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Oscar 2022: denso e suave, "Drive My Car" dá tempo ao tempo
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João Gabriel Tréz é repórter de cultura do O POVO e filiado à Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). É presidente do júri do Troféu Samburá, concedido pelo Vida&Arte e Fundação Demócrito Rocha no Cine Ceará. Em 2019, participou do Júri da Crítica do 13° For Rainbow.

João Gabriel Tréz arte e cultura

Oscar 2022: denso e suave, "Drive My Car" dá tempo ao tempo

Indicado a 4 Oscars, "Drive My Car" parte de mágoas mal resolvidas do passado de um diretor teatral para convidar a reflexões sobre verdade, linguagem e comunicação
Tipo Notícia
Foto: divulgação "Drive My Car" costura reflexões sobre teatro, linguagem e relações em roteiro preciso

"Ela acelera e freia tão suavemente que mal posso sentir a gravidade", declara o diretor e ator teatral Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) em determinada altura do drama japonês "Drive My Car", adaptado de um conto do autor Haruki Murakami. A frase se refere à reservada jovem Misaki Watari (Tôko Miura), contratada para ser motorista do artista em uma residência teatral em Hiroshima. A definição de Yûsuke sobre a sutileza da motorista — um dado aparentemente banal, mas essencial para a história — pode ser emprestada para falar do próprio filme: uma experiência, ao mesmo tempo que densa, suave. O longa de Ryûsuke Hamaguchi, que concorre nas categorias de Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado e Filme Internacional no Oscar 2022, desvela ao longo de três horas reflexões sobre verdade, linguagem e comunicação. O filme está em cartaz nos cinemas em circuito reduzido e chega à plataforma Mubi em 1º de abril.

A duração, de exatos 179 minutos, pode até saltar aos olhos do público de início, mas se justifica como uma escolha calculada e que permite ao filme construir de maneira precisa caminhos com relevo tanto emocional, quanto cerebral. Arriscando uma "sinopse" resumida, "Drive My Car" acompanha o encontro das solidões de Yusuke e Misaki.

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Antes de focar na reunião delas, porém, o filme investe tempo em uma espécie de prólogo que fornece algum contexto sobre o protagonista. Profissional de sucesso no teatro, Yusuke é casado com a roteirista Oto (Reika Kirishima), uma roteirista de ousados programas televisivos noturnos.

No trabalho cênico, como ator e diretor, o protagonista aplica um método multilíngue, colocando intérpretes que falam idiomas diferentes para contracenarem. Na proposta, a busca é por estabelecer um fluxo específico de ação e reação nos textos, dependente menos do entendimento literal das falas e mais do tempo de emoção de suas entregas.

A absorção desses tempos é treinada por Yusuke nos trajetos que ele empreende em seu carro, um Saab 900 Turbo vermelho dos anos 1980, nos quais ouve repetidamente as gravações em fitas cassete feitas pela esposa.

Nelas, Oto declama as falas dos textos teatrais montados por Yusuke, à exceção daquelas dos personagens interpretados pelo marido. Ao ouvi-las nas idas e vindas de carro, ele "contracena" com a gravação, respondendo-a no tempo preciso para não se sobrepor a ela.

O drama japonês 'Drive My Car', de Ryûsuke Hamaguchi, foi indicado a quatro Oscars, incluindo Melhor Filme e Direção                     (Foto: fotos divulgação)
Foto: fotos divulgação O drama japonês 'Drive My Car', de Ryûsuke Hamaguchi, foi indicado a quatro Oscars, incluindo Melhor Filme e Direção

A relação do casal aparenta ser de equilíbrio e entendimento mútuos, mas acaba atravessada por não-ditos, segredos e incompreensões. Após apresentado o panorama da relação, uma cartela surge na tela informando um pulo temporal de dois anos — e é somente neste momento, inclusive, que aparecem os créditos iniciais da produção.

"Drive My Car" não se acanha em dispor, para cada situação apresentada, o tempo devido. Não é uma escolha que nega elipses temporais, como fica evidente, mas sim um gesto que afirma a necessidade das coisas durarem o tempo que precisam durar, como almeja o método cênico do protagonista.

O pulo temporal de dois anos apresenta, enfim, Yusuke em viagem, no Saab 900, até Hiroshima, para onde vai ao aceitar participar de uma residência teatral da qual deve sair uma montagem multilíngue de "Tio Vânia", do dramaturgo russo Anton Tchékhov. Um elenco formado por intérpretes do Japão, da Coreia e das Filipinas, entre outros países, é reunido para encenar o texto.

Misaki surge em cena quando o diretor é informado que, por exigência do festival no qual a ação ocorre, ele precisa ser acompanhado pela motorista designada. Inicialmente reticente, Yusuke acaba cedendo e deixando o carro sob os cuidados da jovem, discreta e profissional.

Aos poucos, tanto no processo da montagem do texto de Tchékhov, como nos longos trajetos de carro de Yusuke e Misaki — o diretor pediu para se hospedar a uma hora do teatro da cidade para poder ter tempo de ouvir as fitas nas viagens —, começam a emergir mágoas, questões e confusões do passado não somente do diretor, mas também de outras personagens do entorno.

A costura feita em "Drive My Car" vai do espalhamento entre as reflexões da obra de Tchékhov e as questões de Yusuke ao paralelo entre os limites da verdade na atuação e nas relações interpessoais, passando pelas possibilidades e impossibilidades de comunicação entre quem não fala (simbólica ou concretamente) a mesma língua.

Tal construção, reforça-se, é cerzida com esmero pelo roteiro escrito pelo diretor Ryûsuke Hamaguchi e pelo co-roteirista Takamasa Oe, que deixa "linhas" soltas, por exemplo, no "prólogo" do filme para retomá-las e costurá-las depois, de maneira a constituir uma colcha de retalhos coesa e significativa.

"Drive My Car" ensina, entre tanta coisa, que o tempo de uma ação é demandado pela própria ação, seja ela a costura, como na metáfora proposta, a escrita de um texto, o processo de uma obra em conjunto, a construção de uma relação, ou, até, uma viagem de carro. Longas ou curtas, por atalhos ou por caminhos mais longos, as ações duram o tempo que precisam durar para existir.

Confira o trailer:

Drive My Car

Quando: 19 horas (Cinema do Dragão) e 13h05 e 18h40 (Iguatemi)

Onde: Respectivamente rua Dragão do Mar, 81, e av. Washington Soares, 85

Quanto: R$ 16 (inteira do Cinema do Dragão); de R$ 26 a R$ 34 (inteira do Iguatemi, dependendo do dia da semana)

Infos: @cinemadodragao e www.iguatemifortaleza.com.br/cinema

Disponível a partir de 1º/4 na Mubi

Foto do João Gabriel Tréz

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