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Pioneira do teatro transformista, Dami Cruz remonta memórias de vida e obra

Figurinista e estilista Dami Cruz rememora trajetória pessoal e profissional com as artes em conversa com o Vida&Arte
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Figurinista e estilista, Dami Cruz tem trajetória profissional nos palcos e nos bastidores que já soma mais de 40 anos. Na imagem, a artista em registro do Projeto Giraluas, com foto de Tim Oliveira, maquiagem de Levi Banida e figurino assinado por ela (Foto: Tim Oliveira / divulgação)
Foto: Tim Oliveira / divulgação Figurinista e estilista, Dami Cruz tem trajetória profissional nos palcos e nos bastidores que já soma mais de 40 anos. Na imagem, a artista em registro do Projeto Giraluas, com foto de Tim Oliveira, maquiagem de Levi Banida e figurino assinado por ela

Na adolescência de Dami Cruz, a mãe achava que ela deveria prestar vestibular para arquitetura por saber desenhar, enquanto o pai defendia que cursasse direito pela facilidade de falar. As habilidades, porém, tiveram outra vazão, que já vinha em fluxo natural desde a infância, com o encantamento pelos pastoris e a descoberta dos primeiros filmes: foi nas artes - no palco e nos bastidores - que Dami se encontrou, sendo atriz, pioneira do teatro transformista, figurinista, maquiadora, estilista… O caminho tem como marca mais forte, como ela transparece, a naturalidade. Da educação dada pela mãe à montação no início da vida adulta, passando pela relação com a própria identidade de gênero, a artista adjetiva: "tudo muito natural". Em um mês do orgulho marcado por casos graves de violência transfóbica, a figura de Dami, aos 62 anos, se reforça enquanto referência. "Ao invés de aumentar a expectativa de vida - como a das pessoas cis -, a nossa vai diminuir, é isso?", questiona. Em entrevista ao Vida&Arte, Dami divide memórias, pioneirismos, conquistas e desejos.

O POVO - Você entrou no Curso de Artes Dramáticas da UFC no começo da década de 1980. Antes, na infância, havia algum contato com arte?

Dami Cruz - Desde criança, eu brincava de fazer teatro em casa. Nós tínhamos um quintal grande na Vila Pery, na mesma casa onde estou morando atualmente. Meu pai era do sertão, tinha uma coisa de criar animal, e nesse período lá era como se fosse zona rural. Montava uns palcos, chamava os vizinhos. Já tinha isso com o teatro. Eu era uma pessoa muito desinibida, aquelas crianças que cantava, juntava as irmãs - os irmãos não queriam muito -, os primos e a gente fazia nossas montagens. Ia para os pastoris, achava bonito, aí montava pastoril. Minha mãe tinha estudado em colégio de freira e ela fez muito drama - umas encenações que chamavam de “drama”. Ela sabia músicas, ensinava pra mim e eu passava pras irmãs. Tinha um colégio de freiras no bairro e elas faziam teatro às sextas e sábados. Minha mãe mandava a gente pra assistir. Quando era criança, na Semana Santa, ia ver “O Mártir do Gólgota”. Era como ir à missa, não era exatamente teatro na cabeça das pessoas.

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OP - E como surgiu o CAD?

Dami - Pelos 15, 16 anos, estudei desenho com o Marcus Jussier (pintor e cenógrafo nascido em Juazeiro do Norte). Pelos 17 anos, nós - digo “nós” porque éramos um grupo de amigos e amigas da Maraponga - conhecemos o Maurício Estevão, que era um ator e diretor, e ele deu uma oficina para a gente no Teatro Universitário. Daí não saí mais. Quando entrei no CAD, já tinha bastante amizade no TU, até tinha viajado com uma montagem de uma peça do B. de Paiva (ator, professor e dramaturgo fortalezense) que chamava “Cantochão Para Uma Esperança Demorada”... A viagem foi pelo Projeto Mambembão, que era um circuito de teatro, a gente fez Brasília, Rio e São Paulo. A Gracinha Soares, que era minha amiga e coordenadora do curso junto com o Edilson Soares, dizia: “Faz o CAD, Dami, se tu fosse aluna ia ter uma ajuda de custo”. E não só por isso, mas porque eu já estava no teatro, vivendo, aí fiz a seleção para o curso e entrei. Tinha ótimas professoras, professores. Estavam lá João Falcão, José Carlos Matos, a parte de voz, com a Gracinha Soares e a Glória Martins, a parte de direção com o Edilson Soares, Ricardo Guilherme dava História do Teatro Brasileiro…

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OP - Nesse período, com que projetos e montagens você se envolveu?

