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Economia

Por que Biden como presidente dos Estados Unidos ajuda a economia do Ceará

Principal parceiro comercial do Ceará, os Estados Unidos devem aumentar negócios relacionados às energias renováveis. Expectativa é que perfil conciliador do novo governo norte-americano permita que novas pontes sejam criadas entre os dois mercados
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PARACURU, CE, BRASIL, 29.06.2019: torres de energia eolica vistas dos Lençois de Paracuru.  (Fotos: Fabio Lima/O POVO) (Foto: Fabio Lima)
Foto: Fabio Lima PARACURU, CE, BRASIL, 29.06.2019: torres de energia eolica vistas dos Lençois de Paracuru. (Fotos: Fabio Lima/O POVO)

O início do governo do democrata Joe Biden nos Estados Unidos é cercado de expectativas pela melhora do ambiente comercial envolvendo a maior economia do mundo. Depois de quatro anos conturbados nas relações comerciais com Donald Trump no poder, os países esperam que o diálogo com Biden seja construtor de pontes de entendimento. Nos negócios não é diferente. E, pelo indicativo inicial, a predileção do democrata por construir uma economia americana baseada em desenvolvimento sustentável anima o Ceará.

Essa já é certeza: no novo governo dos Estados Unidos há a priorização da questão ambiental, inclusive de investimentos sustentáveis. Segundo a indicada à secretaria do Tesouro, Janet Yellen, o combate às mudanças climáticas será foco da administração. "Este é um dos problemas mais críticos que nosso país e o mundo enfrentam, representa uma ameaça existencial. O Tesouro vai cooperar procurando maneiras de direcionar o investimento sustentável", disse.

Atualmente, o Ceará já desponta como centro brasileiro produtor de energia limpa, mas também como produtor de equipamentos para essa indústria. Hoje, a exportação de manufaturados relacionados às energias renováveis, como pás eólicas, são o segundo principal item da pauta de exportação cearense, atrás somente do aço.

Torres com aerogeradores para produção de energia eólica no Ceará.
Torres com aerogeradores para produção de energia eólica no Ceará. (Foto: Camila de Almeida/O POVO)

Essa relação comercial, a do aço, no entanto, foi abalada no ano passado, principalmente por conta da pandemia. A participação americana no ranking de parceiros comerciais diminuiu 30% entre 2019 e 2020, ao mesmo tempo em que a relação com a China mais que triplicou de tamanho e com o Canadá mais do que dobrou.

Raul Santos, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará (Ibef-CE), acredita que o bom relacionamento entre as economias pode ser ampliado com base no perfil do novo presidente. "A grande diferença é que Biden é mais aberto ao diálogo, é mais eclético, enquanto Trump tinha uma linhagem exclusivista."

"O Ceará tem proximidade com os Estados Unidos. A ligação do Ceará, além de comercial, também existe de forma geográfica (o que facilitaria a logística entre os países)", analisa.

No mercado internacional, o Ceará compra principalmente insumos para as indústrias. As compras nos Estados Unidos somaram US$ 708,5 milhões, o que corresponde a um aumento de 1% em 2020, se comparado com o ano anterior. O país foi responsável por fornecer 29,36% do valor total comprado no exterior pelo Ceará. Parceiro de longa data, o país é o principal fornecedor de combustíveis minerais e vegetais, trigos, fibras de carbono e resinas epóxidas.

Para o economista e consultor empresarial Alcântara Macêdo, o atual contexto de crise deixou muitos países em momento delicado, de forma que os governos priorizam o mercado interno. Mas, baseado na histórica visão liberal democrata, que é nacionalista, mas tem uma estratégia reconhecedora do mercado externo, investidores americanos podem voltar a investir no Brasil.

"O Biden como candidato explicitou que teria uma política de manutenção do meio ambiente, com empresas que possuíssem políticas claras de preservação, que seriam bem-vistas pelo governo. O Brasil é estratégico por ser a nona economia do mundo, o que os investidores querem é uma política com compromisso de marco regulatório que dê segurança aos investimentos", observa.

Com instalação industrial para produção de pás eólicas no Complexo do Pecém, o presidente da Aeris, Alexandre Negrão, afirmou à Reuters neste mês, que a demanda do mercado americano é muito aguardada e que a posição estratégica favorece. "O principal mercado é o norte-americano, porque é o maior mercado disparado em relação aos outros. Pecém é relativamente perto de Houston, para onde as pás vão, então a gente chega com preço bem competitivo", destaca.

Outro que comemorou as possibilidades em entrevista ao O POVO, o diretor de Vendas da Vestas no Brasil, Eric Gomes, afirma que a empresa observa com atenção o movimento de Biden e crê em impacto positivo na demanda por turbinas. "O investimento em energia renovável é essencial para combatermos a crise climática pela qual passamos e que ainda é a maior ameaça deste século. Dados governamentais dos Estados Unidos mostram que, em 2019, as renováveis ocuparam 11% da matriz energética do país."

PRINCIPAIS MUDANÇAS ESPERADAS COM O GOVERNO BIDEN

Meio Ambiente: A ratificação de retorno dos Estados Unidos ao Acordo de Paris demonstra que o governo democrata está disposto a acatar a demanda do pacto, que prevê a redução de 28% na emissão de gases do efeito estufa até 2025.

Biden já afirmou que tem interesse em dar atenção prioritária ao desenvolvimento sustentável e defendeu durante a campanha a defesa da Amazônia. A forma como aconteceria essa "defesa" pode ser por meio de sanções econômicas ao Brasil, o que seria negativo.

Política de desenvolvimento: No primeiro momento, a grande preocupação do novo governo norte-americano é em conter a pandemia. País mais afetado pela Covid-19, os Estados Unidos estão prestes a votar um pacote de socorro financeiro. Passado o momento de contenção das perdas causadas pela pandemia, a ideia do novo governo é privilegiar o desenvolvimento de novas tecnologias sustentáveis. Apoio aos pequenos negócios e injeção na indústria americana também são planos.

ATUAL RELAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS COM O BRASIL

Sobretaxas: O alumínio brasileiro segue, desde 2018, sendo sobretaxado pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Em outubro passado, a taxa passou de 49,48% para 136,78%. A medida foi conseguida pelos produtores norte-americanos, numa clara ação protecionista, sustentada pelo argumento de que o produto brasileiro estaria sendo comercializado abaixo do preço de tabela, prática conhecida como "dumping".

Vale destacar que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos gira muito em torno da venda de ferro e aço brasileiros, algo em torno de 10% do total.

Uma importante vitória nos últimos anos nessa relação, foi a abertura do mercado norte-americano para a carne bovina brasileira. O Itamaraty trabalha em três frentes principais que são a facilitação do comércio, boas práticas regulatórias e comércio digital.

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