Reportagem

Empreendedorismo feminino responde por 65% das solicitações de microcrédito urbano do BNB

O Crediamigo, programa de empréstimos para microempreendedores do Banco do Nordeste, registrou R$ 12,1 bilhões de movimentação em 2020, sendo R$ 7,8 bilhões em crédito destinado a mulheres
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Francinete Andrade relata que utiliza o microcrédito há dois anos e que ele foi o responsável por conseguir se manter em 2020   (Foto: Thais Mesquita/ O POVO)
Foto: Thais Mesquita/ O POVO Francinete Andrade relata que utiliza o microcrédito há dois anos e que ele foi o responsável por conseguir se manter em 2020

Com recorde histórico de movimentação em 2020, o Crediamigo, programa de empréstimos para microempreendedores do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), teve no protagonismo feminino uma forte base em suas aplicações, com 65% dos aportes destinados a empreendedoras. Dos R$ 12,1 bilhões movimentados no ano passado, R$ 7,8 bilhões foram aplicados para atender demandas de empreendimentos em que a gestão era controlada por mulheres.

No Ceará, o cenário apresenta média semelhante. As mulheres representaram cerca de 66% das solicitações de créditos do programa. A demanda das empreendedoras cearenses gerou movimentação de R$ 2,5 bilhões. Os dados foram consolidados pelo Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene) do BNB. 

Em toda área de atuação do BNB - que contempla Nordeste e nortes de Minas Gerais e Espírito Santo -, as mulheres representaram 2,9 milhões das 4,4 milhões de operações de microcrédito registradas ano passado.

A superintendente de Microfinanças e Agricultura Familiar do BNB, Lúcia Barbosa, analisa que o programa de microcrédito atua como forma de geração de emprego e renda, trazendo melhoria na qualidade de vida dos empreendedores. "A gente percebe que com cinco anos que ele se mantém no programa, já há um crescimento de 35% na renda familiar. E se ele passa dez anos, esse crescimento é em torno de 60%. Além disso, percebemos aumento na sustentabilidade do negócio porque o nosso crédito é orientado", conta.

Para a gestora, existem ainda vários motivos para o protagonismo feminino na captação de crédito. Ela enxerga que as mulheres sempre possuem um propósito quando querem investir. "Eu já peguei alguns casos de sucesso de mulheres e o que eu percebo que elas têm em comum: um propósito. Elas têm muitos sonhos, desejos, quer seja seu filho na escola ou ampliar seu negócio, e esse propósito é o que inspira, é o que faz ela se mover para fazer as coisas acontecerem. Ela se engaja, é decidida e acredita sempre que vai dar certo. E dá", ressalta Lúcia.

Francinete Andrade que complementa a renda de casa com a venda de produtos de beleza
Francinete Andrade que complementa a renda de casa com a venda de produtos de beleza (Foto: Thais Mesquita)

A superintendente pontua que outro fator que pode alavancar o sucesso das mulheres é a facilidade com a sociabilidade. Para solicitar o microcrédito pela primeira vez, é preciso formar um grupo de três a dez pessoas. "Ela rapidamente decide e forma o grupo, já está com os dados, grupo formado. O homem não, o processo é mais lento, tem mais dificuldade de chegar, pedir ajuda, de fazer essa sociedade."

Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas (Sebrae), 45% das empreendedoras são provedoras da renda familiar, sendo a principal ou única renda no orçamento de suas casas. A diretora do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará (Ibef-CE), Myriam Saraiva, lembra que as últimas décadas foram marcadas pela busca das mulheres por igualdade de oportunidades e agora estão conseguindo ocupar lugares que eram exclusivos dos homens. Num sentido mais amplo, as iniciativas de empreendedorismo feminino têm contribuído com isso.

"O empreendedorismo feminino representa quebra de paradigmas, mas ainda há muitos desafios a serem superados. A proporção de mulheres comandando negócios é baixa e tem relação com nossa realidade sociocultural. Para se ter ideia, apenas em 1962 foi permitido na lei que mulheres assumissem cargos de chefia sem necessidade de permissão do esposo ou pai", acrescenta Myriam.

Na liderança de recursos aplicados, os pedidos feitos para negócios associados ao comércio junto ao BNB acumularam R$ 10,7 bilhões, dos quais R$ 7,2 bilhões foram aplicados em negócios geridos por mulheres. Das 3,8 milhões de operações feitas pelo Crediamigo no segmento, 2,7 milhões foram do público feminino.

O setor da indústria registrou R$ 155 milhões em empréstimos para 56 mil solicitações feitas ao BNB. Representando outro destaque para microempreendedoras, do total movimentado pelo setor, R$ 95 milhões foram para atender os 37 mil pedidos feitos por mulheres.

Com relação aos empréstimos feitos pelo Crediamigo para empreendimentos do setor de serviços, houve uma equiparação maior entre os pedidos feitos por homens e mulheres. O público masculino recebeu R$ 691,5 milhões em resposta a 284 mil solicitações, enquanto as empreendedoras aportaram R$ 484,1 milhões em 208 mil operações.

Conforme define o Banco Central do Brasil, o microcrédito produtivo e orientado é definido pelas operações de empréstimo de instituições financeiras são créditos de menores valores, com o teto de R$ 21 mil, taxas de juros de 4% ao mês e taxa de abertura de crédito que não deve superar o valor máximo de 3% do valor do crédito concedido. (Colaborou Samuel Pimentel e Alan Magno / Especial para O POVO)

 

FORTALEZA, CE, BRASIL, 19.02.2021: Empreendedorismo Feminino - Personagem Francinete Andrade (Foto: Thais Mesquita/OPOVO)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 19.02.2021: Empreendedorismo Feminino - Personagem Francinete Andrade (Foto: Thais Mesquita/OPOVO)

Empreender para complementar renda e realizar propósitos

Tomadora de crédito do programa Crediamigo há dois anos, Francinete Andrade, 39 anos, faz parte do perfil mais comum do programa entre as beneficiárias: trabalha com vendas. Ela está no ramo há mais de dez anos e não imagina o futuro do negócio sem o incentivo dos empréstimos feitos. "Meu negócio não teria sobrevivido em 2020 sem o Crediamigo, ele é indispensável para mim agora", detalha. Ela ainda comenta sobre as grandes dificuldades de manter as vendas de cosméticos durante a pandemia no ano passado.

A vendedora mora e trabalha no município do Eusébio e conta que o dinheiro oriundo do programa lhe permite montar um estoque de produtos para que possa trabalhar com pronta-entrega. "Quem antes saia vendendo de porta em porta perdeu o foco com a pandemia, os clientes não querem mais esperar, querem tudo para entregar na hora", relata.

Francinete relata que a venda de produtos de perfumaria e beleza ajuda muito na composição da renda familiar - que foi impactada por causa da pandemia - e pontua que para os próximos anos continuará solicitando o empréstimo. Em 2021, ela pretende investir em capacitação. "Quero me dedicar em cursos, sabe? Em estudos que me ajudem a trabalhar melhor com tecnologia, com vendas online, no uso das redes sociais. Acredito que essa modernidade veio para ficar, os clientes já estão pedindo por isso, é algo que vai além da pandemia", afirma. (Alan Magno/ Especial para O POVO)

 

INCLUSÃO

Além das mulheres, os jovens apresentaram também um destaque no empreendedorismo. Segundo o BNB, o público com idade entre 18 e 24 anos representou o montante de R$ 832,8 milhões em dinheiro movimentado, com 448 mil operações registradas no Crediamigo, o que mostra um rejuvenescimento do perfil tomador de microcrédito.

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