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Três municípios do Ceará voltam às urnas neste domingo

| Eleições suplementares | Martinópole, Missão Velha e Pedra Branca escolhem novos prefeitos quase nove meses após o pleito de 2020. Disputas são marcadas por contextos locais específicos ou mesmo embates além dos limites municipais
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Martinópole, Missão Velha e Pedra Branca escolhem novos prefeitos quase nove meses após o pleito de 2020.  (Foto: TSE/Divulgação)
Foto: TSE/Divulgação Martinópole, Missão Velha e Pedra Branca escolhem novos prefeitos quase nove meses após o pleito de 2020.

Sete meses após a posse dos vitoriosos na disputa eleitoral de 2020, três municípios do Ceará voltarão às urnas no próximo domingo, 1º de agosto, para uma nova eleição para prefeito. Em todos os casos, serão escolhidos "substitutos" para os gestores eleitos no ano passado, que tiveram registros de candidatura indeferidos pela Justiça Eleitoral.

Ao todo, serão realizadas eleições suplementares nos municípios de Martinópole, Missão Velha e Pedra Branca. As disputas foram autorizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e são organizadas pelo novo presidente do Tribunal Regional Eleitoral no Ceará (TRE-CE), desembargador Inácio de Alencar Cortez Neto, empossado no início de junho.

Em Missão Velha, eleição que promete ser das mais acirradas, principal destaque é a entrada - em polos opostos - tanto do ex-presidente Lula (PT) quanto de Ciro Gomes (PDT) na disputa. 

Em Pedra Branca, a polarização se dá sobretudo entre lideranças locais e pessoas próximas do governo Camilo Santana (PT). No caso mais curioso, Martinópole deve reeditar exatamente a mesma disputa do ano passado.

Até agora, outros 11 municípios do Ceará estão em situação de indefinição eleitoral, com prefeitos eleitos sendo alvo ou de ações pedindo a cassação de mandatos ou indeferimento de registro de candidatura.

É o caso, por exemplo, de Juazeiro do Norte, onde o prefeito Glêdson Bezerra (Podemos) e o vice foram cassados em decisão da primeira instância, cabendo recurso ao TRE-CE. Nos três casos com eleições já aprovadas, no entanto, já existem decisões no sentido de indeferimento das candidaturas referendadas tanto pelo TRE-CE quanto pelo TSE.

 

Pedra Branca: Disputa opõe grupos do prefeito cassado e do interino

Dentro do Sertão Central mas parte da "zona de influência" do Sertão dos Inhamuns, o município de Pedra Branca terá eleição que colocará em polos opostos os grupos do prefeito cassado do município e do atual presidente da Câmara Municipal, que assumiu interinamente o cargo após o gestor eleito ser impedido de assumir o cargo.

A eleição ocorre após o ex-prefeito Antônio Gois (PSD) ter o registro de candidatura indeferido por ter renunciado ao mesmo cargo, ainda em maio de 2019, para evitar um processo de cassação por improbidade administrativa que tinha sido aberto na Câmara Municipal - o que foi entendido como uma "manobra" para se manter elegível pelo TSE.

Impedido de assumir o mandato, Antônio lançou o filho, o empresário Matheus Gois (PSD), para representar a família na disputa. Ele conta com apoio de lideranças tanto do Sertão Central quanto dos Inhamuns, como do ex-prefeito de Quixeramobim, Cirilo Pimenta (PSD) e do principal nome do PSD no Ceará, Domingos Filho, cuja esposa, Patrícia Aguiar (PSD), é prefeita de Tauá, um dos maiores municípios da região.

Do outro lado da "arena" está o grupo político do atual presidente da Câmara de Pedra Branca, Rogério Curdulino (Solidariedade), que apoia candidatura de Padre Antônio (PDT). Além disso, o grupo tem apoio de diversas lideranças do bloco governista no Ceará, como os deputados José Guimarães (PT), Marcos Sobreira (PDT) e Augusta Brito (PCdoB).

A campanha também tem sido das mais acirradas. De um lado, Gois aponta "hipocrisia" e "mudança de discurso" de Padre Antônio, que disputou em 2020 em chapa formada apenas pelo PDT e o PT, contestando as grandes alianças, mas que agora volta a disputa com uma coligação de sete partidos. A crítica se dá sobretudo pelo apoio do atual prefeito interino - que era rival do PDT local até o ano passado - à chapa.

Do outro lado, Padre Antônio acusa o filho do prefeito barrado de ter "nascido em berço de ouro" e sequer morar em Pedra Branca. "Quanto mais pedras jogam, mais a gente constrói nosso caminho. Eleição passada mesmo foi uma batalha (...) são pessoas pequenas, que nunca fizeram nada por Pedra Branca", rebateu, em evento na cidade, Antônio Gois. (Carlos Mazza)

 

Martinópole: Município repete exatamente a mesma disputa de 2020

Menor município entre os três que terão eleições suplementares em 1º de agosto no Ceará, Martinópole é também o caso mais curioso de todos. Marcada para o próximo domingo, a disputa ocorrerá com exatamente os mesmos candidatos do pleito do ano passado, incluindo o prefeito barrado pela Justiça Eleitoral, James Bel (Progressistas).

