É o(a) profissional cuja função é exclusivamente ouvir o leitor, ouvinte, internauta e o seguidor do Grupo de Comunicação O POVO, nas suas críticas, sugestões e comentários. Atualmente está no cargo o jornalista João Marcelo Sena, especialista em Política Internacional. Foi repórter de Esportes, de Cidades e editor de Capa do O POVO e de Política
Colocar em evidência o número de foragidos é a abordagem jornalisticamente mais relevante, podem argumentar alguns. É verdade. É no dado da evasão que está a quebra de expectativa que faz o fato receber o status de notícia. Contudo, os problemas estão mais nas estatísticas estarem desacompanhadas de elementos que auxiliem os leitores a terem uma compreensão mais ampla
Foto: Samuel Setubal
Complexo Penitenciario Estadual de Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza
Há um conceito teórico no jornalismo chamado “framing” ou “news framing”. Para não submeter os leitores a um inglês desnecessário, é uma definição traduzida em língua portuguesa como “enquadramento noticioso”. Tentando ser o mais sucinto possível, trata-se de um método que consiste em selecionar e destacar alguns aspectos de um fato noticioso em detrimento a outros.
Naturalmente, é um processo baseado em escolhas. E estas podem ser conscientes, com a intenção deliberada de atender a um propósito ou a um interesse específico, ou inconscientes, influenciadas inclusive pelo meio social no qual os indivíduos que produzem a notícia estão inseridos. Os estudos sobre este conceito buscam avaliar como e quanto tais enquadramentos noticiosos podem delinear as percepções em torno de um acontecimento.
Deixando de lado agora o papo mais teórico. Ao longo da última semana foram publicados em vários veículos os dados referentes à “saidinha de Natal 2025”. No Brasil, segundo matéria do portal g1 com base em números divulgados por 18 Unidades da Federação, 48.276 presos tiveram direito ao benefício. Destes, 46.314 (95,94%) retornaram aos presídios, enquanto 1.962 (4,06%) não se apresentaram e passaram a ser considerados foragidos.
Na última quinta-feira, 15, O POVO publicou matéria com os números do Ceará, destacando no título que cinco dos 101 presos com direito à “saidinha” no fim do ano não retornaram aos presídios. Um sexto interno foi preso em flagrante por tráfico de drogas. O índice de evasão no Ceará, portanto, é de 4,95%, próximo do que foi observado em nível nacional e semelhante ao registrado em anos anteriores nesse período.
Os números variam a depender do Estado. O Rio de Janeiro foi o que mais se descolou da média, com 14% de não-retorno, enquanto no Tocantins todos os 177 presos voltaram para seguir com o cumprimento de pena. Mas nos principais veículos de imprensa, foi unânime o destaque dado aos números de presos que não regressaram, mesmo estes sendo minoria.
Mas colocar em evidência o número de foragidos é a abordagem jornalisticamente mais relevante, podem argumentar alguns. É verdade. É no dado da evasão que está a quebra de expectativa que faz o fato receber o status de notícia. Contudo, os problemas estão mais nas estatísticas estarem desacompanhadas de elementos que auxiliem os leitores a terem uma compreensão mais ampla.
Em outras palavras, o número limpo e seco fomenta uma percepção de lugar comum. Nas redes sociais, a escolha por este enfoque de destaque nos presos que não voltaram foi uma bola levantada para o discurso de teor punitivista na caixa de comentários. Muitos deles evidenciando o desconhecimento e a desinformação gerais acerca de como funcionam as saídas temporárias e seus critérios.
Carência de informações
A própria matéria do O POVO e a postagem referente a ela nas redes, da forma como foram publicadas, contribuem para reforçar esse discurso punitivista, pouco interessado a de fato entender ou discutir o propósito da saída temporária como instrumento de ressocialização.
Faltaram, por exemplo, informações importantes como explicar que têm direito ao benefício apenas pessoas em regime semiaberto, que cumpriram parte da pena e têm bom comportamento e não cometeram crimes hediondos. Ou seja, uma parcela reduzida da população carcerária.
