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Regina Ribeiro é jornalista e leitora voraz de notícias e de livros. Já foi editora de Economia e de Cultura do O POVO. Atualmente é editora da Edições Demócrito Rocha

A possível história de um "ladrão de bicicletas"

O processo histórico brasileiro criou abismos sociais e econômicos que podem ser apontados pela prática contínua de racismo no País.
Tipo Análise

Há alguns anos, rodei o interior do Ceará devido a um projeto que envolvia o Iphan, a Seduc e a Fundação Demócrito Rocha, onde trabalhei como editora. O projeto consistia na construção de livros didáticos de história e geografia dos municípios com patrimônio histórico tombado pelo Iphan. Graças a esse projeto, conheci detalhes de um Ceará que não tinha ideia.

Espacialmente, a história de um grupo está marcada pelas ruas de uma cidade. O tempo passa, mas os vestígios permanecem. Em praticamente todos os municípios que visitei ainda há sinais da rua Larga e da Igreja do Rosário dos Pretos. A tal rua Larga que, óbvio mudou de nome, era a principal rua da cidade. Por ali passavam os homens de negócio e suas margens recebiam os sobrados revestidos com azulejos importados de Portugal que distinguiam os que tinham posses dos que não tinham.

Já a Igreja do Rosário era onde se reuniam os escravizados e, com o passar do tempo, passou a abrigar o povo pobre da cidade que trabalhava na rua Larga, mas vivia nos casebres que rodeavam as vielas que davam para os lados da “igrejinha”, como é chamada até hoje. Coincidentemente, ainda nesses dias, esses lugares continuam dividindo os habitantes de acordo com a sua renda e poder aquisitivo.

Esse mapa das cidades interioranas me veio à mente ao acompanhar o desenrolar do caso do instrutor de surfe, Matheus Ribeiro, confundido com um ladrão de bicicletas. Ao dar depoimento na delegacia, a professora de dança que acusou o rapaz de furto disse que não pensou em “racismo”, mas “apenas na bicicleta que comprou em 12 vezes”. É justo aí que mora o problema. As pessoas não pensam no racismo. Não refletem como ele se constitui e gruda da mente de tal forma que quando se olha as ações, elas parecem mesmo absurdas.

Igor Martins, o real suspeito pelo roubo da bicicleta da moça, mora em Botafogo, ou seja, na rua Larga, é branco e tem vários registros de roubo na sua trajetória. Matheus é frequentador da imaginária igrejinha do Rosário dos pretos, no Rio de Janeiro, por acaso, parado em outra rua Larga, no Leblon. Se postos um ao lado do outro - Igor e Matheus - a moça teria, talvez, apontado Matheus como o ladrão de bicicletas. Porque ela não pensa. Ela apenas age tendo como lastro a cruel história do subdesenvolvimento econômico e social brasileiro.

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