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Carne na cesta básica é a pior derrota de Arthur Lira na Câmara
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João Paulo Biage é jornalista há 13 anos e especialista em Comunicação Pública. De Brasília, acompanha, todos os dias, os passos dos parlamentares no Congresso Nacional e a movimentação no Palácio do Planalto, local de trabalho do presidente. É repórter e comentarista do programa O POVO News e colunista do O POVO Mais

Carne na cesta básica é a pior derrota de Arthur Lira na Câmara

O presidente da Câmara chegou a cantar vitória antes da votação, mas foi surpreendido pela bancada do agronegócio. Agora, Lira se vê com menos poderes em momento sensível: a sucessão dele.
PRESIDENTE da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (Foto: LULA MARQUES)
Foto: LULA MARQUES PRESIDENTE da Câmara dos Deputados, Arthur Lira

Pode não parecer, mas a Câmara dos Deputados é gigantesca e extremamente mal dividida. Num corredor só ficam três lideranças (PSD, PDT e Republicanos) e a presidência da Casa. Com a aproximação da votação do Projeto de Lei Complementar que regulamenta a reforma tributária, jornalistas se aglomeravam entre aquelas paredes, num espaço estreito. Os deputados só passavam com muitos pedidos de licença e, claro, contando alguns bastidores da última reunião que precedeu a decisão em plenário.

O relógio marcava 16h30 quando o tal último colégio de líderes acabou. Já estava tudo alinhado para votar, menos o destaque da proteína animal com taxa zero. O principal aliado de Arthur Lira (PP-AL) saiu da sala, foi cercado e cravou: não vai ter carne na cesta básica. Com um sorriso no rosto, ele celebrou a vitória de Lira, dizendo que estava tudo acordado, com o apoio dos partidos de centro. “É uma isenção populista e que não funciona para a população de baixa renda. Todo mundo vai ter que pagar mais”, afirmou, antes de entrar na sala do presidente.

Horas antes, o líder do governo, José Guimarães (PT-CE), já havia precificado a inclusão das carnes no relatório e chamou para o governo a decisão. “O presidente Lula me ligou e autorizou a base a votar pela inclusão da matéria”, afirmou o deputado, que não esqueceu de sinalizar ao presidente Arthur Lira, o principal articulador contra a taxação zero das proteínas animais. “Mas o plenário é soberano. E nós sempre decidimos em comum acordo”, apontou o líder de Lula.

Tudo parecia nebuloso, mas ouvir aquela informação, naquele momento, vindo de quem veio, era, praticamente, uma certeza. Saí de lá e encontrei uma amiga no salão verde. Trocamos informações e ela me deu o outro lado da história: o presidente da Frente Parlamentar do Agronegócio (FPA), Pedro Lupion (PP-PR), garantiu que todos os deputados que fazem parte do colegiado iam votar a favor da taxação zero. São 350, número mais que necessário para aprovar um Projeto de Lei Complementar (257 votos).

Entrei ao vivo na rádio O POVO CBN Cariri querendo cravar a informação, mas adotei a cautela e falei em probabilidades. Claro que meu pêndulo puxou mais para o lado de Arthur Lira. São quase 4 anos na presidência da Câmara dos Deputados. Duvidei da força de Lupion e da FPA, não por serem quem são, mas por ver que Lira estava do outro lado. Em quedas de braço dentro do PP e da Câmara, Lira jamais havia perdido.

Chegou o dia da derrota

A partir daquele momento, os parlamentares queriam tratar de outros assuntos: cooperativas, construção civil e até armas. Proteína animal era protegida por uma espécie de suspense silencioso. Abordei 7 ou 8 deputados, só um quis se manifestar. “Só a pressão do presidente Lira pode retirar a carne da cesta básica”.

Começa a votação e tudo vai se encaixando no quebra-cabeças montado por Lira. Ele foi o principal articulador da reforma tributária, praticamente o relator da matéria. Toda a dança foi tocada pelo presidente da Câmara dos Deputados até a última votação.

José Guimarães convoca uma coletiva de última hora e leva com ele Reginaldo Lopes (PT-MG), o relator de fato do PLP 68. Ali, houve uma tentativa de amenizar a derrota de Arthur Lira. “Nós fizemos tudo na base do diálogo e o Reginaldo acatou o destaque e inseriu a proteína animal na cesta básica”, afirmou Guimarães. Mas não teve como: o regimento exigiu a votação, já que PLP tem quórum mínimo de 257 votos. Ao fim, 477 votos a favor e só 3 contra.

Claro que o acordo selou a margem gigantesca, mas o retrato de Lira ao fim da votação, cabisbaixo e evitando comentar o ocorrido, dava o tom da derrota. A pouco mais de 6 meses da sucessão à Câmara, Arthur Lira parece ver o poder minguar e isso o preocupa.

 

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