Reportagem Seriada

Excluídos do ensino na pandemia

Famílias com filhos em redes municipais de ensino sofrem com a falta de acesso ao ensino remoto durante a pandemia. Este especial mostra que contextos de vulnerabilidades sociais e falta de acesso à internet se interpõem à educação ofertada
Episódio 1

Excluídos do ensino na pandemia

Famílias com filhos em redes municipais de ensino sofrem com a falta de acesso ao ensino remoto durante a pandemia. Este especial mostra que contextos de vulnerabilidades sociais e falta de acesso à internet se interpõem à educação ofertada Episódio 1
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Dificuldade de adaptação do ambiente domiciliar às atividades de ensino, aprofundamento de vulnerabilidades sociais, pais com defasagem de alfabetização tendo de orientar a aprendizagem, acesso limitado ou mesmo a inexistência do acesso à internet. Estes são aspectos do cenário de ensino remoto durante a pandemia de Covid-19 nas redes públicas de educação.

No recorte da educação municipal, a situação pode ainda ser mais preocupante, tendo em vista as peculiaridades dos ensinos Infantil e Fundamental, e um percentual de descobertura do acesso aos meios digitais que pode chegar a 40% - número estimado em maio pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime-CE).

A estimativa da Undime-CE chega mesmo a superar os dados nacionais e regionais. Conforme pesquisa TIC Educação 2019, divulgada no segundo trimestre de 2020 e feita no segundo semestre do ano passado, 17% dos estudantes de escolas urbanas no Brasil não têm acesso à rede. No Nordeste, o percentual sobe para 22% e, no Norte, para 27%.

Em casa, apenas 41% dos alunos no Brasil têm computador portátil, 35% têm computadores de mesa e 29% possuem tablet. No Nordeste, um a cada quatro alunos (25%) que têm acesso à rede o faz apenas pelo celular.

Essa é a realidade encontrada por Pedro Silva, professor da rede municipal de Fortaleza. Dando aulas aos nonos anos, Pedro conta que adaptou o conteúdo repassado aos formatos compatíveis com WhatsApp, já pela maior facilidade de acesso ao aplicativo, com operadoras de telefonia liberando dados gratuitos para esse uso.

Vídeos no YouTube, salas de interação por videoconferência e conteúdos mais elaborados acabaram por ser dispensados. A situação encontrada é que, mesmo com acesso, muitas famílias só têm um celular para mais de um aluno e ligado apenas a dados móveis.

Material em formato PDF que o professor da rede municipal de Fortaleza Pedro Silva repassa por Whatsapp aos alunos.(Foto: Reprodução)
Foto: Reprodução Material em formato PDF que o professor da rede municipal de Fortaleza Pedro Silva repassa por Whatsapp aos alunos.

"Dentro da realidade de bairros marcados pela desigualdade social, já é excludente esses processos de interação por WhatsApp. Se fosse partir para outras ferramentas, essa exclusão seria ainda maior", lamenta. Ele conta que teme pela possibilidade palpável que a evasão escolar se aprofunde - tanto para alunos que tiveram o ensino descontinuado pela falta de internet, quanto por outras questões de desigualdades sociais.

Professor das redes municipais de Quixadá e Quixeramobim, Antônio Barbosa aponta que tem tentando trabalhar a autonomia do aluno para com a própria aprendizagem. Mas uma das barreiras que encontra é a organização da estrutura familiar, muitas vezes marcada por vulnerabilidade.

"Trabalho em um bairro muito pobre, têm famílias enormes que moram em um, dois cômodos. Aí não tem estrutura física para criança parar e ler um livro, estudar, tentar compreender", indica.

Info - Ensino na pandemia
Foto: Info Cristiane Frota
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Recentemente, parte do alunos em Fortaleza passaram a receber cadernos de atividades de matérias como Português e Matemática. O professor Pedro, apesar da crítica ao conteúdo, que foca em provas nacionais de avaliação de ensino, acredita que seja louvável uma vez que chega a estudantes sem os recursos disponíveis para acessar plataformas digitais de ensino.

Os cadernos impressos com conteúdos de outras matérias são também as estratégias usadas em municípios como Limoeiro do Norte, no Vale Jaguaribe, e em Quixadá, no Sertão Central.

Caderno de atividades da matéria de Português distribuído pela Prefeitura de Fortaleza(Foto: Arquivo Pessoal)
Foto: Arquivo Pessoal Caderno de atividades da matéria de Português distribuído pela Prefeitura de Fortaleza

Até o fim de maio, a secretária da Educação de Quixadá, Lígia Leão, estimava que a internet era recurso usado por apenas 30% dos alunos da rede. Os demais precisavam ser alcançados pelo material impresso, disponibilizado pelas escolas com distribuição em parceria com os agentes de saúde. Em julho, reunindo atividades repassadas por Whatsapp e o material impresso, a estimativa era de cobrir 75% dos alunos da rede municipal.

"Sabemos da dificuldade de acesso e temos enfrentado momentos difíceis. Encontramos a barreira que é a questão da tecnologia, principalmente dos alunos que estão lá no sertão. Mas aderimos (ao ensino remoto) porque não poderíamos deixar nosso aluno na inércia", analisa. Material impresso, livro didático e ação junto à Procuradoria Municipal para que operadoras de telefonia não cortem o sinal por falta de pagamento durante a pandemia foram algumas saídas encontradas pela gestão.

Em Limoeiro, o acesso chega a 65% em áreas mais centrais do município, conforme Ana Lúcia Nogueira, coordenadora-geral da Educação de Limoeiro. A orientação tem sido também o repasse de materiais impressos, quando a orientação online não chega, principalmente em áreas rurais.

"É uma questão que sai da esfera educacional, vai além dos muros da escola, é uma questão que tem aspectos sociais", analisa Ana. Para o retorno das atividades presenciais, a pasta tem planejado estender um projeto já existente de reforço escolar no contra-turno aos alunos que tiverem esse processo de educação descontinuado devido à pandemia.

Por meio de nota, a Secretaria Municipal da Educação de Fortaleza (SME), afirmou que "os casos em que há impossibilidade de difusão por meios digitais, a gestão escolar dispõe de outras estratégias para promover a interação entre professores, estudantes e familiares, por meio de entrega e recebimento dos materiais didáticos, atividades, trabalhos de pesquisa, roteiros diários e de estudos, entre outros, de forma segura". Segundo o órgão, 3% dos alunos, ou seja, 6.930 alunos, não estão participando das atividades propostas.

 

Mais sobre a série

A série mostra como a pandemia acentuou a desigualdade no acesso à educação, a partir do cenário de famílias carentes que não têm internet. Neste episódio, você leu sobre como o ensino remoto é uma realidade distante para alunos pobres das escolas públicas. Veja o conteúdo dos episódios seguintes:

Episódio 2 - Histórias de famílias para as quais o aprendizado é cheio de adversidades. Dificuldades financeiras, falta de acesso ou obstáculos para se conectar à internet, ferramentas defasadas e ambiente domiciliar não adaptado à aprendizagem.

Episódio 3 - A realidade da falta de acesso de à internet também tem impacto sobre os professores.

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Reportagens dá voz aos alunos de redes municipais de ensino com dificuldades de acesso às atividades de educação remota durante a pandemia. Aborda também bons exemplos de professores que têm tentado driblar os desafios que se interpõem entre os alunos e a aprendizagem.

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