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'O novato é casado?’: atriz conta como criou cena icônica de ‘O Agente Secreto'
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Jansen Lucas é coordenador de criação no O POVO, publicitário, designer e artista visual. Dedica-se a escrever sobre cultura com foco em produções de quadrinhos, cinema e literatura, explorando as conexões entre arte, narrativa e mídia em seus trabalhos

Jansen Lucas arte e cultura

'O novato é casado?’: atriz conta como criou cena icônica de ‘O Agente Secreto'

Em entrevista exclusiva, a atriz cearense Geane Albuquerque fala sobre o impacto de "O Agente Secreto", vencedor do Globo de Ouro, na valorização do cinema nordestino e na mudança de olhar sobre a Ditadura Militar fora do eixo Rio–São Paulo
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FORTALEZA, CEARÁ, BRASIL, 12-01-2026: Entrevista com a atriz Geanne Albuquerque, que atuou no filme ganhador do Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa, O Agente Secreto, em 2026. (Foto: Fernanda Barros/ O Povo) (Foto: FERNANDA BARROS)
Foto: FERNANDA BARROS FORTALEZA, CEARÁ, BRASIL, 12-01-2026: Entrevista com a atriz Geanne Albuquerque, que atuou no filme ganhador do Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa, O Agente Secreto, em 2026. (Foto: Fernanda Barros/ O Povo)

A noite de gala do Globo de Ouro, em Los Angeles, não apenas celebrou vencedores: redesenhou o mapa simbólico do audiovisual brasileiro.

Ao coroar “O Agente Secreto” como Melhor Filme Internacional e consagrar Wagner Moura como o primeiro ator latino-americano de língua portuguesa a vencer como “Melhor Ator em Filme Dramático”, a premiação projetou para o centro do debate mundial uma obra que ousa deslocar o eixo da nossa própria memória histórica.

Dirigido por Kleber Mendonça Filho e ambientado no Recife de 1977, o filme retira a narrativa da Ditadura Militar do tradicional eixo Sul–Sudeste e a reposiciona no Nordeste, erguendo um trailer em que a espionagem funciona como metáfora de um país vigiado, silenciado e permanentemente em suspeita.

Essa consagração internacional reverbera com especial intensidade no Ceará. No tecido dessa narrativa de atmosfera densa, marcada menos pela ação e mais pela tensão do não-dito e pelo medo do apagamento da memória, destaca-se a presença da atriz cearense Geane Albuquerque, intérprete de Elizângela, ao lado do também cearense Robério Diógenes, que vive o Delegado Euclides, personagem de destaque na trama.

Eles integram o elenco que dá forma a esse Brasil de corredores burocráticos e cinemas demolidos, onde o perigo raramente é anunciado, mas sempre é pressentido.

O POVO+ conversou com a atriz, com exclusividade, sobre os bastidores da produção, a convivência com o elenco premiado e o impacto de ver o cinema nordestino ocupar o topo do mundo.

FORTALEZA, CEARÁ, BRASIL, 12-01-2026: Entrevista com a atriz Geanne Albuquerque, que atuou no filme ganhador do Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa, O Agente Secreto, em 2026. (Foto: Fernanda Barros/ O Povo)(Foto: FERNANDA BARROS)
Foto: FERNANDA BARROS FORTALEZA, CEARÁ, BRASIL, 12-01-2026: Entrevista com a atriz Geanne Albuquerque, que atuou no filme ganhador do Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa, O Agente Secreto, em 2026. (Foto: Fernanda Barros/ O Povo)

O POVO+: O filme tem sido celebrado por deslocar o olhar sobre a Ditadura para o Nordeste, mostrando a repressão fora do eixo Rio–SP. Para vocês, qual o peso simbólico de ver uma história com o nosso espírito conquistar o principal prêmio da indústria estrangeira?

Geane Albuquerque - Acho que existe um peso simbólico muito profundo. Por décadas, a ditadura foi narrada a partir do eixo Rio-São Paulo, e isso cria uma espécie de geografia exclusiva da memória.

“O Agente Secreto” mostra que a repressão existiu de forma brutal também no Nordeste, somos muitos sotaques no filme e no nosso território.

Ver uma história do Brasil ser contada com o nosso espírito, com o nosso sotaque e nossa paisagem política, conquistar prêmios importantes da indústria estrangeira é quase como corrigir uma injustiça histórica e nos coloca na visibilidade que o Brasil deseja e merece.

Esse momento provar, de forma muito concreta, que o Brasil é múltiplo, e que quando a gente desloca o olhar, o mundo também desloca junto.

OP+: O longa aposta menos na ação e mais na atmosfera de tensão marcada pelo não-dito. Como foi a preparação para construir esse tom contido, em que o medo aparece nos silêncios e olhares?

Geane – Acredito que o trabalho do Kleber fala muito sobre o poder do não-dito, do ritmo de vida fluindo naturalmente.

E a gente entende que a violência por muito não é escancarada. A ditadura, para quem viveu, não era feita de explosões o tempo todo, mas de olhares tortos, frases interrompidas, portas fechadas. Nós ensaiamos pensando sempre na tensão que circula no ar, quase como uma camada invisível.

A atuação precisava existir no entrelinhas, no jeito de respirar, nas pausas, naquela hesitação que nasce quando o personagem sabe que qualquer palavra pode ser monitorada. Foi um desafio bonito, porque exigiu uma escuta muito fina do outro e um corpo sempre alerta.

Geane Albuquerque dá vida a Elizângela, à esquerda na imagem, funcionária de uma repartição pública que se torna parte do cotidiano de Marcelo (Wagner Moura) enquanto ele tenta se manter oculto de seus perseguidores.(Foto: Neon Studios/Divulgação)
Foto: Neon Studios/Divulgação Geane Albuquerque dá vida a Elizângela, à esquerda na imagem, funcionária de uma repartição pública que se torna parte do cotidiano de Marcelo (Wagner Moura) enquanto ele tenta se manter oculto de seus perseguidores.