Com o registro indeferido após ter sido demitido do cargo de professor da rede municipal do município por abandono de função, Bel foi impedido de tomar posse neste ano. Mesmo assim, resolveu entrar novamente na disputa, com apoio do grupo político do deputado estadual Sérgio Aguiar (PDT), marido da atual prefeita de Camocim, Mônica Aguiar (PDT).

A candidatura se sustenta por uma série de recursos apresentados à Justiça, incluindo um protocolado na semana passada no Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE). "Nossa candidatura se mantém! Vamos fazer valer o nosso direito de lutar por Justiça e contra a perseguição de coronéis que tanto maltratam nossa gente", disse James nas redes sociais.

Do outro lado, está o mesmo candidato que disputou contra Bel no ano passado, o ex-prefeito Júnior Fontenele (PL), que tem apoio do deputado estadual Romeu Aldigueri (PDT). Reforçando a tese de que Bel já teve a primeira candidatura indeferida, a coligação do candidato tem entrado com uma série de novas ações contra o adversário na Justiça.

Como ambos os candidatos possuem como "padrinhos" deputados pedetistas, a eleição não tem ganhado forte adesão do PDT estadual, apesar de o comando local do partido apoiar oficialmente a candidatura de Fontenele. Mesmo assim, o clima entre os dois candidatos também é acirrado, com muita troca de ataques nas redes sociais.

Nos bastidores, acaba falando mais alto a disputa entre Sérgio Aguiar e Romeu Aldigueri, que travaram embates em diversos municípios da Região Norte nos últimos anos. Em 2020, os dois apoiaram inclusive candidatos de oposição um ao outro em Camocim - reduto político de Aguiar - e em Granja - reduto político de Aldigueri.

Na disputa, aliados de Aguiar relembraram sobretudo de relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE) que apontou indícios de irregularidade durante a gestão de Fontenele como presidente do Consórcio Público de Saúde de Camocim. Em diversas publicações nas redes, o candidato nega acusações. "Tentaram nos humilhar, tentaram nos ofender, tentaram nos diminuir. Está chegando a hora dos humilhados serem exaltados". (Carlos Mazza)

 

Missão Velha: Eleição opõe Lula e Ciro no Cariri

Município vizinho de Juazeiro do Norte, Missão Velha promete ter a disputa mais acirrada das três que serão realizadas em 1º de agosto no Ceará. Reduto histórico da família do deputado estadual Guilherme Landim (PDT) no Cariri, o município terá embate que já opôs na campanha o ex-presidente Lula (PT) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT).

As eleições ocorrem após o prefeito eleito em 2020 Dr. Washington (MDB) ter o registro de candidatura indeferido pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-CE), em decisão já referendada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ex-prefeito do município entre 2009 e 2012, ele teve contas de gestão julgadas irregulares pelo Tribunal de Contas da União (TCU) pela má execução de um convênio com o Governo Federal.

Quem representa Washington na disputa é Fitinha (PT), que já ocupava a vice na chapa dele em 2020. Na coligação, ela une inclusive os dois maiores adversários da eleição de 2016 no município, os ex-prefeitos Diego (MDB, vitorioso) e Dr. Tardiny (PT). Petista e apoiada pelo deputado José Guimarães (PT), ela teve vídeo de apoio divulgado por Lula.

Do outro lado, disputa pela oposição Dr. Lorim (PDT). Ele integra ala "histórica" do pedetismo no Ceará, formado por políticos que já estavam no partido antes mesmo da migração do bloco de Cid e Ciro Gomes para a sigla. A chapa tem a adesão do presidente local do PDT, deputado André Figueiredo, que articulou vídeo de Ciro em apoio a Lorim. Outro apoiador ativo da campanha é o líder do PSD no Ceará, Domingos Filho.

Mesmo com a candidatura própria do PDT, a principal liderança regional do município, Guilherme Landim, "ignora" o correligionário e apoia a candidata do PT na disputa. Em entrevista ao O POVO, ele destaca que, historicamente, seu grupo político em Missão Velha sempre esteve mais próximo do MDB, que hoje apoia Fitinha.

"Temos história antiga lá. Quando fui para o PDT, algumas pessoas do meu grupo lá já estavam no MDB", diz.

Já Dr. Lorim, por sua vez, é filho e herdeiro político de um opositor do grupo do deputado no município, o ex-prefeito Gidalberto Pinheiro, e era até recentemente ligado não ao PDT, mas ao Solidariedade.

Nas redes sociais, a campanha tem mantido tom acirrado, com ataques e troca de acusações. Landim explica que o acirramento tem origens históricas: desde a redemocratização, Missão Velha só reelegeu um prefeito, Zé Landim, parente do deputado. (Carlos Mazza)

 

Agenda

28 eleições suplementares estão agendadas pelo TSE para 2021. Nove já ocorreram, outras nove estão marcadas para o próximo dia 1º e dez devem ser realizadas até o fim do ano

 

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