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João Gabriel Tréz é repórter de cultura do O POVO e filiado à Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). É presidente do júri do Troféu Samburá, concedido pelo Vida&Arte e Fundação Demócrito Rocha no Cine Ceará. Em 2019, participou do Júri da Crítica do 13° For Rainbow.

João Gabriel Tréz cinema&série

Choque de narrativas marca o longa "Piedade", de Cláudio Assis

Buscando entrecruzar trama familiar com discussão socioambiental, "Piedade" esbarra em abordagem apática e entrosamento truncado entre os dois núcleos narrativos
Tipo Opinião
'Piedade' foi premiado no Festival de Brasília em 2019 com o Prêmio Especial do Júri. Melhor Ator Coadjuvante (Cauã Reymond) e Melhor Direção de Arte (Foto: divulgação)
Foto: divulgação 'Piedade' foi premiado no Festival de Brasília em 2019 com o Prêmio Especial do Júri. Melhor Ator Coadjuvante (Cauã Reymond) e Melhor Direção de Arte

A revelação de um segredo familiar escondido há décadas e a investida de uma grande petroleira para "conquistar" financeiramente uma comunidade litorânea são os principais motes do longa "Piedade", de Cláudio Assis, com nomes como Fernanda Montenegro, Cauã Reymond, Irandhir Santos e Matheus Nachtergaele. Reconhecido por abordagens frontais de sexo e violência, o cineasta imprime ao novo longa - cujo processo de produção remonta a 2017 - um tom contido que resulta em uma obra apática, truncada e que não se cumpre plenamente.

A história, que parte de argumento do diretor, tem roteiro de Anna Francisco, Dillner Gomes e Hilton Lacerda. A sinopse oficial destaca, de partida, a situação da comunidade que rodeia o bar Paraíso do Mar, gerido por Dona Carminha (Fernanda Montenegro) e o filho Omar (Irandhir Santos). É nele que se encontra o principal foco de resistência às investidas da Petrogreen, empresa que tenta comprar o empreendimento familiar e os moradores da Praia de Piedade.

Leia também | Confira matérias e críticas sobre audiovisual na coluna Cinema&Séries, com João Gabriel Tréz 

Numa linha narrativa aparentemente paralela, porém, o filme começa apresentando um grupo de ativistas que promove ações virtuais e presenciais contrárias à petroleira. Um dos membros é Marlon Brando (Gabriel Leone), jovem que orbita outro empreendimento simples e familiar, comandado por seu pai, Sandro (Cauã Reymond): o cinema pornô Mercy. Os dois núcleos são construídos de forma independente no desenvolvimento de "Piedade", até serem aproximados pela presença de Aurélio (Matheus Nachtergaele), figura que cruza os universos.

É ele o enviado da Petrogreen à comunidade de Piedade para tentar convencer os moradores a aceitarem uma proposta que os faria mudar da beira da praia para apartamentos cedidos pela empresa. Vilão com tintas novelescas, Aurélio curiosamente ecoa o mais recente papel de TV do aqui mocinho Irandhir Santos - o também vilão Álvaro, da novela "Amor de Mãe".

Omar (Irandhir Santos) cuida do bar Paraíso do Mar com a família (Foto: divulgação)
Foto: divulgação Omar (Irandhir Santos) cuida do bar Paraíso do Mar com a família

No folhetim, o personagem de Irandhir é um empresário do ramo de plástico que quer expandir a empresa adquirindo imóveis no fictício Bairro do Passeio. A essência das duas propostas é inegavelmente semelhante e tanto a presença do ator em ambas como a construção da vilania de Álvaro reforçam a ligação - coincidente, ressalte-se - entre as obras.

A maior parte do elenco principal de "Piedade", inclusive, é formada justamente por intérpretes ditos "globais", que participam ou participaram frequentemente de novelas na TV Globo - mesmo que, importante reconhecer, nomes como o próprio Nachtergaele, Fernanda Montenegro e Cauã Reymond já tenham se descolado de uma imagem que os limite somente às produções televisivas.

O ponto aqui não é fazer um debate sobre o "valor" ou a "qualidade" de produções de TV, mas sim ressaltar que um elenco composto dessa forma remonta a uma época do cinema brasileiro em que grande parte das produções era oriunda, em diferentes níveis, da lógica televisiva. "Piedade" surge como um exemplar fora do tempo, uma produção dos anos 1990/2000 sendo feita no pós-2010. Cláudio Assis estreou justamente na década de 2000, com "Amarelo Manga" (2002), que tinha no elenco também Matheus Nachtergaele, Jonas Bloch e nomes como Dira Paes e Leona Cavalli antes do sucesso televisivo. À época, era um cineasta de uma cinematografia fora do eixo sudestino que desafiava estruturas. Hoje, é um diretor experiente. O cinema brasileiro é, também, outro.

Quanto à trama, "Piedade" insere de forma atravessada na história - que parecia focada nos impactos social, ambiental e econômico da relação entre a empresa e a comunidade - o desenvolvimento de um drama familiar que se pretende surpreendente para o público e as personagens, mas não carrega força dramatúrgica de fato. Há um potencial peso dramático, sim, mas que acaba sendo tratado de modo difuso.

É até irônico que isso ocorra, já que o cineasta ficou marcado por extravasamentos que desafiam o público, quer sejam ou não apreciados. Posto todo este contexto, é curioso que ele aposte numa autorreferência ao utilizar "Baixio das Bestas", produção de 2006 dirigida por ele, como um dos filmes exibidos no cinema pornô da obra.

A maneira com que "Piedade" lida com os aspectos da trama familiar resume em si o espírito da obra, marcada por entregas algo decepcionantes de elementos que, em tese, poderiam funcionar de forma, no mínimo, mais impactante.

Confira o trailer:

Piedade

Quando: sessões no dia 31 de agosto, às 19 horas, e dia 1º de setembro, às 16h30
Onde: Cinema do Dragão (rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema)
Quanto: R$ 16 (inteira), com exceção das terças, que têm preço promocional de R$ 10
Mais informações: @cinemadodragao

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