
A economia do País é algo que afeta a todos em qualquer tempo, já que mexe diretamente no modo de viver das pessoas.
Neste sentido, o servidor público de carreira, Dyogo Oliveira, escolheu ser economista por ter a lembrança da adolescência de uma hiperinflação que assolava o País.
Hoje, com 47 anos de vida, o tocantinense de nascimento e maranhense de coração traçou o seu caminho profissional chegando a ser ministro do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão no governo Temer (maio de 2016 até abril de 2018), tendo como marcas da sua gestão a criação do polêmico teto de gastos, hoje em fase de substituição pelo novo arcabouço fiscal já aprovado na Câmara dos Deputados.
Além disso, participou da criação dos programas Minha Casa, Minha Vida e o de Aceleração do Crescimento (PAC).
Ele é defensor de políticas sociais e de redistribuição de renda, inclusive para que setor de seguros possa crescer, setor no qual ele está inserido, sendo atual diretor-presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg).
Pai de três filhos e avô de um casal de netos, fala, pela primeira vez, da sua relação próxima com a família, mesmo tendo uma vida pública, e deseja, para as próximas gerações, que os problemas econômicos do Brasil, que segundo ele dependem só do País para serem resolvidos, não sejam mais pauta daqui a alguns anos.

O POVO - Como o senhor avalia o mercado atual de seguros no Brasil e no mundo? Como ele se comporta nesse período pós-pandemia?
Dyogo - É um momento muito dinâmico do mercado de seguros no mundo inteiro. É um período que está tendo muitas inovações, lançamentos de produtos, desenvolvimento de novos canais de distribuição, principalmente pelo meio digital.
No Brasil, em particular, tivemos depois da abertura do mercado de seguros no Brasil, a entrada de muitas empresas estrangeiras e a criação de novas empresas brasileiras. Hoje, temos 130 empresas de seguros operando no Brasil.
"No ano passado, por exemplo, o mercado de seguros cresceu 16%"
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Então, o nosso mercado é muito competitivo, é muito inovador e muitas novidades ainda estão surgindo. É também um período de crescimento do mercado, já que temos crescido acima do PIB, nos últimos vinte anos, permanentemente.
No ano passado, por exemplo, o mercado de seguros cresceu 16%. Então, é um momento muito positivo do mercado e claro, tem também, grandes desafios.
Um deles é o de se adaptar às mudanças climáticas, porque tem o aumento de ocorrência de eventos graves, como secas, enchentes, inundações e isso impacta na produção.
Então, afeta, por exemplo, o seguro rural, impacta nas propriedades, então tem efeito no seguro residencial, por exemplo. Resumindo, é um momento muito otimista do mercado e também de grandes desafios.
O POVO - Como o senhor avalia as possibilidades do mercado brasileiro a partir do novo governo do presidente Lula? No que ele impacta o setor de seguros?
Dyogo - O mercado de seguros é pouco afetado pela questão política, porque é um mercado bastante consolidado e que presta um serviço à sociedade, que tem um grande valor, então as mudanças políticas afetam pouco.
Mas é claro que a gente sempre torce muito para que as políticas governamentais deem certo, que o País cresça, que tenha aumento da renda, principalmente, porque isso é o que mais afeta o crescimento setor dos seguros.
O seguro é muito dependente da renda disponível da população. Então torcemos muito para que o governo acerte nas suas políticas econômicas e também nas políticas sociais, e de desenvolvimento, na medida em que isso traz efeitos positivos para a indústria de seguros também.
O POVO - Um dos seguros mais conhecidos no Brasil é o DPVAT. Ele, realmente, é o grande gargalo do setor? Como o senhor avalia a política atual?
Dyogo - Nós temos, no Brasil, 300 mil feridos graves em acidentes de trânsito por ano, e mais ou menos 30 mil mortes. Então, o DPVAT não é um produto, digamos assim, relevante para a indústria de seguros como um todo. Ele representa menos de 1% da indústria de seguros.
A importância que a gente dá ao DPVAT não é pelo lado econômico, mas sim pelo lado social. O Brasil tem um dos melhores programas de seguro de acidentes de trânsito do mundo.
É um produto que tem cobertura universal, que a pessoa mesmo que não tenha pago o DPVAT tem direito a indenização, mesmo que o veículo que provocou o acidente não seja identificado, a pessoa tem direito a indenização.
