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Repórter especial e cronista do O POVO. Vencedor de mais de 40 prêmios de jornalismo, entre eles Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Embratel, Vladimir Herzog e seis prêmios Esso. É também autor de teatro e de literatura infantil, com mais de dez publicações.

A ignorância política ambiental

Buggy em dunas e praias, em Fortaleza, é retrocesso de um marco civilizatório já acordado. Não é mais tempo para sanção de leis que contribuem para o agravamento da degradação ambiental
Tipo Crônica
0512demitri (Foto: 0512demitri)
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Provavelmente, a exemplo do ex-prefeito Roberto Cláudio (PDT) e do atual José Sarto (PDT), o vereador Gardel Rolim (PDT) pouco sabe sobre o que ainda resta do ecossistema de dunas em Fortaleza. Caso soubesse, e se houvesse sensibilidade, não teria proposto o tal "buggy-turismo".

Uma proposta de lei que contribui mais ainda com a vulnerabilidade das "praias, dunas, lagoas e sítios de valor histórico de todo o território municipal". Infelizmente, a falta de inteligência ambiental da maioria dos vereadores não é matéria superada na Câmara de Fortaleza.

A aprovação do projeto de lei, talvez, seja parte da desinformação ou de uma assessoria competente para assuntos sobre dunas, praias e recursos hídricos sobreviventes na Capital esgarçada. Locais para o desfrute a pé, de gente respeitosa em trilhas sustentáveis e sem motores e rodas atropelando habitats e seres vivos.

 

Em Pachacamac não é permitido veículo de visitante. Do museu, desembarcávamos da van e caminhávamos a pé entre pirâmides e outras construções afloradas do passado

 

Nos arredores de Lima, no Peru, visitei sítios históricos onde nem garrafa plástica com água era permitido. Lá, não admitem a possibilidade de lixo e mais impacto. O visitante só pode levar a câmera fotográfica ou celular.

E não era pouco o sol nas trilhas de Pachacamac, uma cidade do passado pré-Inca desenterrada perto da metrópole nascida dos povos indígenas.

Em Pachacamac não é permitido veículo de visitante. Do museu, desembarcávamos da van e caminhávamos a pé entre pirâmides e outras construções afloradas do passado. Quem topava o passeio, sabia dos obstáculos. Era parte da aventura.

 

Aqui, temos o desprazer de inventar retrocessos em nome de subempregos. O que sobrou de dunas em Fortaleza não precisa de mais uma lei degradante

 

No Parque Arqueológico do Vale do Côa, esquadrinhado na foz dos rios Côa e Douro, em Portugal, só entra carro ligado à Unidade de Conservação e, ainda assim, os 4x4 não chegam perto da área dos gigantescos desenhos rupestres pré-históricos. Uma parte da visita, fiz a pé.

Aqui, temos o desprazer de inventar retrocessos em nome de subempregos. O que sobrou de dunas em Fortaleza - na Barra do Ceará, no Cocó, Praia do Futuro, Cidade 2000 e na Sabiaguaba (quase tudo ocupado na marra e com a conivência de Termos de Ajustamento de Conduta) - não precisa de mais uma lei degradante.

Na segunda gestão de Roberto Cláudio, fui gentilmente convidado para um almoço no arborizado Paço Municipal. Lá pelas tantas, numa conversa que não foi puxada por mim, RC me disse que não conhecia o Parque Natural das Dunas da Sabiaguaba.

 

O prefeito da Cidade, no sexto ano de gestão (e tendo sido deputado estadual), não conhecer o maior parque ecológico "gerido" do Município!?

 

Achei honesta a revelação, mas de uma gravidade absurda. O prefeito da Cidade, no sexto ano de gestão (e tendo sido deputado estadual), não conhecer o maior parque ecológico "gerido" pelo Município!? Ele lembrou da infância, de um terreno que o pai (um homem sério) havia comprado nos anos 70. Pronto, era a referência mais forte.

Estava explicado, pelo menos em parte, a falta de sensibilidade e interesse de RC pelo Parque da Sabiaguaba e a coleção exuberante de dunas. Um ecossistema imprescindível para Fortaleza e as regulações ambientais.

Inclusive, uma agenda positiva ignorada pela gestão de RC em meio a discussões mundiais sobre o aquecimento global e a necessidade de novas práticas contra a emissão de gases nocivos. Criado em 2006, o Parque da Sabiaguaba é maltratado e degradado até aqui pela gestão municipal e pela população.

 

O Parque da Sabiaguaba nunca teve um gestor, nunca teve uma sede, não tem um plano para visitação sustentável, não é cercado, não tem segurança específica e, por isso, é alvo de invasões de ricos e pobres

 

Nunca teve um gestor, nunca teve uma sede, não tem um plano para visitação sustentável, não é cercado, não tem segurança específica e, por isso, é alvo de invasões de ricos e pobres. O Conselho Gestor só referenda o abandono e a CE-010 é o atestado mais visível de agressão consentida pelo Município, Estado e Poder Judiciário.

Daí, caro vereador Gardel Rolim, o senhor contribuiria de verdade com a geração de empregos sustentáveis se, de fato, tivesse um diagnóstico da situação das dunas de Fortaleza. Imaginou, se propusesse ao prefeito Sarto uma nova política ambiental para esses ecossistemas?

O Parque da Sabiaguaba funcionando realmente como parque? A Unidade de Conservação sendo usada de maneira sustentável com a formação de guias de turismo e a criação de postos de trabalho não degradadores?

 

A presença do buggy em qualquer duna é destruidora. De praias nem se fala. A praia é lugar de gente, não de veículos

 

A presença do buggy em qualquer duna é destruidora. De praias nem se fala. A praia é lugar de gente, não de veículos. No contexto atual, em que o mundo junta os cacos para evitar o game over, a saída não é impactar mais ainda os territórios onde restam dunas em Fortaleza.

Veja, caro vereador, o Parque da Sabiaguaba é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral e, mesmo assim, vive sendo invadido por homens e mulheres em seus 4x4 e quadriciclos.

Imagine se seu projeto de lei é sancionado? Dunas e algumas praias são lugares de reprodução de tartarugas, aves, de outros bichos "invisíveis", de uma vegetação singular e de água. A preservação desses territórios atrai turistas, gera renda e dignidade ambiental.

 

Resta ao prefeito José Sarto uma oportunidade para dizer "não" a possibilidade de mais destruição ambiental na Cidade.


E, na real, não há praias e dunas em Fortaleza onde o buggy não acuará banhistas e os ecossistemas. Isso já era marco civilizatório.

Resta ao prefeito José Sarto uma oportunidade para dizer "não" a possibilidade de mais destruição ambiental na Cidade.

Quem sabe, o começo de relacionamento respeitoso e sustentável com o Parque da Sabiaguaba e outros campos de dunas. E, atente prefeito, é uma agenda positiva para a gestão. Não entendo porque, até hoje, não há essa compreensão.

 

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