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Ariadne Araújo é jornalista. Começou a carreira em rádio e televisão e foi repórter especial no O POVO. Vencedora de vários prêmios Esso, é autora do livro Bárbara de Alencar, da Fundação Demócrito Rocha, e coautora do Soldados da Borracha, os Heróis Esquecidos (Ed. Escrituras). Para além da forte conexão com o Ceará de nascença, ela traz na bagagem também a experiência de vida em dois países de adoção, a Bélgica, onde pós-graduou-se e morou 8 anos, e Portugal, onde atualmente estuda e reside.

Dorme, São João

O sobe e desce de casos de Covid fez o governo suspender também este ano as famosas festas juninas, em Portugal. Melhor assim, porque atrás dos Santos Populares, como são chamados aqui o Santo Antônio, o São João Batista e o São Pedro, vão multidões. Junina de nascença e predileção, eu fico este ano na segurança da janela, vendo a banda passar
Tipo Crônica
Foto de Ariadne Araújo: Pé de manjerico, símbolo das festas dos Santos Populares, como são chamadas as festas juninas, em Portugal.     
 (Foto: Ariadne Araújo)
Foto: Ariadne Araújo Foto de Ariadne Araújo: Pé de manjerico, símbolo das festas dos Santos Populares, como são chamadas as festas juninas, em Portugal.

Já lá se vão dois anos que o vírus bota água na fogueira das festas dos Santos Populares, como são chamadas as festas juninas, em Portugal. Por causa disso, o mês entrou ensolarado, como sempre, mas um tanto encabulado. Ou seria melhor dizer, aleijado de seus coloridos arraiais, suas bandeirinhas e enfeites, seus desfiles de marchas, suas procissões de tronos de Santo Antônio, seus bailes populares e seus pirotécnicos fogos de artifícios. Antes da pandemia, a esta mesma época, o país era um fervilhar de Norte a Sul. Um carnaval de foliões em comilanças e bailaricos, até o último minuto de junho. Nas ruas estreitas e tortuosas de Madragoa e Alfama, em Lisboa, por exemplo, bem se poderia cantar Dominguinhos: “quem tá fora quer entrar, mas quem tá dentro não sai”. Mas, isso de “aqui tá bom demais” foi antes. Agora é só saudade. E fado.

É o cheiro de sardinhas assadas na brasa que avisa que o tempo dos santos chegou. Vem dos restaurantes, não dos costumeiros fogareiros, que enfumaçam de sabores as ruas portuguesas. Falta o charme dos tais domésticos braseiros, mas o gosto é o mesmo. Eu já comi umas tantas. Portanto, este ano, a sugestão é tirar a roupa lavada e estendida das janelas e balcões. Pois, com um pouco de sorte, vai-se precisar do lugar desimpedido para ver passar nas ruas só um tiquinho de festa junina. É que se promete desfiles de tronos de santos e marchas itinerantes. Vai que. Veja o meu caso. No último 13 de maio, já tarde da noite, passou por aqui a procissão de carros e Aves Marias. O padre paramentado, atirando para o alto dos prédios bênçãos aos fiéis, empoleirados nas janelas. Foi um balançar de lenços brancos. Eu, na falta, sacudi panos de pratos. Vale a intenção.

As quadrilhas animadas que conhecemos, no Nordeste brasileiro? Esquece. Não tem nada parecido, em Portugal. Nem de longe nem de perto. E olha que nos tempos idos, a moda das quadrilhas deve ter divertido uns tantos nobres por aqui, antes de ser levadas por mestres de orquestras para a colônia, sem deixar rastro nos costumes locais. Naquela época, o nome era quadrille, uma dança de salão francesa, para quatro casais. No século 19, já era a queridinha das soirées palacianas portuguesas, no Rio de Janeiro. Mas, a dança tinha pernas e ambições grandes. Saltou dos salões reais para os vastos terreiros de terra batida, nos sertões brasileiros. No gosto popular, adaptou-se, aligeirou-se, ganhou pares. Porém, não perdeu o sotaquizinho afrancesado dos passos, no vaivém de “balancê”, “returnê”, “anavã”, “changê”, “vis-à-vis” e “otrefoá”.

Pois bem, todo arraial que se preze tem comilança e diversão. Em Portugal. E no Brasil. Por estes lados, empanturramo-nos de sardinhas sanduichadas no pão e bifanas na brasa, enquanto o folião nordestino abocanha milho assado, canjica, pamonha, mungunzá, pé-de-moleque, batata doce. Aqui, em algumas aldeias, as moças sapecam alcachofras para ver se o namoro vinga. No Porto, a novidade é que se brinca o São João à base de marteladas de plástico na cabeça alheia. E, por todo lado, compra-se o pé de manjerico, outra tradição casamenteira. Com tantas invencionices ganham sempre os 3 santos - que santo não tem nacionalidade. Mas, este ano, nem sanfona nem rasga lata acordam o São João, que dorme mais um ano sabático. De férias, até 2022, enquanto saltamos aqui na Terra uma fogueira mundial. E para essa, há de se ter mais coragem que pernas.


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