Então, o seguro de acidentes de trânsito é uma ferramenta social importante e é por esse lado que a gente vê a necessidade de que seja restabelecido o sistema, eventualmente com mudanças em termos de gestão.
"Sobre o DPVAT, estamos sempre chamando muita atenção para essa questão do papel social, porque o produto em si não gera uma receita muito elevada e relevante para a indústria"
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A nossa proposição é que seja um sistema aberto e que qualquer seguradora possa concorrer e possa oferecer o produto ao cidadão de modo que a gente vai ter competição no mercado e isso vai fazer com que o custo seja cada vez menor e mais acessível para população.
Porém, sobre o DPVAT, estamos sempre chamando muita atenção para essa questão do papel social, porque o produto em si não gera uma receita muito elevada e relevante para a indústria.
O POVO - E nesse cenário atual, como o senhor avalia que pode contribuir para o setor de seguros, levando em conta a sua experiência como ex-ministro e ex-presidente de outros órgãos?
Dyogo - Estou apaixonado pela indústria de seguros. É uma indústria que realmente gera benefícios para sociedade, agrega valor, viabiliza negócios, que ajuda a estabilizar a vida financeira e o patrimônio das pessoas e que realmente traz benefícios, que gera melhoria da qualidade de vida da população.
E, isso é muito coerente com a minha trajetória pública, que sempre foi preocupada com essas questões de desenvolvimento do País, de qualidade de vida da população, de desenvolvimento econômico social.
A indústria de seguros tem todos esses valores e acima de tudo tem um padrão ético, muito elevado, políticas de relacionamento com o consumidor muito elevadas.
Hoje, dos grandes setores da economia, o seguro é um dos que têm menos problemas relativos ao consumo. Então, assim, estou muito feliz, hoje, de estar participando e podendo colaborar com a indústria de seguros.
O POVO - O senhor foi ministro do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão do governo Michel Temer. Gostaria de voltar para este período e relembrar como foi receber este convite?
Dyogo - Sou servidor público de carreira, fiz concurso em 1998 e entrei no governo. Naquela época, sem nenhum cargo de direção e fui subindo degrau por degrau.
Ocupei todos os cargos possíveis dentro da hierarquia, tinha sido secretário executivo do Ministério do Planejamento, do Ministério da Fazenda, e em 2016 estava de volta no Ministério do Planejamento, quando assumi como ministro.
Então, foi uma carreira sólida, consolidada durante vinte anos e que chegou ao ápice naquele momento.
"Atualmente, apesar do Brasil continuar tendo déficit, a economia está muito mais estabilizada"
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O POVO - E quais eram os desafios na gestão brasileira daquele contexto?
Dyogo - Era um momento muito diferente do que a gente tem hoje. A gente vinha saindo de um processo de crise econômica, política e social muito grave, a partir de 2014, 2015, que ao final culminaram com um impeachment e a economia brasileira, naquele momento, sofria uma recessão.
Para se ter uma ideia, naquele trimestre que assumi o Ministério, a economia estava caindo 5,6%. Foi um grande desafio. O déficit público vinha aumentando a cada ano e o nosso grande desafio era estabilizar a economia brasileira.
A inflação, também naquela época, já estava um pouquinho acima de 10%. Para aquele ano, estimava-se um déficit público de R$ 139 bilhões, que para a época era, realmente, bastante elevado. Então, os desafios daquele momento eram bem distintos dos de hoje.
Atualmente, apesar de o Brasil continuar tendo déficit, a economia está muito mais estabilizada do que estava, e os desafios de hoje são mais de como encaminhar, na rota do desenvolvimento do País, as políticas que nos levarão a taxas mais elevadas de crescimento.
Naquele momento, a gente precisou fazer um ajuste duro na economia e recolocar, digamos assim, a economia brasileira em uma situação que permitisse a retomada do crescimento. A gente teve que tomar medidas com cortes de gastos, com aumentos de tributos.
Foi um período bastante duro, desafiador, mas que ao final conseguimos reverter aquela recessão e, já em 2017, tivemos 1% de crescimento.
O POVO - Há algumas medidas que foram peças-chave para essa virada de chave na recessão daquele período?
Dyogo - Foi um conjunto bem-sucedido de políticas. Estabelecemos o teto de gastos, propusemos a reforma da previdência, reformamos vários outros programas sociais e de investimento. Então, assim, foi um período de bastantes desafios e dificuldades, mas que produziu muitos efeitos.