Informações estas que estavam presentes na matéria “Mitos e verdades sobre a saída temporária de presos”, publicada no portal O POVO em 4 de dezembro de 2025. Este texto detalhou vários aspectos do dispositivo de ressocialização, tomando como exemplo e ponto de partida o caso de Jair Bolsonaro (PL), que não atende aos requisitos necessários para ter direito ao benefício.
Havia um contexto para esse conteúdo. Dois dias antes, O POVO publicara informação errada de que o ex-presidente, preso na semana anterior após tentar violar a tornozeleira eletrônica, não teria direito a usufruir da “saidinha” devido às mudanças na Lei de Execução Penal aprovadas em maio de 2024 com amplo apoio de parlamentares bolsonaristas. O erro com a falsa ironia, neste caso, serviu de prato cheio para os críticos de Bolsonaro nas redes.
Voltando à matéria publicada na última semana sobre a “saidinha de Natal”, o texto do O POVO careceu dessas informações que poderiam proporcionar uma visão além dos números registrados. Ao não possibilitar uma leitura mais ampla, fazendo um mero enquadramento das estatísticas de presos que não voltam para unidades prisionais, os conteúdos que abordam o tema acabam por moldar essa concepção limitada de que a saidinha é um “liberou geral para bandido”.
E direcionam as percepções para um lugar comum no qual reside o discurso de que se deve punir a qualquer custo, regredindo o nível do debate e criando julgamentos distorcidos da realidade.
Duas sugestões
Para ir além dos chavões, deixo aqui duas dicas sobre o tema das saídas temporárias. Uma é a última edição do podcast Rádio Novelo Apresenta, cujo título é “Sem saída”. Contando histórias de mulheres em regime semiaberto, o episódio detalha como funciona na prática o instrumento de ressocialização. Além de discutir o futuro dele após as mudanças na Lei de Execução Penal em 2024.
Outra é o relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicado em julho de 2024 com as primeiras avaliações de impacto da extinção das saídas temporárias. Destaco a seguir um trecho da conclusão do documento. “...a redução das oportunidades de reconstrução e fortalecimento das relações familiares e comunitárias de pessoas em cumprimento de pena vai de encontro ao objetivo de “proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado” (artigo 1º da LEP) e acaba por fazer aumentar a pressão dentro dos estabelecimentos prisionais, incrementando a deterioração de um sistema que opera em modo de violação estrutural de direitos fundamentais…”.
Fios soltos no Data Center
Na última quinta-feira, 15, foram iniciadas as obras de construção do data center do TikTok no Ceará. Mas a principal novidade foi a revelação feita por Rodrigo Abreu, CEO da Omnia Data Centers, de que estava descartada a utilização de água de reúso do esgoto como insumo para resfriar os equipamentos.
Ambientalistas e comunidades do entorno de Pecém têm feito duras críticas ao projeto nos últimos meses alertando para o risco de despender uma grande quantidade de água para resfriar as máquinas do data center. Em resposta, membros do governo do Estado foram bem enfáticos em garantir a aplicação da água de reúso em circuito fechado, o que diminuiria as perdas, em teoria.
O que poderia ser uma boa notícia na verdade deixou muitas pontas soltas. A matéria do O POVO focou apenas nas declarações do CEO da Omnia Data Centers. Este, por sua vez, garantiu que o consumo de água previsto para o projeto é de 3 mil litros por dia, o que segundo ele “equivale ao consumo de sete residências”.
Faltou uma postura mais questionadora do O POVO acerca da mudança e dos números apresentados. A matéria não ouviu membros do governo, tampouco especialistas em meio ambiente e comunidades próximas ao Pecém para que comentem o caso.
O projeto do data center do TikTok menciona investimentos que giram em torno de R$ 200 bilhões, com “b” de ByteDance. Quer dizer que depois de tantas promessas e garantias de que os equipamentos funcionariam com água de reúso, descobriram só agora que não precisam de tanta água assim para resfriar? É preciso entender melhor essa história ouvindo mais atores envolvidos.
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