Logo O POVO+
A bola não entra por acaso: o papel do futebol profissional na geração de empregos
Reportagem

A bola não entra por acaso: o papel do futebol profissional na geração de empregos

Ceará e Fortaleza têm juntos cerca de 560 funcionários, mas a cadeia de geração de empregos dos clubes é vasta e vai além das quatro linhas
Edição Impressa
Tipo Notícia Por
Anderson Francisco é vendedor ambulante e é impactado indiretamente pelo sucesso do futebol cearense (Foto: Fabio Lima)
Foto: Fabio Lima Anderson Francisco é vendedor ambulante e é impactado indiretamente pelo sucesso do futebol cearense

Máquina de Goldberg é um dispositivo em que a ação de um objeto faz desencadear reações em cadeia, que em geral, levam a um objetivo simples e imprevisível até o último movimento. Ou seja, uma versão mais complexa de um efeito dominó. O futebol é uma máquina de Goldberg em que o lance que arremata esse mecanismo acontece sob muitos holofotes, com 22 jogadores num campo verdinho e arquibancada apaixonada. Mas antes do gol, existem muitas engrenagens. A bola é conduzida por muitos pés sem chuteiras.

Estimativa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) indica que 370 mil pessoas são empregadas direta, indiretamente ou de forma induzida pelo futebol no Brasil. No Estado, Ceará e Fortaleza têm incrementado os quadros de funcionários. Enquanto o Vovô tem hoje mais de 250 trabalhadores (entre eles, 33 jogadores do time principal), o Fortaleza emprega cerca de 310 pessoas (com 36 que jogam na primeira equipe).

Os demais são, além de jogadores da base e dos elencos femininos, integrantes das comissões técnicas, médicos, nutricionistas, dentistas, fisiologistas; gente que trabalha em cozinha, lavanderia, manutenção dos gramados dos centros de treinamento (CTs), limpeza, administrativo e comercial. Reunido aos salários dos jogadores, 70% e 85% dos orçamentos de Ceará e Fortaleza, respectivamente, são usados para pagar todo o pessoal, manter o fluxo do mecanismo e, ao fim, levar ao caminho do gol e dos títulos.

Todo o time feminino do Ceará é profissional
Todo o time feminino do Ceará é profissional (Foto: 01 19:56:13)

São cerca de 560 empregos diretos. Amir Somoggi, sócio-diretor da Sports Value Marketing Esportivo, aponta que não há base para calcular quantos empregos indiretos e induzidos são criados para cada emprego direto do futebol. "Centenas de pessoas trabalham para que um jogador entre em campo", assevera.

As vagas criadas vão além. Uma partida de futebol pode chegar a empregar 900 pessoas terceirizadas na Arena Castelão. É o que detalha Carlos Bonfim, gerente administrativo do Fortaleza. São catraqueiros, garçons, gandulas, serviços gerais… Gente que indiretamente é beneficiada pela existência dos clubes de futebol. Bonfim ainda destaca a marca própria do Tricolor, que criou 35 novos cargos diretos. Além disso, os 2 mil itens licenciados são fornecidos por 60 empresas — centenas de empregos indiretos. No caso do Ceará, João Paulo Silva, diretor financeiro, indica que há estudos para marca do clube. Mas mesmo as cinco lojas franqueadas já geram vagas indiretas.

 "Quando falamos em impacto na cadeia de empregos, as pessoas pensam como sendo só os jogadores. E não é só isso, é uma dimensão enorme. São empresas, que têm de ser pensadas como empresas, e que têm faturamentos de R$ 60 milhões, R$ 80 milhões ao ano", indica o economista Lauro Chaves, conselheiro do Conselho Federal de Economia e PhD em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona.

Chaves comenta como, com os dois times na Série A do Campeonato Brasileiro a partir deste ano, com ambos recebendo cotas de TV mais altas há evoluções ainda mais expressivas na geração de empregos. "Vem muita torcida, vem no mínimo umas 5 mil pessoas para passar três dias em Fortaleza. Isso é muita coisa, movimenta muito", soma, citando jogos contra grandes clubes do cenário nacional.

Para ele, no entanto, há de se aprofundar processo que foi iniciado em ambas as equipes: a profissionalização. Somoggi acredita que "o futebol brasileiro (como um todo) não tem crescido qualitativamente, e sim quantitativamente". E que para expandir, nos próximo anos, é preciso investir em setores com o de marketing. "Fazer com que marcas patrocinadoras tenham mais impacto no dia a dia do clube, fazer com que os torcedor consuma mais a marca patrocinadora, fazer com que a rede social seja um ponto de mudança no marketing do clube, não só com gracinhas, mas posicionamento estratégico", aponta.

CT do Fortaleza, em Maracanaú
CT do Fortaleza, em Maracanaú (Foto: Fabio Lima)

Permanecer na Série A e achar "mecanismos próprios" de monetizar o clube de outras formas são os objetivos traçados por Carlos Bonfim e por João Paulo Silva. Os CTs organizados — como forma de revelar novos jogadores com potencial de venda —, e o programa de sócio-torcedor são as principais saídas para ambos.

"O Ceará é uma empresa centenária que vem crescendo nos últimos anos. E que tem reinvestido na nossa estrutura, para continuar crescendo. O futebol é uma empresa e acho que pode ser melhor explorado, tem potencial pra isso", acredita o diretor financeiro do Alvinegro.

A cadeia de empregos nos clubes de futebol cearense
A cadeia de empregos nos clubes de futebol cearense

Na Prancheta projeta pontuações de Ceará e Fortaleza no returno

Diretoria remunerada

Em dezembro de 2018, o estatuto do Fortaleza foi modificado para comportar a remuneração de membros da diretoria. Para Carlos Bonfim, isso faz com que o diretor, agora remunerado, possa ser cobrado por resultados. No Ceará, a diretoria não é paga. João Paulo Silva diz que o assunto nunca foi comentado entre os membros, mas ele, pessoalmente, acredita que seria justo e poderia melhorar os processos.

O que você achou desse conteúdo?