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João Gabriel Tréz é repórter de cultura do O POVO e filiado à Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). É presidente do júri do Troféu Samburá, concedido pelo Vida&Arte e Fundação Demócrito Rocha no Cine Ceará. Em 2019, participou do Júri da Crítica do 13° For Rainbow.

João Gabriel Tréz arte e cultura

É Tudo Verdade: "Adeus, Capitão" traça retrato de líder indígena

Memórias visual e oral do "Capitão" Krohokrenhum, líder indígena Gavião falecido em 2016, marcam "Adeus, Capitão", novo documentário de Vincent Carelli e Tita
Tipo Opinião
Imagem do documentário
Foto: divulgação Imagem do documentário "Adeus, Capitão", de Vincent Carelli e Tita, sobre "Capitão" Krohokrenhum, líder indígena Gavião. Selecionado para o Festival É Tudo Verdade de 2022

"Um dia eu vou embora e eu quero que as pessoas vejam que eu estou dançando e cantando pro povo", afirma o líder indígena Krohokrenhum em determinada altura do longa "Adeus, Capitão". A vontade expressa do "capitão" do povo Gavião (PA) é plenamente realizada a partir da concretização do filme dirigido por Vincent Carelli e Tita, que conclui a trilogia iniciada por "Corumbiara" (2009) e "Martírio" (2016). Reunindo 70 anos de registros dos Gavião, partindo do primeiro contato dos então isolados indígenas com os kupên (brancos), o longa traça, ao mesmo tempo, um retrato épico e íntimo — de um povo e de um homem.

Entremeando de forma não-linear diferentes tempos, "Adeus, Capitão" abre com a visita do diretor Vincent Carelli — antropólogo, indigenista e criador do projeto Vídeo nas Aldeias, dedicado há mais de 30 anos à formação de cineastas indígenas — à Madalena, viúva do protagonista, que faleceu em 2016. "Com a partida do Krohokrenhum, decidi concluir o projeto de nossa parceria de anos: difundir os registros dos seus legados para as futuras gerações", diz Vincent, que cumpre no longa função de narrador.

"Adeus, Capitão", então, vai desvelando, de forma entrecruzada, as histórias tanto do "capitão" Krohokrenhum quanto do povo Gavião. Em 1957, expedições de órgãos governamentais quebraram o isolamento dos indígenas, em um movimento que provocou a dizimação quase total deles por conta do contágio com doenças até então não existentes na vida remota do povo.

Marcados por comportamentos vistos como "selvagens" pela sociedade branca, os Gavião passaram ainda por processos profundos de aculturação, com os poucos sobreviventes deixando de lado a língua e os costumes. Em busca de um encaixe possível no mundo dos kûpen, eles se afastaram do estigma de "índio bravo".

As consequências simbólicas da quebra do isolamento são representadas precisamente, no filme, pelo trecho em que Vincent contextualiza ter encontrado em registros da época uma sonora de um irmão de Krohokrenhum que fora adotado pelo então prefeito do município paraense de Itupiranga. Nela, ele entoa o clássico "Quem Eu Quero Não Me Quer", do compositor Raul Sampaio.

Leia também | Confira matérias e críticas sobre audiovisual na coluna Cinema&Séries, com João Gabriel Tréz

No trecho do longa, o áudio a voz cantando os versos "Passo as noites recordando / Revivendo o meu castigo / No meu quarto de saudade / Solidão mora comigo", sobrepostos a um canto indígena ao fundo, ressignificando as palavras da canção.

"Para um povo guerreiro, o contato é sempre uma rendição", aponta Vincent na narração, demarcando a situação delicada do grupo liderado pelo "capitão". A alcunha, inclusive, foi "concedida" a Krohokrenhum pelo antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), que atribuía patentes militares às lideranças dos povos que eram contactados pelo órgão.

"Adeus, Capitão" é um dos selecionados do Festival É Tudo Verdade de 2022
Foto: Iara Ferraz / divulgação
"Adeus, Capitão" é um dos selecionados do Festival É Tudo Verdade de 2022

Ao contexto do contato entre os Gavião e os kûpen, somam-se conflitos por terras motivados pela intenção branca de extrair riquezas dos castanhais que haviam na região indígena. Se as relações pareciam "amigáveis" até ali, em que pesem os impactos sanitários e culturais, uma guerra se instaurou entre os Gavião e aqueles que procuravam explorar a atividade castanheira, contando inclusive com exploração abusiva de mão de obra indígena por parte de agentes estatais.

Tanto neste quanto em outros atravessamentos kûpen que desafiaram a vida dos Gavião, Krohokrenhum esteve na linha de frente dos processos de reação dos indígenas contra os desmandos de agentes públicos, inclusive garantindo ao povo compensações financeiras e autonomia. "Depois de velho é que fui entender de dinheiro. Dinheiro não é da nossa língua, nós aprendemos com eles", ressalta o líder.

Com o apoio de figuras como o próprio Vincent Carelli e a antropóloga Iara Ferraz, os Gavião se uniram para superar os desafios e retomar os próprios sensos de cultura e comunidade. O projeto de "difundir os legados para as futuras gerações" almejado por Krohokrenhum, então, ganha contornos bem definidos a partir do movimento de reaproximação do povo com os próprios valores e costumes.

Uma figura essencial neste sentido é Joprambre, neta do capitão e uma das responsáveis pelo retorno do ensino da língua original dos Gavião entre os mais jovens enquanto o avô ainda estava vivo. "O que vai ser da gente depois? O que vai ser dos nossos filhos, netos? Vão ter o nome indígena também? Ou vão se chamar igual nome de branco?", questiona ela em depoimento.

A fala emocionada se encerra com um eco forte de ancestralidade: "Nossa cultura ainda não morreu. Pra mim, ainda não morreu. Porque enquanto eles estão vivos, eles estão aí querendo ensinar. A gente tem que aprender, a gente tem que segurar isso e não deixar escapar mais". Os gestos de Joprambre e do próprio longa, enfim, inscrevem profundamente a reafirmação da memória de Krohokrenhum — que seguen "cantando e dançano pro povo" não somente a partir dos registros audiovisuais, mas também através das descendentes.

Adeus, Capitão

Quando: terça, 5, às 21 horas, e quarta, 6, às 12 horas

Onde: É Tudo Verdade Play

Mais infos: www.etudoverdade.com.br

 

Foto do João Gabriel Tréz

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