OP+: Wagner Moura rompeu uma barreira histórica ao vencer como “Melhor Ator” no Globo de Ouro. Como foi a troca com ele no set? Durante as filmagens já era possível perceber que se tratava de uma atuação excepcional?

Geane – Trabalhar com Wagner foi uma troca bonita de observação e aprendizado. Ele é um ator que pensa o Brasil, que pensa a política, e isso aparece nos gestos, no ritmo, até na maneira como ele constrói uma frase.

Nos ensaios já dava pra sentir que ele estava alcançando algo especial, não pelo excesso, mas pela precisão e tranquilidade de colocar em cena a presença, o estado vivo de quem sabe do que estamos falando, de quem sabe do Brasil.

Ele conseguia criar camadas muito profundas na interpretação e a nossa troca vinha dessa generosidade que ele tem na voz e no olhar. Sempre atento e disponível para nos deixar à vontade para também jogar. Ele tem essa inteligência cênica de um grande ator e a vitória dele não surpreende.

A surpresa ficou sobre a crítica internacional que finalmente reconheceu o trabalho de uma vida feito por Wagner.

OP+: Uma das cenas mais icônicas do filme é “a cena da funcionária comissionada”, quando Elizângela solta a frase superdivertida sobre o novato. Como ela foi construída?

Geane – Eu sou muito feliz por ter feito a Elizângela, por ter tido a oportunidade de dar vida a ela. Sinto que a construção dessa cena foi muito confortável.

O Kleber confia muito nos atores com quem trabalha. Eu fiz apenas um teste, um vídeo, nada além disso. Não tive dois testes nem nada parecido: fiz o vídeo e, logo depois, veio esse convite super especial para o filme.

Acho que ele confia tanto que, no momento da cena, pede improviso. A frase icônica é um improviso: “O novato é casado ou aprecia a companhia de mulheres?”. Foi mais ou menos assim: ele disse “Geane, e se a gente fizesse isso aqui…?”. Ele falou a frase e eu disse: “Tá, pode repetir só mais uma vez?”. Ele repetiu e pronto: foi isso. Gravamos.

OP+: O filme traz uma metáfora forte sobre o apagamento da cultura, com cinemas de rua sendo substituídos por prédios burocráticos. Como essa reflexão ressoou em vocês, considerando a luta constante da classe artística no Brasil e no Ceará?

Geane – A metáfora dos cinemas de rua sendo engolidos por prédios burocráticos incomoda porque ela não é uma ficção, ela existe, e particularmente me toca profundamente sendo fazedora da cultura.

Fortaleza a cada ano tem menos prédios históricos, tem menos memórias porque elas estão se transformando em estacionamentos.

A cada espaço cultural, sede de grupos, que fecha, a gente perde um pedaço de memória coletiva. No Ceará, nós lutamos com o mesmo fôlego: pela sobrevivência dos grupos, dos editais, dos espaços de formação.

Quando o filme coloca essa ferida em primeiro plano, ele nos lembra que a cultura não desaparece por acaso; ela é apagada. E ao mesmo tempo afirma, com muita força, que a arte é resistência, é documentação, é permanência.

OP+: Com dois Globos de Ouro, o filme se torna um dos maiores símbolos do cinema brasileiro hoje. Que impacto essa conquista pode ter no mercado local e na visibilidade dos talentos do Ceará e do Nordeste?

Geane – Essa conquista abre uma janela poderosa. Não é só sobre prêmios; é sobre narrativa, sobre pertencimento.

Quando um filme feito no Nordeste ganha espaço, o mundo passa a enxergar o Brasil por outros ângulos. E a gente espera que isso mova cada vez mais as possibilidades para que gente do Nordeste e do Ceará produza e visibilize nossos atores, diretores, técnicos.

O Nordeste deixa de ocupar a posição indigna que muitas vezes nos empurram. A vitória envia uma mensagem clara para o mercado: existe cinema pulsando aqui, e ele tem força estética, política e inventiva para dialogar com o mundo.

OP+: Isso pode atrair mais produções e olhares para os talentos do Ceará e do Nordeste?

Geane – Acredito profundamente que essa vitória não vai ser um aspecto isolado na construção de descentralizar o Brasil. Isso tudo já é parte de um movimento mais amplo.

O cinema feito no Nordeste não é ‘regional’, é universal. Temos histórias, paisagens humanas e estéticas que falam com qualquer público.

Uma conquista como essa mexe no imaginário da indústria: produtores passam a olhar para cá com mais curiosidade, mais respeito. E isso pode sim gerar novas produções, novas parcerias e mais investimento. Se antes era preciso explicar por que filmar aqui, agora talvez seja o contrário: será preciso justificar por que não filmar. O Ceará merece o mundo. O Nordeste merece o mundo.

OP+: Quais são as principais novidades de 2026? Algum novo projeto? Pode compartilhar alguns detalhes?

Geane – Neste momento, estou gravando o primeiro longa da Natália Maia, chamado “A Estranha Familiar”, que conta com um grande elenco talentoso de Fortaleza. E também estarei em cartaz com a Inquieta Cia.

Teremos “Pra Frente o Pior” no dia 29 de janeiro às 20h e “Tchau, Amor" no dia 30 de janeiro, também às 20h, no Teatro José de Alencar. Ingressos já disponíveis no Sympla.

Em fevereiro, “Tchau, Amor” continua em cartaz às sextas-feiras no CCBNB. E nosso novo espetáculo, chamado “Construção Civil”, também entra em cartaz às terças-feiras, às 20h, no CCBNB.

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