no futebol.

 

"O mais importante disso tudo é saber se cuidar, porque a gente chega em uma certa idade que o corpo também não responde tanto quanto antigamente... então tem que cortar caminho, buscar outros meios para fazer a melhor jogada"

 

OP - Ao contrário de outros ex-jogadores, você consegue manter bom desempenho aos 38 em uma Série A. Qual é o segredo?

Wellington Paulista - Acho que me cuidar. O mais importante disso tudo é saber se cuidar, porque a gente chega em uma certa idade que o corpo também não responde tanto quanto antigamente. Você corria os dois tempos do jogo e corria bem, ainda queria jogar outro jogo se pudesse. Hoje em dia, a gente não está mais com essa força que tinha antigamente, com a velocidade, então tem que cortar caminho, buscar outros meios para fazer a melhor jogada, o melhor passe, melhores triangulação com os companheiros. O mais importante é estar se ajudando, correndo dentro de campo para ajudar os companheiros. Os gols saem naturalmente, as jogadas saem naturalmente porque você vai trabalhando e ajudando dentro de campo.

OP - Você atingiu um nível de maturidade na carreira em que não se preocupa mais em ser o protagonista da equipe?

Wellington Paulista - Da Chapecoense para cá veio essa maturidade. Você tem que saber que ninguém ganha jogo sozinho, ninguém ganha jogo achando que é a estrela do time. O mais importante é saber que todo mundo tem que se ajudar. Eu preciso dos meias, dos volantes, dos laterais, até mesmo dos zagueiros já recebi passe para fazer gol. Você nunca vai fazer gol pegando a bola lá da zaga e arrastando todo mundo, que nem faz o Neymar e outros jogadores com qualidade para isso. A minha função é fazer gol, mas eu preciso dos meus companheiros para isso. Então eu ajudo eles da melhor maneira possível, que é na marcação, correndo, me dedicando, para que eles possam ter opção de me colocar na cara do gol. Hoje eu não tenho mais a força que tinha antigamente, de sair arrastando para poder driblar e chutar, eu preciso de um companheiro melhor colocado que me coloque na cara do gol e eu consiga fazer o gol.

OP - Você pode entrar no top-20 de artilheiros da história do Fortaleza e é o quarto maior goleador do Brasileirão por pontos corridos. O que esses números representam?

Wellington Paulista - Eu nem imaginava. Esses números assim, eu nem imaginava, de verdade. Os gols do Brasileirão, muita gente comenta comigo, fala sobre esses gols, mas nem em sonho eu imaginava chegar a tantos gols assim. Eu só queria estar jogando. Desde moleque, eu só queria jogar. Eu não era centroavante, era meia, então só queria estar dentro de campo e ajudando meus companheiros. Depois que eu comecei a fazer gol, comecei a gostar disso, de estar sempre na cara do gol, mas também nunca foi uma prioridade. Se eu acabar o jogo jogando bem, nunca fui de ficar triste porque não fiz gol. Hoje, se eu acabar o jogo dando passe para gol, para mim é muito legal. Essa maturidade que eu consegui com o decorrer dos anos foi importante para que eu não tivesse tanta responsabilidade, de ter o peso nas minhas costas de ser o homem-gol e ficar preocupado, triste se ganha jogo e não faz gol. Já tiveram jogos que nós ganhamos de cinco, seis, eu não fiz gol e dei passe para dois gols, acabei feliz. O mais importante hoje é estar buscando a vitória, coisas grandes para o Fortaleza. É isso que eu tenho em mente.

OP - Pelo estilo da cobrança e pela eficiência, você acabou se destacando como bater de pênalti. Tem segredo nos treinos?

Wellington Paulista - Bom, pênalti é sorte na hora mesmo. Antigamente eu batia diferente, hoje que eu mudei um pouquinho a forma de bater. A responsabilidade toda é do batedor, esse que é o problema para a gente que está batendo. O goleiro, não, escolhe um canto e pula. Se pegar, pegou; se não pegar, não é responsabilidade dele. É por isso que a cobrança é tão grande em cima da gente. Eu batia de uma forma diferente, acabei perdendo (cobranças) esse ano e depois mudei um pouco a característica de bater. E está dando certo. Enquanto estiver batendo e dando certo, fazendo gol, vai que vai. Depois, se perder de novo, muda de novo. A gente vai tentando, eu vou conversando com os goleiros para saber onde é o melhor lugar para bater, a forma melhor para bater. Eu converso bastante com o Felipe (Alves), (Marcelo) Boeck e Max (Walef, goleiros do Fortaleza), eles me ajudam bastante nesse sentido. Isso é normal. Quando você perde um pênalti, acaba mudando a forma de bater porque perde um pouquinho a confiança.

Atacante Wellington Paulista cobra pênalti no jogo Fortaleza x Coritiba, na Arena Castelão, pelo Campeonato Brasileiro Série A(Foto: Bruno Oliveira/Fortaleza EC)
Foto: Bruno Oliveira/Fortaleza EC Atacante Wellington Paulista cobra pênalti no jogo Fortaleza x Coritiba, na Arena Castelão, pelo Campeonato Brasileiro Série A

OP - As selfies acabaram virando marca registrada na comemoração dos seus gols. Como surgiu a ideia?

Wellington Paulista - Sobre a selfie, acho que foi na final da Copa do Nordeste, que eu tinha feito meu primeiro gol com a camisa do Fortaleza e queria botar os meninos que estavam no banco para poder comemorar com a gente. Eles estavam pertinho do gol, e eu fui para tirar uma foto e colocar todos eles na selfie. Acabou virando marca registrada.

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