Foi um período que realmente permitiu que a economia brasileira voltasse a olhar para frente com uma estratégia de crescimento e, hoje, estamos aí nesse ponto, de olhar para frente ao invés de ter que resolver problemas do passado.
O POVO - O senhor criou o teto de gastos e, nas últimas eleições, essa medida foi muito falada e, até mesmo criticada pelas campanhas dos candidatos à Presidência da República. Como avalia as críticas recebidas e esse novo arcabouço fiscal proposto pelo governo atual?
Dyogo - Cada política econômica tem uma equação temporal também. Naquele momento, não tenho a menor dúvida que a melhor opção para o País era o estabelecimento do teto de gastos, porque era uma medida simples, fácil de comunicar, como eu disse, nós estávamos em um momento de crise, a gente precisava ter respostas rápidas.
"o arcabouço como está sendo chamado, na verdade, não é uma medida, mas sim um conjunto de regras que puderam atentar para várias necessidades também da sociedade brasileira"
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Por isso, uma política mais complexa, como foi apresentada agora no arcabouço fiscal, seria muito difícil de produzir o efeito que nós almejávamos naquele momento. Hoje, vejo a situação fiscal do País com muito mais parcimônia e, realmente, não vejo o País com uma grande crise fiscal à vista.
Pelo contrário, acho que algumas medidas de consolidação e principalmente de controle das expectativas, como, por exemplo, a apresentação do arcabouço fiscal, permitem que o governo administre a situação fiscal de uma maneira bastante satisfatória.
Assim, o arcabouço como está sendo chamado, na verdade não é uma medida, mas sim um conjunto de regras que puderam atentar para várias necessidades também da sociedade brasileira, como a de investimento público em várias áreas e de programas sociais relevantes de distribuição de renda.
Por isso, é uma regra muito mais complexa do que a gente propôs naquele momento. E, agora, também acho que o momento permitiu essa discussão e, o mais importante, o mercado recebeu bem o arcabouço fiscal e isso já está sendo visto no rebaixamento das curvas de juros futuros.
O POVO - Na sua trajetória nos ministérios, o senhor participou da criação de programas como o Minha Casa, Minha Vida, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e, agora, o presidente Lula deve retomar essas iniciativas nos mesmos moldes em que eram desenvolvidos nos seus antigos mandatos. Como o senhor avalia essa retomada?
Dyogo - Acho que é muito importante a retomada do investimento público e é preciso sempre esclarecer que isso não se opõe ao investimento privado. O PAC, o Minha Casa, Minha Vida, eles têm focos de investimento que, claramente, não são focos que o setor privado faria sem a atuação do estado.
Por exemplo, estamos falando aqui de habitação popular para pessoas que não teriam condições de tomar um financiamento, porque não tem renda, porque não tem estabilidade do emprego. Então essa população não teria capacidade de acessar o mercado sem o programa.
Os investimentos do PAC também são investimentos em rodovias, ferrovias, em modais de transporte, logística, mobilidade urbana e saneamento. São áreas que, realmente, o investimento público é necessário.
"Há uma certa confusão quando se fala em financiar obras no Exterior ou financiar outros serviços no Exterior"
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Então, sim, acredito que essa retomada seja uma iniciativa positiva, já que estamos em um período de retomada do crescimento e este também demanda uma retomada do investimento público. Claro que isso não pode gerar um desequilíbrio das contas públicas, um descontrole da dívida pública.
Mas, como eu disse, dentro de um arcabouço fiscal, dentro de um conjunto de regras que o mercado perceba que é consistente, é necessário também aumentar o investimento público em algumas áreas.
O POVO - O senhor também foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e, atualmente, se fala muito do Brasil financiar empresas brasileiras que realizam obras no Exterior. Como o senhor avalia essas questões?
Dyogo - Nenhum outro país vai financiar as empresas brasileiras. Cada país financia as suas próprias empresas na exportação, seja de bens ou de serviços. É assim que é o comércio internacional.
Então, se o Brasil pretende ser um país da internacionalização, com uma presença relevante nas exportações, não há outra alternativa que nós termos um programa de financiamento das exportações brasileiras, seja de bens ou outros serviços.
Claro que isso tudo tem que ser feito de uma maneira muito técnica, com muita avaliação de riscos, com garantias, como sempre foi feito no Brasil. Então, o Programa Brasileiro de Financiamento de Exportações é muitíssimo exitoso.
Então, nestes cerca de 25 anos de existência tivemos pouquíssimos casos de inadimplência, o que mostra que o programa é muito bem-sucedido. Há uma certa confusão quando se fala em financiar obras no Exterior ou financiar outros serviços no Exterior.
