A psicanalista Claudia Molinna é também advogada, especialista em Direito Penal e Médico. Foi uma das primeiras Delegadas da Mulher no Brasil e fundadora da tropa de elite da Polícia Civil de Pernambuco, o GOE - Grupo de Operações Especiais. Atualmente, é vice-presidente da Associação dos Delegados e Delegadas da Polícia Civil do Estado de Pernambuco
Por que é tão difícil abrir mão do próprio desequilíbrio?
O problema é que o desequilíbrio cobra, seja nas relações que se desgastam, nas decisões tomadas sob emoção crua, no corpo que adoece ou na mente que não descansa
Foto: Pexels/Life Folk
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Há pessoas que dizem querer paz, mas vivem como se precisassem do conflito para existir. Reclamam do cansaço, mas se alimentam do excesso. Falam em maturidade, enquanto defendem reações que já não fazem sentido nem para elas mesmas. Não é incoerência consciente, mas apego. O desequilíbrio, para muitos, deixou de ser um problema. Tornou-se uma zona conhecida.
Esse fenômeno não é novo. O ser humano sempre encontrou formas elegantes de justificar aquilo que não queria rever. Em outras épocas, chamava-se temperamento forte, honra ferida, sangue quente.
Hoje recebe nomes mais sofisticados, mas cumpre a mesma função, ou seja, proteger o sujeito do confronto interno. Enquanto o excesso é defendido como traço de identidade, a mudança pode ser adiada indefinidamente.
Há algo sedutor no desequilíbrio. Ele cria movimento, drama e intensidade. Quem vive em estado de tensão permanente, raramente passa despercebido.
O entorno se ajusta, pisa em ovos, aprende a ceder. O desequilíbrio reorganiza o espaço ao seu redor, o que gera poder. Um poder instável, desgastante, mas real. Abrir mão dele exige mais do que boa intenção, exige maturidade.
Equilíbrio, ao contrário do que se imagina, não traz aplausos. Ele é discreto. Não faz barulho, não ameaça, não impõe. Por isso mesmo, costuma ser subestimado. Desde sempre, a moderação foi vista como virtude difícil e pouco atraente. Não cria espetáculo nem alimenta narrativas heroicas. Exige autocontenção, algo que nunca foi confortável para quem se acostumou a se explicar pelo excesso.
O problema é que o desequilíbrio cobra, seja nas relações que se desgastam, nas decisões tomadas sob emoção crua, no corpo que adoece ou na mente que não descansa. Com o tempo, o sujeito passa a depender do conflito para se sentir vivo. Quando tudo se acalma, surge o vazio. E o vazio assusta mais do que o caos, porque exige elaboração, silêncio e responsabilidade.
Equilíbrio não é ausência de emoção, mas presença de consciência. É sentir raiva sem permitir que ela governe, reconhecer a dor sem transformá-la em argumento, entender que emoção explica, mas não absolve. Essa distinção sempre incomodou, porque devolve ao indivíduo aquilo que ele tenta evitar: a responsabilidade pelo próprio modo de estar no mundo.
Defender o desequilíbrio como identidade é confortável no curto prazo, pois esforço, evita revisões, preserva ganhos simbólicos. Contudo, aprisiona é o sujeito passa a repetir padrões que já não o servem, apenas porque são conhecidos. Crescer, nesse ponto, não significa mudar quem se é, mas abandonar aquilo que deixou de fazer sentido.
Talvez a pergunta mais honesta não seja por que somos desequilibrados, mas por que resistimos tanto ao equilíbrio. Enquanto o excesso for tratado como verdade interior, o sofrimento continuará sendo confundido com autenticidade. E não há liberdade possível quando o caos vira morada permanente.
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