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O que levou Evo a deixar o poder na Bolívia

Especialistas apontam a escalada de erros que culminaram na renúncia do presidente boliviano e o que pode ficar de lição para o Brasil
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PROVÁVEL destino de Evo Morales é o asilo político no México (Foto: CLAUDIO CRUZ / AFP)
Foto: CLAUDIO CRUZ / AFP PROVÁVEL destino de Evo Morales é o asilo político no México

Evo Morales seguia na presidência da Bolívia desde 2006, até renunciar ao cargo no último domingo, 10. O motivo alegado seria um golpe de estado que estava em curso no país, o que levou também à renúncia os presidentes da Câmara, Senado e todos os ministros. O anúncio foi feito pouco depois de o chefe das Forças Armadas do país, general Williams Kaliman, e o comandante da polícia boliviana, general Yuri Calderón, gravarem vídeos pedindo a renúncia de Evo em razão dos protestos que tomaram o país desde a divulgação do resultado das eleições de 20 de outubro, apontadas como fraudulentas pela Organização dos Estados Americanos (OEA).

Ainda no domingo, Morales chegou a concordar com a realização de um novo pleito, mas acabou renunciando horas depois, deixando a cadeira da presidência vaga e sem perspectivas de como ou quando será feita a escolha de um substituto interino.

"A situação da Bolívia não é fácil de definir: muitas pessoas estão analisando como se fosse um golpe, mas na verdade, apenas os próximos movimentos desse jogo é que irão definir o que está acontecendo na Bolívia. O que se tem é uma democracia que foi rompida há muito tempo pelo próprio Evo Morales, quando ele mudou a constituição só para garantir a si a possibilidade de reeleições", afirma o cientista político Magno Karl, diretor de políticas públicas do movimento Livres.

"Ele até admitiu que havia algo errado nas apurações e declarou novas eleições, mas aí já era tarde demais, a população estava na rua em confronto. Todo mundo que tem apreço pela democracia e estabilidade institucional sabe que as normas devem ser seguidas — mas sem a participação direta das Forças Armadas", destaca.

"Basta acompanhar os noticiários e as gravações que mostram o estado de calamidade na Bolívia para ver que o país está sim, sob o efeito de um golpe político. Militares e grupos paramilitares estão açoitando pessoas em via pública, matando mulheres com bebês no colo. Isso é a face mais cruel do fascismo. Inclusive, há fortes indícios de que o governo brasileiro tenha contribuído para esse golpe", contra-argumenta Horácio Frota, professor de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

"A Bolívia de Evo é apenas mais um campo minado em que a América Latina se tornou. Veja o Chile, por exemplo. A proposta neoliberal do ministro da economia não está dando certo e a população está revoltada com muitas coisas, dentre elas, a previdência — modelo inclusive que o Brasil escolheu, apesar de não ter dado certo lá", completou.

"O estopim na Bolívia foi diferente do restante dos países. Foi uma questão puramente política, já que economicamente, o país ia muito bem, com projeção de crescimento de 4,5% ao ano — bem maior do que o 1% do Brasil, por exemplo", destaca Clayton Cunha Filho, professor de Ciências Políticas da Universidade Federal do Ceará (UFC). "Já o Chile, Equador e Argentina estão instáveis por questões econômicas. De qualquer maneira, essas turbulências afetam diretamente o Brasil, na medida em que abre precedentes muito perigosos por aqui. Estamos vivendo um momento extremamente militarizado, com declarações do filho do presidente falando em AI-5 e fechamento do Supremo Tribunal Federal. Não devemos estar muito confortáveis diante do que acontece no quintal dos nossos vizinhos", ressalta.

Cronologia

Confira a cronologia dos fatos que levaram à queda de Evo em opovo.com.br

Eleições

A futura presidente interina da Bolívia, segundo a ordem constitucional, a senadora Jeanine Añez, disse ontem que serão convocadas eleições depois da renúncia de Evo Morales, para que "em 22 janeiro já tenhamos um presidente eleito".

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