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Regina Ribeiro é jornalista e leitora voraz de notícias e de livros. Já foi editora de Economia e de Cultura do O POVO. Atualmente é editora da Edições Demócrito Rocha

Uma pausa para o amor

O gosto por música clássica, aliás por todo tipo de música pode ser o marco de um relacionamento
Tipo Análise

A música clássica entrou na minha vida junto com meu marido. Enquanto namorávamos, confesso, eu ouvia como uma novidade a música que, segundo o meu então namorado, era a “excelência” da arte etc e tal. Quando se deu o casamento, o que era esporádico, virou rotina. Bach, Haendel, Mozart, Schubert, Verdi, Mendelssohn, Haydn, Vivald entravam e saíam de manhã, tarde e noite do 3 em 1 usado que havíamos adquirido pouco antes do casório.

Na “nossa casa” só se ouvia clássicos. “Olha que ária linda! É Bizet”. Isso porque ele já havia notado minha impaciência. Na verdade, nossa primeira briga séria se deu quando falei que estava cansada daquele ritual de tanto clássico. Ele não gostou. “Como é que você encontra substituto para obras-primas?”, lamentou o rapaz de 24 anos. “Pois saiba que clássico pra mim é Tom Jobim e Chico Buarque”. “Essa comparação é descabida”. A confusão troou abafada pelo pobre do Bizet, que foi silenciado por alguns dias até voltar a reinar.

Há duas semanas, ele estava triste. Teríamos de levar os discos para o contêiner que alugamos para guardar parte dos nossos livros, discos e alguns objetos pessoais. “Tenho a impressão de que nunca mais vou ver esses discos”. A frase me tocou tanto que disse pra ele parar de drama, porque os discos queridos ficariam em casa. E ele poderia ir ao contêiner até todo dia para ver os discos. Havia uma tristeza profunda naquela separação que só foi amenizada quando deixou em casa foi muito mais do que o que se foi.
Ontem, procurei o disco da primeira briga das milhões que tivemos nessas mais de 3 décadas juntos. No livreto da ópera de Bizet o único trecho traduzido com a letra dele é um dos coros: “O amor é uma criança boêmia/ Que nunca conheceu leis/ Se tu não me amas, eu te amo/ Se eu te amar, cuidado”. Não gostei de “criança boêmia”, talvez “criança travessa” fosse melhor, e o último verso parece uma ameaça. Falei com ele que a tradução não era das melhores. Ele concordou: “Faz tanto tempo”.

Lembro com carinho da era dos clássicos. Agora, vivemos na era da música dos filmes – em suspenso, porque há mais de ano não vamos ao cinema – cujo ritual me obriga a ser – junto com ele – a última pessoa que sai da sala, porque ele quer ler os créditos da música do filme. Às vezes dá briga. O amor tem dessas coisas. O nosso está envolto dos sons.



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