Dami - Em paralelo à entrada no CAD, montei por 1980, 1981, o primeiro espetáculo transformista em teatro de Fortaleza, chamado “Luz, ação, espaço”, brincando com o comando “Luz, câmera, ação” do cinema. Não tinha isso no teatro, era um esquema muito à margem, como em desfiles de Miss Gay, que era onde a gente via atores transformistas locais fazendo show. Não fui a primeira transformista do Ceará, não, já tinha gente fazendo. Fiz a primeira montagem em teatro e dizia exatamente sobre isso: a necessidade de incluir o teatro transformista, a dublagem, no espaço cênico do teatro e no movimento teatral.

OP - Tentar essa inserção deve ter sido desafiador dentro do próprio circuito teatral. De que forma se deu esse processo?

Dami - A gente tinha aceitação maior das pessoas da minha idade, dos alunos, da comunidade universitária. Ali em torno do Teatro Universitário morava muita gente e gostavam de ir. Mas tinha, sim, vários comentários negativos. Pouco depois, o Luciano Costa montou o Grupo Metamorfose, que era de atores transformistas. Fizeram um fim de semana de apresentações, aí depois me juntei. Já era todo mundo amiga. Começamos o esquema mais “sério” de uma montagem teatral, a gente fazia temporada, ficamos um ano em cartaz com um espetáculo, tinha matéria em jornal, mas tinha os comentários negativos dos mais conservadores do teatro. Diziam que aquilo era outra coisa. Não sabiam o quê, mas teatro não era.

 
 
 
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OP - Na ocasião do “Luz, Ação, Espaço”, o que te levou a montar o espetáculo?

Dami - Já tinha visto um ator que fazia dublagens de Diana Ross, Shirley Bassey e Grace Jones como ninguém. Era também a época da febre do Dzi Croquettes (grupo de teatro e dança carioca). Isso tudo me atiçou muito e fiquei com essa ideia. Conversei com um amigo - o Emanuel Brito Júnior, o Juninho - que me disse que tinha dinheiro e queria investir em alguma coisa, que se eu quisesse ele produzia. “Tu sabe que tu vai jogar dinheiro fora, né? Não vai ter retorno! Mas se é tu que tá falando, não sou eu que vou recusar!” (risos). Deu ibope, deu comentário, veio elogio? Veio, veio tudo isso. Mas o retorno financeiro não veio, não.

OP - Houve uma perseguição específica na Ditadura Militar contra transformistas e travestis. De que forma você lidava com esse contexto?

Dami - Com o “Luz, Ação, Espaço”, não teve nada. Acho que eles achavam tão insignificante que nem iam atrás. Mas, no Metamorfose, a gente usava muitas músicas e tinha que ir ao Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) pelos direitos autorais. Tinha música que tinha execução pública proibida. Eu dublava Gal Costa e Elba Ramalho. "Vaca Profana" e "Nordeste Independente" eram proibidas. Mas ninguém conferia, não davam importância. Nunca fomos censuradas, não. A gente fazia apresentações no Teatro Universitário. Depois, temporada no Theatro José de Alencar - foi muita gente de público e o Haroldo e a Hiramisa (Serra, do Grupo Comédia Cearense) dirigiam o teatro e ofereceram para ficarmos mais dias. A gente fazia também apresentações a convite: uma assistente social que era nossa amiga chamava para um dia das mães em um presídio feminino, programa do Irapuan Lima, centros comunitários, gincana de colégio…

OP - Vocês circulavam em cantos bem distintos. Havia um papel social ou político no trabalho? Avaliando de hoje, vê o que vocês faziam como uma expressão política?

Dami - Somos de uma geração em que o teatro político não era bem esse. O teatro político não discutia gênero. Era uma esquerda meio machista, às vezes homofóbica, mas a gente atuava muito ao lado de pessoas de peso. A gente se apresentou na Praça do Ferreira na 1ª Semana da Mulher nas Artes, com o pessoal ligado a Maria Luiza Fontenele (ex-prefeita de Fortaleza e membro-fundadora do Grupo Crítica Radical) e a Rosa da Fonseca (ex-vereadora e membro-fundadora do Grupo Crítica Radical), na União das Mulheres Cearenses (UMC). Na candidatura da Maria Luiza para a prefeitura, no começo do PT, a gente fazia umas coisas. Uma vez, fomos chamadas para um show sobre liberdade de expressão no centro acadêmico da Faculdade de Direito. O povo mais jovem da esquerda achava o nosso trabalho interessante.