O programa brasileiro nunca permitiu pagamento de nenhuma despesa no Exterior. O País só financia despesas realizadas no Brasil ou pagamentos a brasileiros. O nosso programa é muito mais duro, inclusive, do que o de outros países, que aceitam parte de despesa no local importador.
O Brasil não remete um real para o país destinatário, ele só manda bens e serviços produzidos no Brasil ou prestados por brasileiros. Lamentavelmente essa matéria ganhou uma conotação que não condiz com a realidade, como eu falei, porque tivemos pouquíssimos casos de calote e por ele existir, acabou gerando um volume enorme de exportações.
E, é bom se dizer também que a inadimplência não quer dizer que perdeu o dinheiro. O País que deve não vai desaparecer. Então, uma hora ele vai se recuperar e vai pagar. Isso também precisa ser melhor considerado, já que é diferente, por exemplo, de uma empresa que faliu e nunca mais vai pagar.
"Vou destoar um pouco do que é uma leitura geral. Um dos grandes problemas que eu vejo no Brasil é a insegurança jurídica"
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O POVO - Que desafios o senhor citaria que o Brasil precisa enfrentar?
Dyogo - Temos grandes desafios, na minha percepção, para o desenvolvimento do Brasil. Um dos maiores que eu vejo, e aí vou destoar um pouco do que é uma leitura geral.
Um dos grandes problemas que eu vejo no Brasil é a insegurança jurídica, nos mais diferentes níveis a gente tem situações de contratos que não foram respeitados, casos em que as leis mudaram de maneira repentina.
Investidores que apostaram em um determinado modelo e depois esse modelo foi alterado, decisões judiciais incoerentes e inconsistentes entre si, decisões que demoram muito tempo, uma dificuldade muito grande de resolução de conflitos.
Isso gera, naturalmente, uma retração do investimento, uma retração da atividade econômica e isso tem prejudicado o País de uma maneira muito mais severa do que muitos analistas são capazes de perceber.
Nós temos um desafio, em termos de legislação tributária no Brasil que precisa ser corrigido e que gera muitas distorções de alocação de recursos.
Temos um grande desafio de custo de capital, que pode ser traduzido para uma linguagem mais simples em taxas de juros, ou o custo de se gerar financiamentos no Brasil ainda é muito elevado e isso se conecta, em parte com a questão política, já que uma parte considerável desse custo de capital está ligado a gestão política do País que gera sucessivas situações de atrito e instabilidade como vivemos nos últimos anos e isso também impacta nas taxas.
O Brasil tem o desafio de formar capital humano. Ao meu ver, o País não está conseguindo acompanhar a mudança tecnológica no sentido de formar o capital humano na área de tecnologia em todos os setores da economia brasileira.
Um estudo recente que vi falava de mais de 500 mil vagas na área de tecnologia em aberto no País. Sem falar no potencial que nós teríamos de exportação de serviços de tecnologia. Pela grande população que nós temos, deveríamos estar formando essa população com esse foco na tecnologia, mas lamentavelmente isso não está sendo feito. Pelo menos não na quantidade que precisaria.
Claro que existem iniciativas muito exitosas no País, mas o Brasil, nessa área de tecnologia, não está conseguindo atender o volume necessário.
O POVO - E na área de seguro, quais são os desafios?
Dyogo - Na nossa área de seguros, claro, também a gente tem um espaço ainda muito grande para crescer na área de seguros. O seguro hoje representa aproximadamente 6,5% do Produto Interno Público (PIB) nacional.
Um país desenvolvido tem alguma coisa entre 10% e 12% do PIB, em termos de participação de seguro. E pior do que isso é que a cobertura de seguros, em termos de percentual, é muito baixa no Brasil. No País que é agrícola, menos de 15% da área plantada tem seguro rural.
Em termos de seguro residencial, que é um seguro super barato, pra se ter uma ideia, em um imóvel de R$ 500 mil vai pagar uns R$ 300 de seguro anual residencial. E mesmo assim as pessoas não tem, menos de 15%, também, das residências têm seguro.
Mesmo com automóvel, que é um seguro mais conhecido e que as pessoas percebem mais a necessidade de ter, a gente tem menos de 30% da frota nacional assegurada. O seguro está associado à estabilização do patrimônio e da renda. Um estudo que fizeram no México, ano passado, identificou os acidentes de trânsito como a segunda maior causa de empobrecimento da população.
