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Espedito Seleiro chega aos 80 anos mantendo em sua arte o sertão feito com o coração
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Espedito Seleiro chega aos 80 anos mantendo em sua arte o sertão feito com o coração

Em celebração ao aniversário do mestre Espedito Seleiro, especialistas de diferentes áreas discorrem sobre a multiplicidade do ofício do artista que une o tradicional ao contemporâneo
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MESTRE Espedito Seleiro, artesão do couro, em sua oficina em nova Olinda, no Cariri (Foto: tatiana fortes)
Foto: tatiana fortes MESTRE Espedito Seleiro, artesão do couro, em sua oficina em nova Olinda, no Cariri

Dos 8 até os prestes a serem completados 80 anos (na próxima terça, 29), o mestre da Cultura Espedito Seleiro já soma mais de sete décadas do ofício manual, artesanal e artístico tão característico que traz consigo. De lá para cá, vieram tempos de cores, formas e ideias marcantes, de repercussões locais e mundiais e também de promoção de alianças entre diferentes áreas. Seu Espedito promoveu diálogos entre o artesanato, a moda e o design, abriu espaço em museus daqui e de fora e conectou o tradicional à tendência. Olhares atentos para a vida e obra do mestre mostram a riqueza dos saberes e fazeres do cearense.

Nascido em Arneiroz, no Sertão dos Inhamuns, Seu Espedito começou a trabalhar com couro por influência do ofício do pai, como explica Tania Vasconcelos, arquiteta e professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e Design (Daud) da Universidade Federal do Ceará. A docente coordenou a exposição Espedito Seleiro - 80 anos de couro e alma, que ocupou o Museu de Arte da UFC entre agosto e setembro últimos. A mostra de retrospectiva de carreira mostrou o percurso histórico do trabalho do mestre com o couro - dos fazeres mais tradicionais aos mais recentes. "A primeira peça que ele produz é aos 8 anos, um bauzinho. Nesses 72 anos de trabalho, ele passa por muitas fases, muita coisa acontece", afirma Tania.

A lida com o material veio como herança dos mais velhos. "O avô e o pai de Mestre Espedito eram vaqueiros. Mas nas horas vagas das noites faziam sela, gibão, peitoral, perneira, chapéu, botas e as luvas para suas lidas com o gado", contextualiza Fabiano dos Santos Piúba, titular da secretaria da Cultura do Ceará. "Seu avô recebeu uma encomenda para fazer umas alpergatas para o Capitão Virgulino e, tempos depois, seu pai para fazer o gibão de Luiz Gonzaga. Não foi à toa que Mestre Espedito se encontrou no ofício de seleiro", segue o secretário. Outra encomenda atualizou a herança. "Alemberg Quindins da Fundação Casa Grande lhe pede para fazer uma sandália nos moldes de Lampião. E é aí que a história fica mais bonita. O que fez Mestre Espedito? Foi cavucar o tempo. No encalço dos saberes e fazeres de seu pai e de seu avô, encontrou os velhos moldes de papel desvelando o desenho e o modelo da sandália de Lampião", conta Fabiano, que consagra o mestre como "um artesão popular e tradicional, mas também um artista contemporâneo que inventou seu próprio tempo e sua arte".

A aliança cunhada entre a tradição e a modernidade é uma das principais marcas do trabalho artesanal do cearense. "Conheço o mestre Espedito Seleiro há mais de 20 anos, quando fui convidada pela (ex-primeira dama do Estado) Renata Jereissati para trabalhar na equipe que mudou o artesanato do Ceará agregando design, padronização e orientação na comercialização", recupera a estilista radicada no Ceará Ethel Whitehurst. Ela conta que, na ocasião, Espedito e outros designers desenvolveram peças voltadas para decoração e moda. "Foi essa união que mudou a vida do mestre, sem perder as raízes e essência do que veio dos seus ancestrais", aponta.

Ao fazer com que tradição e modernidade não se anulem, mas sim se aliem, Espedito se destacou. "O fazer manual e artesanal é valorizado em todo o mundo. Ele fez escola em Nova Olinda e disseminou por outras cidades", aponta Ethel. A professora Tania vê como marcação estética de virada para o artista a utilização das cores. "Quando o mestre entra com o acréscimo da cor na obra - inclusive transformando a linguagem em algo mais moderno -, ele ganha novos ares", explica. Neste início de século XXI, Espedito Seleiro trabalhou com agentes de outras áreas como a estilista cearense Gisela Frank, a estilista alagoana Martha Medeiros e os designers e artistas visuais Humberto e Fernando Campana. "Essa multiplicidade de saberes é o que dá toda essa riqueza ao trabalho. Com certeza é (algo) multidisciplinar", atesta Tania. Mais recentemente, no último dia 17, o artista não apenas foi o grande homenageado no desfile da marca Amapô no São Paulo Fashion Week, mas também assinou em co-autoria com a marca e alunos do Senac Crato o design apresentado.

"Acho que devemos fazer isso mesmo. Tem que mostrar quem a pessoa é enquanto está viva. Porque depois que morre para que serve a homenagem?", comentou rindo o mestre sobre a reverência recebida.

"Ele mantém muito do tradicional, mas com ares modernos. Cada vez mais, ele está muito próximo desse universo contemporâneo e vai agregando elementos", observa Tania.

Essa relação que o cearense estabelece entre pontos às vezes tão distantes é, enfim, uma das principais marcas não apenas profissionais, mas de vida, que carrega consigo. "Mestre Espedito ganhou reconhecimento internacional, mas nunca deixou a lida de seleiro. De artesão do couro, de mestre da cultura e de empreendedor. A gente chega em sua oficina e lá está ele: trabalhando com inventividade em seus traços arabescos do sertão; dominando com destreza a técnica do desenho e o manejo com as cores do couro; pilotando com os pés, mãos e olhos a máquina de costura num ritmo cadenciado de baião; atravessando o couro com uma maestria divina, transformando tudo em arte e em economia criativa; transmitindo seu saber para novas gerações. Tudo feito com coração, como ele mesmo diz. Por isso, em suas peças, tem sempre um coração de couro e de alma a pulsar para gente dar fé", resume o secretário Fabiano.

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Em mais.opovo.com.br você encontra a íntegra do texto do secretário da cultura do Ceará Fabiano Piúba sobre o mestre Espedito Seleiro. O designer Pedro Franco também escreve sobre a relevância do artesão do Cariri para o design.

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