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500 dias: Como entender a Era Bolsonaro
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500 dias: Como entender a Era Bolsonaro

Quase um ano e seis meses após a posse, Jair Bolsonaro coleciona crises à frente do Planalto. Especialistas, professores e apoiadores do presidente avaliam cenário em meio à pandemia
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Brazil's new president Jair Bolsonaro gestures after receiveing the presidential sash from outgoing Brazilian president Michel Temer (out of frame), at Planalto Palace in Brasilia on January 1, 2019. - Bolsonaro takes office with promises to radically change the path taken by Latin America's biggest country by trashing decades of centre-left policies. (Photo by EVARISTO SA / AFP) POL 15.05.2020 (Foto: EVARISTO SÁ/ AFP)
Foto: EVARISTO SÁ/ AFP Brazil's new president Jair Bolsonaro gestures after receiveing the presidential sash from outgoing Brazilian president Michel Temer (out of frame), at Planalto Palace in Brasilia on January 1, 2019. - Bolsonaro takes office with promises to radically change the path taken by Latin America's biggest country by trashing decades of centre-left policies. (Photo by EVARISTO SA / AFP) POL 15.05.2020

Na marca dos 500 dias de gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que se completam nesta sexta-feira, 15, pesquisadores, analistas e aliados do chefe do Executivo refletem sobre as marcas de um período atravessado por crises, das demissões de ministros à pandemia do novo coronavírus (veja infográfico).

A convite, cada um deles indicou três palavras ou conceitos que traduzam esses dias sob Bolsonaro. A íntegra dos artigos está acessível no O POVO +, primeira plataforma de multistreaming de jornalismo e cultura da América Latina.

Entre os principais termos apontados pelos participantes da consulta, "militarização" é o que, segundo especialistas, permite entender melhor a natureza do Planalto capitaneado por um militar da reserva, que povoou a Esplanada com fardados e superou até mesmo os governos do regime ditatorial.

Cientista político e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Leonardo Avritzer afirma que "o governo Bolsonaro tem hoje mais cargos de primeiro e segundo escalões ocupados por militares do que havia no último governo militar, do presidente João Batista Figueiredo".

Para o autor de "O pêndulo da democracia", ensaio de interpretação sobre os impasses do Brasil atual, a presença maciça do pessoal verde-oliva acentua inclinações do presidente, que tem se empenhado especialmente em criar dificuldades para atuação em áreas como meio ambiente, cultura e educação.

Professora de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC), Cynara Mariano avalia que o ressentimento demarca a relação entre Bolsonaro e esses setores mencionados por Avritzer. Para ela, o presidente alimenta "ódio à ciência, à cultura e aos avanços democráticos e civilizatórios, porque deles foi alijado ou invisibilizado na sua produção".

Sob esse ponto de vista, natural que o mandatário recorra ao conflito, direto ou indireto, deixando de lado qualquer hipótese de negociação ou intercâmbio republicano, ao qual costuma chamar de "velha política".

"O Governo mantém-se com base em uma política de conflito para demonstrar a necessidade de sua permanência e a de suas ações apenas como forma de enfrentamento dos 'inimigos', acrescenta a docente.

"Na verdade, o presidente substituiu o presidencialismo de coalizão e o presidencialismo de cooptação pelo presidencialismo de confrontação", esclarece Rodrigo Prando, cientista político da Faculdade Presbiteriana Mackenzie (SP).

De acordo com Prando, nesses 500 dias da era Bolsonaro, confrontar tem sido mais importante do que governar. "Assim, ele transformou os adversários em inimigos, e, para ele, há inimigos internos e externos, reais e imaginários", enumera.

Mas, apesar das tensões sucessivas, praticamente sem pausa, Bolsonaro tem conseguido operar mudanças drásticas de cenário e de agenda, fazendo esquecer uma crise substituindo-a por outra. É desse modo que o presidente tira proveito mesmo de situações desfavoráveis, sugere Felipe Braga, professor de Direito Constitucional da UFC.

"A mudança de foco é uma grande habilidade política do presidente. Ele consegue continuamente criar uma nova polêmica para afastar uma crise gerada por comportamento anterior", declara Braga. Para tanto, "utiliza-se comumente de factoides, pois suas declarações são em grande parte falsas, fabricadas ou não verificadas".

Listen to "#80 - Bolsonaro e a frigideira dos ministros da Saúde" on Spreaker.

Os apoiadores do presidente discordam. Entre os verbetes lembrados por eles, "fé", "pátria" e "família" se sobrepõem, delineando o perfil de um "gestor comprometido com valores conservadores e cristãos".

"Ele é o único governante do nosso país que não é movido pelos seus próprios interesses, mas leva a sério esses três pilares", defende Amanda Martins, à frente do movimento Consciência Patriótica, famoso por encenar coreografias de apoio ao presidente.

"Finalmente temos um presidente não só declarada, mas explicitamente patriota, que não rouba e não deixa roubar", responde Adriano Vieira, presidente do Endireita Fortaleza.

Segundo ambos, Bolsonaro cumpre uma dupla missão, político-religiosa, que o consagra como uma espécie de escolhido a quem foi atribuída a tarefa de conduzir o país.

 

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