Porque quando sofre um acidente o sujeito perde o patrimônio e perde a renda por um certo período e aí ainda tem as despesas e aquilo empobrece a família. O seguro funciona, exatamente, como um amortecedor disso. São as funções sociais que o seguro tem que ajudam muito a desenvolver a sociedade, o que permite que você tenha continuidade.
Uma empresa, um restaurante, uma mercearia, se sofrer um incêndio e tiver o seguro, no dia seguinte está operando de novo, reconstrói, recomeça. Se não tem seguro, vai à falência.
"A economia só é notícia quando está mal"
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O POVO - Essa baixa adesão do seguro, o senhor acredita que também é cultural?
Dyogo - Acho que sim. Existe uma parte cultural, uma parte de falta de legislação. Por exemplo, em muitos países, alguns seguros são obrigatórios, aqui no Brasil não é. O seguro empresarial, por exemplo.
Você não consegue abrir uma empresa nos Estados Unidos se você não levar na Prefeitura a apólice do seguro. É a única condição, na verdade, para se ter o alvará, ter o seguro, porque a Prefeitura entende que se a seguradora já avaliou a sua a sua construção e entendeu que ela é segura, a Prefeitura confia nisso.
Claro, tem a parte cultural, porque muitos seguros não precisam ser obrigatórios, como o residencial, o de vida, mas tem a falta de legislação, como o DPVAT, por exemplo, em que estamos sem uma legislação a respeito do seguro de acidentes de trânsito e isso vai criando uma falta de percepção da importância do seguro.
Seguro de catástrofe, por exemplo, a gente não tem ainda no Brasil e estamos preparando uma proposta a respeito disso. A cada ano nós vemos esses eventos climáticos e não há uma proteção para as pessoas. Então acho que falta, como eu disse, cultura de um lado, avanço legislativo do outro e renda.
O POVO - Qual o grande entrave para o crescimento do País e, por consequência, da indústria de seguros?
Dyogo - O nosso grande desafio, realmente, é a renda. A economia brasileira, nos últimos dez, basicamente não teve crescimento da renda per capita e chegou a ter redução.
Claramente as pessoas estão tendo que optar, de uma maneira muito dura, onde destinar a sua renda. Então, a falta de renda é um grande desafio para o crescimento do seguro.
Tem um número que tenho citado que representa essa falta de renda, que é 67% dos trabalhadores brasileiros ganham menos de dois salários. Então, o Brasil tem esse desafio do crescimento agregado da renda, mas a gente tem também um problema de distribuição da renda.
A parte da população que recebe uma renda muito pequena, ainda é muito grande.
"Tenho três filhos e um casal de netos e vivo por eles. Com essa vida atribulada que a gente leva, acabamos nos ausentando muito da família, mas eu tenho uma ligação muito forte com meus filhos e netos"
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O POVO - Sobre a sua história para além da vida pública. Como foi a escolha por seguir a carreira de economista?
Dyogo - Sabe que essas são questões que nunca respondi. Mas assim, na minha adolescência, naquele período que se escolhe a profissão, coincidiu com aquele período da hiperinflação no Brasil, das crises econômicas, crise da dívida externa, o Brasil tomando dinheiro no Fundo Monetário Internacional (FMI).
Então o tema economia era um tema que chamava muita atenção. Nessa época eu morava no interior do Maranhão e mesmo para um garoto do interior era um tema muito quente e me despertou o interesse pela área econômica.
Então, pensava muito em ser economista, claro que nas veleidades da infância, para resolver aquele problema do País. Eu pensava, eu vou estudar esse negócio e resolver o problema da inflação. Para a minha sorte, quando eu cheguei no governo já tinha tido o Plano Real e já tinha resolvido o problema.
O POVO - E como é a história da sua família, como foi a sua infância?
Dyogo - A minha família é uma família humilde, de produtores rurais. Meu pai é um pequeno produtor que migrou para o Tocantins, na década de 1960 ainda, dentro daqueles programas de ocupação do território brasileiro, então a família do meu pai adquiriu um lote pequeno de terra no Tocantins, saindo de Goiás e minha mãe veio da Bahia.
Ali era uma região de expansão agrícola e eu pequeno ainda, eles decidem se mudar para o Maranhão. A minha infância e adolescência foram no Maranhão. Naquela época não tinha faculdade no interior, então para estudar, eu tive que sair.
