Danilo Fontenelle Sampaio é formado em Direito pela UFC, mestre em Direito pela mesma Universidade e doutor em Direito pela PUC/SP. É professor universitário, juiz federal da 11ª vara e escritor de livros jurídicos e infanto-juvenis
Danilo Fontenelle Sampaio é formado em Direito pela UFC, mestre em Direito pela mesma Universidade e doutor em Direito pela PUC/SP. É professor universitário, juiz federal da 11ª vara e escritor de livros jurídicos e infanto-juvenis
Na Grécia Antiga, dois amigos, Damon e Phíntias, provaram ao mundo o que significava lealdade. Um ficou preso como garantia de que o outro voltaria para ser executado. E voltou. Porque amizade, naquela época, valia mais do que a própria vida.
Na Mesopotâmia, Gilgamesh e Enkidu enfrentaram monstros e deuses juntos — uma amizade que atravessou o épico, o místico e o poético.
E na Espanha de Cervantes, Dom Quixote e Sancho Pança cruzaram estradas e moinhos, entre delírios e sabedorias de boteco, um sempre sendo o espelho torto do outro.
Todas essas histórias têm algo em comum nas amizades. Mostram que um amigo de verdade está disposto a ir longe por você. Ele não questiona a viabilidade dos seus sonhos, nem quanto isso vai custar — pra você ou pra ele. Simplesmente acompanha. Pro que der e vier.
Pois bem. Um dia desses ouvi uma história de dois amigos que, em plena balada contemporânea, honraram essa tradição milenar de fidelidade. E de uma maneira que nunca imaginei.
Era uma noite de sexta qualquer, daquelas em que as luzes piscam, os copos suam e as pessoas tentam parecer mais interessantes do que realmente são. Dois amigos estavam lá, dançando, rindo e compartilhando os segredos típicos que só se revelam ao som de um DJ mal pago e bebidas com gosto de arrependimento.
Num momento de coragem líquida, um deles foi ao banheiro. Na volta, veio cabisbaixo, como quem carregava um peso maior que o da cerveja artesanal.
— Que foi? — perguntou o amigo. — Que cara é essa?
— Passei por uma rodinha de meninas. Paquerei uma, tomei um fora e agora todas estão rindo de mim. Estão ali — disse, apontando com os olhos, aquela mira silenciosa que só amigo entende.
O outro, com a calma de quem já fez besteiras homéricas e sobreviveu, indignou-se e respondeu:
— Deixa comigo. Vou resolver isso do meu jeito.
— Não precisa não, cara… deixa isso pra lá. Não foi nada demais.
— Dar o fora, pode dar, mas esculachar aí é demais...Só confia. E observe. E foi.
Caminhou até a rodinha de moças com a solenidade de quem vai colocar em prática um plano meticuloso. Passou por elas com tranquilidade, parou logo atrás do grupo e ficou ali.
Parado. Imóvel. Olhos semicerrados. Envolto na escuridão. Não disse nada. Nem olhou para ninguém. Meditativo. Quase um monge.
O amigo assistia de longe, entre curioso e temeroso, como quem vê uma bomba sendo armada sem entender onde está o pavio.
Depois de um minuto — talvez menos — as garotas começaram a se dispersar. Olhavam entre si com expressões de incômodo, franzindo o nariz. A roda se desfez como um feitiço quebrado.
O herói voltou com um sorrisinho maroto ao ponto de origem. O amigo o recebeu com olhos arregalados:
— O que você fez?
E ele, com a simplicidade de quem não espera aplausos por cumprir seu dever, respondeu:
— Fiquei lá... peidando. Silenciosa e continuamente.
Silêncio. E depois, gargalhadas. Daquelas que só acontecem entre amigos que sabem que o amor mora nos pequenos gestos. Ou nos grandes gases.
Porque, no fundo, é isso: amizade verdadeira pode até não derrotar monstros, mas nos ajuda com as armas que tem.
Fique com um amigo de verdade. Nem sempre são perfumados, nem tão educados assim. Mas seu amor é daqueles que se sente no ar — às vezes, literalmente. E são capazes de tudo por você.
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