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OP - Você disse que não se considerava “político” aquilo que vocês faziam na época, mas, pessoalmente, você considera que era uma expressão política?

Dami - Talvez não fosse essa a função principal, na nossa cabeça. A gente era jovem, queria fazer, comprou a briga e fez. Mas não tinha essa questão do gênero, essa discussão não era presente nas nossas vidas. A gente vivia assim. As pessoas achavam que a gente era libertária, às vezes que era libertina (risos), mas a gente estava fazendo o teatro que a gente queria fazer e que acreditava necessário naquele período, vivendo nosso tempo. A gente dava preferência a fazer as músicas que a gente se identificava e às vezes elas eram as censuradas.

OP - Nessa época em que não havia o contato com a discussão de gênero, você já se identificava como travesti?

Dami - Na minha cabeça, sim. Eu não andava, por exemplo, de vestido 24 horas por dia, mas para todas as festas que me convidavam ia sempre montada. Lembro de uma ocasião que uma amiga convidou a gente para uma festa na casa dela e fomos naturalmente montadas. Quando descemos da carona, foi: “Gente, nem perguntamos se podia vir montada! E se ela morar com os pais?” (risos) “Seja o que tiver que ser, não vamos nos preocupar com isso, se ela não quiser que a gente fique, vamos embora!”. Mas que nada, foi tudo lindo, as pessoas foram todas receptivas. Fui criança na década de 1960, imagine a Fortaleza que era. Sou suburbana, da periferia. Eu vivia como criança, não sabia o que era. Não tinha ninguém pra me dizer: “Você deve ser gay”. Nem diziam “olha o viadinho”, até disso tinha pouco porque meus irmãos não deixavam. A partir dos 15, 16 anos, fui ter mais clareza das coisas, ler mais, ia ao teatro, ao cinema. Minha mãe investia muito nisso, tinha essa preocupação com a gente, principalmente comigo. São tão diferentes as coisas que na Vila Manoel Sátiro, bairro vizinho, tinha dois cinemas, na Parangaba, no Jardim América, então a gente nem precisava sair daquele trecho. Num sábado à tarde, ela dava dinheiro para mim e pedia para um rapaz que trabalhava lá em casa ir comigo, isso com nove, 10 anos. Lembro muito do cinema caindo aos pedaços, mas com exibições de faroeste, Grande Otelo e Oscarito.

 
 
 
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OP - Ouvindo isso e sabendo do seu percurso depois no teatro e no cinema, esse caminho faz sentido

Dami - Todo o sentido! Só que minha mãe não tinha nenhuma teoria sobre isso. Ela não estava formando uma pessoa para ser artista, ela estava botando o filho dela para viver como ela achava que toda criança deveria viver.

OP - De que forma a sua família encarava seu envolvimento com o teatro e a arte transformista?

Dami - Meu pai e minha mãe não se importavam que eu queria ser artista, mas achavam que tinha que fazer uma faculdade, para ter uma profissão, e o teatro seria uma coisa paralela. “Não dá dinheiro, como você vai se sustentar?”. Saí de casa com 18 anos, mas saí e voltei várias vezes. Mas, por exemplo, minha mãe trabalhava na Secretaria de Educação do Estado e conheceu a Antonieta Noronha (1936-2015, atriz cearense), que era funcionária de colégio e ia lá levar documentos. Minha mãe era protocolista, recebia essas coisas e, numa conversa, disse para a Antonieta que tinha um filho que achava que ia ser artista. Daí a Antonieta disse: “Pois vou falar com um amigo meu (Marcus Jussier) para pedir uma bolsa no curso de desenho dele”. Durante o curso, ele percebeu que eu tinha tendência para desenho de moda e me separou da turma para aprender. Eu não sabia de nada de figurino, adereço, mas gostava de desenhar roupa, fantasia de carnaval. Fazia os desenhos aleatoriamente e ele achou que já era uma tendência para a moda, daí foi me ensinar as técnicas dos croquis.

 
 
 
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OP - Foi com a posterior ligação com o teatro que você foi aplicar essa teoria de moda na prática?