Foi aí que fui para Brasília, estudar na Universidade de Brasília (UNB) e, depois de formado, acabei fazendo o concurso para o Governo Federal e o resto é história.
O POVO - Como o agente público Dyogo Oliveira se relaciona no ambiente familiar?
Dyogo - Tenho três filhos e um casal de netos e vivo por eles. Com essa vida atribulada que a gente leva, acabamos nos ausentando muito da família, mas eu tenho uma ligação muito forte com meus filhos e netos, assim como também com os meus pais, minhas irmãs.
Sou um sujeito muito família, e a gente se fala todo dia. Saí de casa com 15 anos, então já tem 32 anos que eu saí de casa e desde lá falo com meu pai praticamente todo dia.
O POVO - Ter uma carreira como servidor público era algo desejado?
Dyogo - Confesso que nunca tinha pensado em ser servidor público. Na verdade, por morar em Brasília que isso aconteceu. Naturalmente, aqui em Brasília o ambiente é muito ligado ao setor público e acabou que alguns amigos começaram a comentar disso e me chamar atenção pra isso e eu acabei decidindo fazer um concurso.
Até foi assim, meio de supetão. Eu não olhava para isso, já estava no mestrado nessa época e a minha intenção era terminar, já que estava interessado em seguir a carreira acadêmica. Foi até um colega do curso de mestrado que me chamou e disse que teria o concurso e perguntou se eu não queria fazer.
Eu falei: "Olha, Alex, eu nem sei bem como é que é esse negócio de concurso, como é que funciona isso". Aí ele foi me explicando as coisas e tal. Aí pensei, tá, vou fazer isso aí e ver o que dá.
Foi meio por acaso e é curioso isso, porque algumas coisas a vida te traz e eu me identifiquei muito com o setor público. Depois que eu comecei a trabalhar eu vi que não sabia que era isso que eu queria, mas era. Era isso mesmo que eu pensava para a minha vida.
E mesmo tendo saído do governo em 2019, esse espírito público está muito presente no meu dia a dia. Essa preocupação com o País, com o desenvolvimento da nossa sociedade, com melhorar a vida da população brasileira é uma coisa que é muito presente para mim.
Daí que eu estava comentando da felicidade que eu tenho de estar em uma indústria, hoje, que contribui efetivamente para isso.
E, de novo, é outra coisa que também aconteceu na minha vida muito por acaso, nunca pensei de fazer esse tipo de atividade na indústria de seguros e depois que saí do governo é que recebi um convite, acabei aceitando e estou muito feliz aqui, tem sido uma experiência super gratificante e engrandecedora.
O POVO - A sua geração viveu um momento econômico que o influenciou em querer ser economista. Agora, gostaria de saber como gostaria que seus netos vissem o tema economia no futuro?
Dyogo - Sinceramente espero que meus netos não tenham nem notícias sobre economia. Porque isso vai significar que a economia está bem. A economia só é notícia quando está mal.
Espero que eles nem leiam sobre economia, que o Brasil esteja em um momento muito bom, com a economia andando bem, com esses problemas mais básicos que a gente tem hoje já resolvidos.
Esse é o que eu mais desejo para o futuro dos meus netos e todos os brasileiros, que a gente tenha, realmente, a solução desses desafios que falamos. Alguns levam mais tempo, outros menos, mas assim, eu acho que dá para resolver.
O Brasil tem uma coisa muito interessante a respeito da economia brasileira, é que os problemas da economia brasileira são todos problemas internos da economia.
Então não há nenhum problema que o Brasil dependa de outro País ou de alguma instituição internacional para resolver, são todos problemas que nós podemos resolver aqui, entre nós mesmos, com decisões dos nossos governantes, dos nossos representantes.
Isso é muito, para usar um termo mais arcaico, alvissareiro, porque você olha e pensa que isso é possível de resolver. Olha o exemplo da Coréia, um país que está entre a China, o Japão, a Rússia e todos os problemas ali dependem dos outros países, não tem condição de resolver sozinho.
Com decisões sábias e diligência o Brasil vai resolver esses problemas e talvez os meus netos nem precisem ler sobre economia no jornal.
Com apenas 47 anos, Dyogo Oliveira é um economista com currículo robusto na carreira pública brasileira.
Um dos objetivos de Dyogo a frente do setor de seguros é aumentar em 20% a parcela da população atendida até 2030.
O ex-ministro sorriu ao afirmar que nesta entrevista foi a primeira vez que respondeu perguntas pessoais e fora de contextos econômicos.

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