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João Gabriel Tréz é repórter de cultura do O POVO e filiado à Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). É presidente do júri do Troféu Samburá, concedido pelo Vida&Arte e Fundação Demócrito Rocha no Cine Ceará. Em 2019, participou do Júri da Crítica do 13° For Rainbow.

João Gabriel Tréz arte e cultura

‘Deserto Particular’ traz jornada emocional que ecoa questões sociais

Representante brasileiro no Oscar, "Deserto Particular" aborda choque entre conservadorismo e progressismo a partir de viagem emocional empreendida por policial
Tipo Opinião
A jornada de Daniel em busca de Sara se revela, também, uma jornada emocional para o protagonista (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação A jornada de Daniel em busca de Sara se revela, também, uma jornada emocional para o protagonista

Daniel (Antonio Saboia) é um homem em crise. Policial, foi afastado do trabalho após um caso de agressão. Em casa, no Paraná, passa os dias cuidando do pai idoso e doente. Criado em um ambiente conservador e tradicional — a escolha da profissão, por exemplo, veio por influência do progenitor, também oficial da instituição —, ele tem na correspondente virtual Sara, baiana, a única âncora. Apesar da boa relação, que inclui trocas de nudes e conversas constantes por aplicativos, a mulher deixa, subitamente, de respondê-lo. Impactado pela ausência repentina, Daniel decide largar tudo e partir de carro para a Bahia, numa jornada que se revela uma abertura inesperada a questões e universos desconhecidos e transformadores. É este o mote do longa "Deserto Particular", de Aly Muritiba, que foi escolhido como o representante brasileiro ao Oscar 2022 e estreia hoje em Fortaleza.

A partir da jornada de Daniel, Aly espelha pontos que atravessam pessoalmente a ele e, também, ao momento sócio-político do País. Em relação ao primeiro ponto, o caminho que o protagonista toma é uma espécie de "viagem de volta" para o diretor. Nascido em Mairi, no interior da Bahia, o cineasta se mudou no início da vida adulta para Curitiba, onde engrenou na carreira no cinema. Além do trabalho no audiovisual, Aly também acabou trabalhando, por "questões imponderáveis", como agente penitenciário, em mais uma ligação entre ele e o filme.

Nos espaços de convivência ao longo da vida, do sertão baiano ao ambiente prisional, Aly era o "diferente" — seja por gostar de leitura, cinema e teatro na infância, seja por ser um historiador progressista e ligado aos direitos humanos na vida adulta — e reconhece neles a necessidade de "performar" uma masculinidade esperada.

"Venho vivendo essas contradições em minha vida desde sempre e tentando entender de onde vem minhas emoções e como lidar com elas, mesmo tendo sido ensinado a não demonstrá-las", aponta, em entrevista por vídeo ao O POVO. "Ser criado sob a lógica heteronormativa numa sociedade tão conservadora e patriarcal quanto a nossa é ser educado para não sentir. Isso é bastante opressor. Nós somos formados para oprimir dentro de uma lógica muito opressora contra nós mesmos, inclusive", compreende.

Elaborar o assunto a partir do cinema, porém, não é novidade para o artista. "Comecei a refletir sobre isso e pensar em como os meus personagens, criados sob essa lógica, podem tentar escapar dela", explica Aly, que abordou o tema, sob diferentes vieses, nos filmes "Para Minha Amada Morta" (2015) e "Ferrugem" (2018). Na visão do diretor, "Deserto Particular" encerra uma "espécie de trilogia sobre afetividade masculina do mundo contemporâneo".

O protagonista do mais recente longa é, como define Aly, "fechado em si". Moldado por um ambiente literalmente patriarcal, já que perdeu a mãe ainda na adolescência, Daniel é mostrado em uma cena, por exemplo, ousando escrever uma mensagem de texto para Sara onde afirma "achar estar apaixonado", mas apagando-a logo depois. A jornada em busca da amada é, então, um gesto de coragem, ao mesmo tempo externo e interno, no qual o personagem se vê confrontado com as ruínas de diversas pretensas certezas.

Há um peso simbólico na ideia deste confronto ocorrer com um policial constituído por modelos que se encontram na mesma condição, ecoando tensões sócio-políticas do País. "A proposta do 'Deserto Particular' é ser um filme de encontros, em que o encontro é transformador", define Aly, ressaltando: " O encontro só é transformador quando acontece entre diferentes".

"Quando nos fechamos entre os nossos, a gente muda muito pouco. Uma das potências de 'Deserto Particular' é, nesse momento, propor ao espectador essa viagem de encontro e de descoberta através desse personagem muito fechado em si, travado, ensimesmado", segue, defendendo o que chama de "proposta conciliatória".

"Os Danieis da vida, sujeitos conservadores — alguns deles, não são todos —, se forem acolhidos e encontrados, ao invés de rechaçados, podem se transformar. A proposta que o filme faz é conciliatória, de verdade", reconhece Aly.

"Eu não vou ficar trocando murro com conservador, porque eles batem melhor que eu, sabem brigar melhor que eu. Eu não sei brigar, agora beijar na boca eu sei. Se o cara vier me dar um murro e eu beijar na boca dele, pode ser que ele fique tão desestruturado que a briga não aconteça. Então eu vou fazer o que eu sei fazer melhor, que é amar, ouvir, contar história", finaliza o diretor.

Confira trailer de "Deserto Particular":

Deserto Particular

Quando: estreia em Fortaleza nesta quinta, 2, com sessões às 19h30

Onde: Cinema do Dragão (rua Dragão do Mar, 81)

Foto do João Gabriel Tréz

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