Dami - Sim, porque sempre que tinha uma montagem que eu fazia parte alguém dizia “tu sabe desenhar, então desenha o figurino!”. Não tinha quem fizesse essas coisas, era sempre alguém que fazia “também”. Foi tudo muito natural. Quando fui estudar desenho, não pensava em ser figurinista ou estilista. Minha mãe até achava que eu devia ter feito vestibular para arquitetura porque sabia desenhar - ao mesmo tempo meu pai achava que eu tinha que fazer direito porque tinha facilidade de falar (risos). Quando acabou o curso de desenho, a Antonieta me procurou para dizer que tinha conseguido me inscrever no curso de cinema da Casa Amarela. Não me destaquei, mas pelo resto da vida o Eusélio (Oliveira, professor e cineasta fundador do equipamento, 1933-1996) lembrava de mim, me encontrava e sempre falava. Quando fiz “Tigipió - Uma Questão de Amor e Honra” (filme de 1985 dirigido pelo cineasta Pedro Jorge de Castro), que foi um dos primeiros do polo de cinema aqui do Ceará, ele lembrava de mim.

Entre os trabalhos de Dami, estão os figurinos dos espetáculos "Cactos"(Grupo Expressões Humanas), "A Raposa das Tetas Inchadas" (Grupo Teatro Novo) e de filmes como "Tigipió" (de Pedro Jorge de Castro), "O Quinze" (de Jurandir de Oliveira) e "Bate Coração" (de Glauber Filho)
Entre os trabalhos de Dami, estão os figurinos dos espetáculos "Cactos"(Grupo Expressões Humanas), "A Raposa das Tetas Inchadas" (Grupo Teatro Novo) e de filmes como "Tigipió" (de Pedro Jorge de Castro), "O Quinze" (de Jurandir de Oliveira) e "Bate Coração" (de Glauber Filho)

OP - Vi você falando que considera que “casou com os bastidores” nos anos 1990. Como se deu a escolha?

Dami - Quando fui para o teatro, queria interpretar, mas toda vez que estava numa montagem tinha algum envolvimento com maquiagem ou figurino, pelo menos para ajudar. Em 1992 ou 1993, participei da última montagem na qual atuei, “Por Amor Encarcerado”, que era um espetáculo sobre a vida do Oscar Wilde e do Alfred Douglas. Dessa vez, decidi só atuar, mas depois disso foi “chega, enjoei” (risos) e decidi que não queria mais atuar. Sou uma pessoa muito dinâmica, inquieta. Às vezes uma imagem que aparentemente não tem nada a ver me desperta muita coisa. Gosto (dos bastidores) porque trabalho no antes. Quando o espetáculo entra em cena, já saí. Faço tudo que tenho para fazer, às vezes vou na estreia e pronto, vou para outra. O trabalho do ator é muito cansativo, ele elabora todo o espetáculo por meses e depois ainda vai atuar.

OP - Cada demanda pede uma coisa, mas o que te inspira e norteia artisticamente de forma geral?

Dami - Com a minha idade, já tenho um banco de dados na cabeça que é imenso, mas sempre prefiro ler. Se vou fazer um espetáculo do século XIX, vou estudar. Gosto da pesquisa, de livros. Posso usar os recursos da internet, o que não tinha no começo, vejo filmes. Lembro, da juventude, quando comecei a ir ao cinema, os filmes que eu queria ver eram quase todos proibidos, muita censura, mas há filmes que nunca esqueci. “Hair” (musical estadunidense de 1979 dirigido por Milos Forman), por exemplo, vi muitas vezes. Os cinemas eram no centro da Cidade, lindos! O São Luiz, o Diogo, o Fortaleza, que era moderninho e pequenininho e fazia uns festivais maravilhosos. No Festival Pasolini, não perdi um filme! Ia para o Festival de Cinema de Arte que tinha no CineArt, perto do IJF, e via Fellini, Antonioni. Outro que me marcou muito foi o “Rainha Margot”, que vi no Cine Fortaleza. “Dona Flor e seus Dois Maridos” foi um dos primeiros que vi após meus 18 anos, “Laranja Mecânica” no mesmo período. Umas coisas bem punk, já gostava de coisas mais desafiadoras. (risos)

OP - De que forma a pandemia te impactou, pessoalmente?

Dami - Moro numa casa própria, que meus pais deixaram, então não tinha problemas. A preocupação era meu ateliê (nomeado como Orelha de Van Gogh), que é no Centro, porque ia ter que pagar os aluguéis atrasados. Minhas irmãs foram todas se refugiar no sertão e fiquei em casa com um irmão que trabalhava fazendo entrega com um caminhão. Fiquei sem ter o que fazer. Livro já tinha lido, filme começou a ficar chato, foi ficando cansativo. Comecei a lembrar de algumas pessoas travestis e trans aqui do Brasil - a Rogéria (atriz e cantora, 1943-2017), a Divina Valéria (atriz e cantora), a Eloína (dos Leopardos atriz) -, aí comecei a descobrir outras, ia no Google, tinha as coisas que eu lembrava de outras leituras. Decidi fazer postagens sem pretensão de resgate de biografia, até porque não tinha a pesquisa para isso, mas fui descobrindo. Não sabia das irmãs trans de “Matrix” (as cineastas Lilly e Lana Wachowski), da Camille Cabral (paraibana médica, militante e primeira transexual eleita na França), da Bruna Benevides, cearense que hoje está na Antra (Associação Nacional de Travestis e transexuais). Foi bom para mim.

 
 
 
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OP - A iniciativa mais recente que você lançou, o Projeto Giraluas, me parece ter a ver com isso. Ele parte do mote “narrativas da autocriação trans”. De onde veio a ideia?

Dami - Falei com o Tim (Oliveira, fotógrafo) que eu queria fazer, via Orelha de Van Gogh, uns vídeos, imagens - não pretendia posar, só fazer bastidores - sobre a violência contra pessoas trans. Falei de ideias, de como podíamos fazer com o mínimo de dinheiro. Ele sugeriu que a gente chamasse a Levi Banida (professora e interartista fortalezense), que poderia fazer as maquiagens. Quando falamos com a Levi, ela jogou a ideia muito mais para cima: “Vamos falar das pessoas que estão vivas, produzindo!”. A gente não vai fazer de conta que não existe violência, não é isso, mas vamos dessa vez falar também das pessoas que estão trabalhando, atuando no mundo, na vida, entrando nos lugares onde muitas não entravam. A Levi sugeriu o nome Giraluas por conta dos girassóis do Van Gogh. A gente acatou imediatamente. Sai desse universo masculino - “o sol”, “o mundo”. Quando se fala de lua como adjetivo, é pejorativo, se diz lunática. (risos) 

OP - Há alguma pretensão de juntar essas imagens numa exposição ou publicação?

Dami - Menino, pretensão é o que não falta! (risos) A gente pensa inclusive a longo prazo. Era só pessoas de Fortaleza, mas aí eu pensei em colocar “pessoas do planeta Terra”, porque, se der certo, a gente vai colocar muito mais histórias, do mesmo jeito que fui encontrando pessoas de vários lugares do mundo nas minhas pesquisas. Comecei (as postagens) a partir de Fortaleza, com a Janaína Dutra (ativista e advogada cearense, 1960-2004) - que era minha amiga, conheci estudando direito na Unifor - e daí parti para o mundo. Então a ideia é esse projeto ir para o mundo. Se, quando chegarem em Marte, a gente estiver viva também, a gente vai lá procurar umas trans marcianas. (risos)

OP - Você teve suas referências. Como encara ter se tornado uma?

Dami - A expectativa de vida das travestis e trans era de 30 e poucos anos. Agora, com essa violência crescente… Não estou falando de violência com o pensamento de classe média, que tem medo de sair de casa, mas da violência pela violência. Como é que uma pessoa mata uma criança de 12, 13 anos, que é travesti, como está acontecendo? Ao invés de aumentar a expectativa de vida - como a das pessoas cis, que aumentou muito -, a nossa vai diminuir, é isso? Já tão matando com 15 anos, com 13 anos? As pessoas me verem como uma referência é porque sou uma pessoa com mais de 60 anos trabalhando, viva, andando na rua a qualquer hora do dia, entrando nos lugares mais variados, ocupando muitos espaços, adquirindo respeito pelo meu trabalho… Acho que isso serve como referência. A gente está muito relacionada nos meios de comunicação às más notícias: “Travesti assassinada”, “travesti presa”. É claro que nos depoimentos pessoais do projeto, as pessoas contam as histórias delas. Por isso essa ideia de fazer com pessoas vivas e ativas, para não ficar só aquela imagem da gente como perseguidas, espancadas. Passamos por tudo isso, mas não só.

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